Lutando com o Argumento Ontológico

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Lutando com o Argumento Ontológico

Eu trabalho em uma empresa aeroespacial e eu sempre entendi que se fosse convencido da existência de Deus, provavelmente seria por algo como o argumento teleológico. A aparência de design do próprio universo e tantas coisas nele é algo realmente intrigante, mas nunca foi o suficiente para me convencer. Eu entendo porque os teístas acham esse argumento convincente, mas atualmente eu ainda acho o oposto suficientemente convincente para permanecer sem ser persuadido. Então, você pode se surpreender, assim como certamente me surpreendo também, com o que eu me encontro lutando para resistir é a força persuasiva do argumento ontológico, a qual minha incapacidade de refutar tem me incomodado há décadas. Tudo começou na faculdade quando li pela primeira vez Santo Anselmo em uma introdução à aula de filosofia. No começo eu zombei o argumento junto com todo mundo, mas quando eu realmente ouvi as refutações apresentadas, percebi que todas elas caíam em erros categóricos ou de outra forma perdiam o sentido. Eu encontrei-me, como um cético, defendendo Anselmo em sala de aula! Eu estava certo de que o argumento era errado, mas nenhuma das razões oferecidas contra ele eram razões boas e válidas para dizer POR QUE o argumento era errado. Eu não podia encontrar o argumento convincente, mas eu estava realmente incomodado com a minha incapacidade de explicar o POR QUE. Isso me incomodou muito durante todo o semestre, tanto que eu escrevi meu artigo sobre o argumento de Anselmo. Se este argumento é tão pouco convincente, porque não posso explicar POR QUE é errado? Alguns anos mais tarde, um amigo cristão falou-me para ler uma coleção de trabalhos de Descartes, e aqui mais uma vez eu encontrei-me lutando contra este argumento. Sinceramente, sinto que muitos pensadores modernos não dão à Descartes o crédito que merece no caso que ele faz para este argumento, mas seja como for, eu estava encontrando-me completamente numa enrascada pela minha incapacidade de explicar por que o argumento era errado e ainda por que não me persuadiu. Eu li os avanços de Alvin Plantinga no argumento e a sua defesa da articulação dele sobre isso. Eu li a própria luta de Bertrand Russel com, exatamente, como alguém teria que mostrar que o argumento é inválido. Como eu, ele não acreditou, mas achei curioso que ele pôde dar nenhuma explicação do por que!

Pondo a lógica de lado completamente, eu parei no topo das quedas mais baixas do Rio Yellowstone e ao olhar para a majestosa grandeza da bacia abaixo, me vi confrontado com o que eu chamo a evidência existencial para o Maior Ser Concebível (MSC). O mundo inteiro parecia estar me dizendo que o argumento era verdadeiro, mas de alguma forma eu me encontrei ainda incapaz de acreditar. O argumento tornou-se, como Morpheus diz no filme Matrix “como uma lasca em tua mente dirigindo você doido”.

Então, minha pergunta se resume a isso. Finalmente eu encontro apenas um motivo para questionar o argumento Ontológico. Se é verdade que o MSC é logicamente necessário, então deve ser verdade que a afirmação de um universo que não tem o MSC deve ser logicamente absurda e auto-refutável. Eu não preciso de provar a alguém que a verdade existe porque a verdade é logicamente necessária, e por isso ele tem de afirmá-la, mesmo no ato de negá-la. Mas é a afirmação de que não há MSC realmente assim? É uma afirmação logicamente absurda e auto-refutável? Parece que se o argumento ontológico é realmente verdadeiro, então ele deve ser verdadeiro, mas eu não posso ver o absurdo puramente lógico inerente ao conceito de um universo ateísta. Você poderia me mostrar como a afirmação do ateísmo (ou a negação do MSC) é logicamente absurda e auto-refutável? De outra forma, você poderia me mostrar como o MSC poderia ser logicamente necessário, mas ainda negar sua existência, de alguma forma, poderia NÂO ser logicamente absurdo?

Obrigado por sua ajuda e por ser um teísta intelectualmente envolvido, com o qual os céticos honestos podem falar sobre tais coisas na busca da verdade.

