#508 Deus deveria criar simulações da realidade?
February 10, 2017Olá, Dr. Craig.
Muito obrigado por criar este site e por todo o seu empenho em difundir a palavra de Cristo. Fui ateu pela maior parte da minha vida, mas me tornei seguidor de Cristo este ano. Havia muitas questões filosóficas sobre o cristianismo que me incomodavam, mas a maioria delas foi respondida ao assistir a seus debates e ler livros de teologia cristã. Ainda há uma pergunta que me incomoda, e é a seguinte:
Em uma das perguntas semanais, o senhor mencionou que a salvação universal é impossível por causa do livre-arbítrio. Se for assim, por que Deus não cria diferentes simulações/mundos para cada pessoa, a fim de persuadi-la a amá-lo? Por exemplo, Paulo se converteu por causa da aparição de Cristo. E se tudo na vida de Paulo até aquele ponto fosse uma simulação? (A criação de Paulo foi perfeitamente orquestrada por Deus e as pessoas com as quais Paulo interagiu ao longo de sua vida eram, de fato, anjos disfarçados.) Em outra simulação, se o faraó de Moisés tivesse sido instruído acerca da humildade no início da vida, ele teria sido obediente a Deus.
Supondo que exista uma simulação perfeita para cada pessoa, Deus, então, encheria o céu com essas pessoas depois que elas passassem essa simulação. Assim, não haveria necessidade de punição eterna.
Um contra-argumento seria se uma simulação designada para persuadir uma pessoa a amar a Deus solaparia o livre-arbítrio individual. Eu diria que a pessoa ainda tem livre-arbítrio porque foi persuadida a amar a Deus, o que em nada difere de Cristo ir a Paulo, Pedro e todos os outros apóstolos para persuadi-los mediante a manifestação de milagres e seus ensinamentos.
Já agradeço pela atenção à minha pergunta.
Victor
<ul><li>United States</li></ul>
Dr. craig’s response
A [
É uma alegria ler a respeito de sua jornada espiritual à fé cristã, Victor! Espero que lhe possa ser útil com esta resposta.
Primeiramente, não afirmo que “a salvação universal é impossível por causa do livre-arbítrio”. A questão é sutil e facilmente mal compreendida. Penso que, com certeza, existam mundos logicamente possíveis em que todos livremente colocam sua fé em Cristo e, portanto, são salvos. O que eu disse é que, por tudo o que sabemos, talvez não seja viável que Deus realize mundos assim (ou, se alguns são viáveis, devem ter um predomínio de deficiências que os fazem menos preferíveis). A questão é que o fato de Deus ser onipotente não implica que ele possa realizar qualquer mundo logicamente possível. As pessoas nesses mundos, se Deus tentasse realizá-los, poderiam livremente escolher rejeitar a Deus. Podemos compreender este ponto ao notar que o tipo de mundo que é real não depende somente de Deus; criaturas livres são correalizadoras do mundo com Deus por meio de suas livres escolhas, que Deus não determina. Assim, talvez não seja viável a Deus concretizar um mundo de livre salvação universal (sem que ele tenha um predomínio de deficiências).
Pois bem, sua proposta é que, para qualquer pessoa, existam circunstâncias em que ela livremente colocaria sua fé em Cristo e seria salva. Por que, então, Deus não faz uma simulação de um mundo em que essa pessoa pense que está nessas circunstâncias, embora não esteja? Ela estaria numa espécie de realidade virtual, como as pessoas no mundo virtual de Matrix. Desse modo, todos livremente viriam a crer em Cristo e seriam salvos.
Concordo que as pessoas em tais simulações exerceriam seu arbítrio livremente, mas tenho duas ressalvas quanto a esse cenário.
Em primeiro lugar, ele não parece resolver o problema. Todas essas simulações são parte de algum mundo possível. Sendo assim, não basta que cada pessoa tenha circunstâncias possíveis em que livremente viria à fé em Cristo. Antes, todas essas circunstâncias simuladas têm de ser compossíveis, ou seja, no mesmo mundo possível. Porém, essas circunstâncias simuladas podem muito bem ser não mais compossíveis do que as circunstâncias reais. Pode ser que, por tudo que sabemos, em qualquer mundo viável para Deus, nem todas as pessoas em suas diversas circunstâncias simuladas viessem a livremente escolher a Cristo. Pode ser que, em qualquer mundo viável para Deus, algumas das pessoas nas simulações não dessem certo. Nesse caso, nada se ganhou ao fazer as circunstâncias simuladas, em vez de reais.
Em segundo lugar, o que você propõe me ocorre como algo tremendamente enganoso: Deus engana pessoas ao fazê-las pensar que estão em certas circunstâncias, quando, na verdade, não estão. Isso inclui a ilusão de que alguém tem pais, esposa ou filhos amorosos, quando, na verdade, não passam de simulações. Acho difícil acreditar que um cenário assim seja compatível com a perfeita bondade de Deus. Deus não é enganador. Portanto, questiono se o cenário imaginado é metafisicamente possível.
O interessante é que o filósofo David Hunt certa vez deu sugestão parecida como uma espécie de conjectura extravagante. Talvez você se interesse em ler minha resposta aqui [em inglês].
- William Lane Craig