Luke

Estados Unidos

United States

Eu adoro isso, Luke, quando as pessoas honestamente lutam muito e duro com um argumento teísta, em vez de esquivá-lo com comentários superficiais, como se vê rotineiramente, por exemplo, no Facebook. Estas são perguntas profundas que merecem ser ponderadas.

Como você, eu estava há anos cético sobre o argumento ontológico. No máximo, ele serviu para mim como um modelo para Deus, o conceito de um maior ser concebível, o que implicou que a necessidade metafísica desse ser. Não foi até que eu li defesa de Alvin Plantinga do argumento em seu livro The Nature of Necessity [A Natureza da Necessidade] (Oxford: Clarendon Press, 1974) e as reações a ele que eu, para minha surpresa, tornei-me convencido de que este é realmente um bom argumento em favor da existência de Deus.

Para aqueles que não estão familiarizados com o argumento, deixe-me explicar que Plantinga concebe Deus como um ser que é "maximamente excelente" em todos os mundos possíveis. Plantinga leva a excelência máxima para incluir propriedades como onisciência, onipotência e perfeição moral. Um ser que tenha a excelência máxima em todos os mundos possíveis teria o que Plantinga chama de "grandeza máxima". Seria o que você, Luke, chamar Maior Ser Concebível (MSC). Agora, Plantinga argumenta:

1. É possível que um ser maximamente grande exista.

2. Se é possível que um ser maximamente grande exista, então um ser maximamente grande existe em algum mundo possível.

3. Se um ser maximamente grande existe em algum mundo possível, então ele existe em todos os mundos possíveis.

4. Se um ser maximamente grande existe em todos os possíveis, então ele existe no mundo real.

5. Se um ser maximamente grande existe no mundo real, então um ser maximamente grande existe.

6. Portanto, um ser maximamente grande existe.

Agora a pergunta é: "Você poderia me mostrar como a afirmação do ateísmo (ou a negação do MSC) é logicamente absurda e auto-refutável? De outra forma, você poderia me mostrar como o MSC poderia ser logicamente necessário, mas ainda negar sua existência, de alguma forma, poderia NÂO ser logicamente absurdo?"

Acho que a resposta é que a negação do MSC é logicamente absurda, mas não auto-refutável. A suposição de sua primeira pergunta é que "Se é verdade que o MSC é logicamente necessário, então deve ser verdade que a afirmação de um universo que não tem o MSC deve ser logicamente absurda e auto-refutável". Essa suposição é, penso eu, um erro.

Pois o argumento não está estruturado em termos do que Plantinga chama de necessidade lógica estrita ou estreita, mas em termos de necessidade lógica ampla. Necessidade lógica ampla é muitas vezes chamada “necessidade metafísica”. Ela tem a ver com o que é materializável ou realizável. Algum estado de coisas pode ser metafisicamente impossível, mesmo que não envolva uma contradição lógica e por isso não é estritamente e logicamente impossível. Meu exemplo favorito de Plantinga é o primeiro-ministro ser um número primo. Qualquer um pode ver que isso é metafisicamente impossível, mesmo que ele não envolvesse nenhuma auto-contradição lógica. Portanto, a afirmação de que o primeiro-ministro é um número primo, enquanto (amplamente) logicamente absurda, não é auto-refutável.

Da mesma forma, a não existência do MSC é logicamente absurdo (isto é, em termos amplamente e logicamente impossível), mas não auto-refutável de se afirmar. Uma das objeções mais desgastadas para o argumento ontológico é que a afirmação "Deus não existe" não é uma contradição e, portanto, a existência de Deus não é logicamente necessária, como o argumento ontológico implica. Esta objecção foi agora ultrapassada pelo entendimento de que a modalidade envolvida na semântica de mundos possíveis não é estrita, mas uma possibilidade e necessidade ampla e lógica. Então você não deve rejeitar o argumento, Luke, só porque a afirmar "O MSC não existe" não seja auto-refutável.

Agora, isso ainda deixa a pergunta: “Você poderia me mostrar como a afirmação do ateísmo (ou a negação do MSC) é logicamente absurda, [senão] auto-refutável?", e a resposta a essa pergunta apenas é o argumento ontológico! Esse argumento mostra que, se o conceito de um MSC é amplamente e logicamente possível, então o MSC deve existir. Então tudo volta novamente para se você acha que a primeira premissa é verdadeira.

William Lane Craig