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#505 Deus poderia ter perdoado o pecado sem punição?

February 10, 2017
Q

Caro Dr. Craig,

Já lhe perguntei sobre a expiação em outra ocasião. Desculpe por esta minha última pergunta em várias partes, que na verdade é uma só.

Minha pergunta é a seguinte: mesmo que seja legítimo da parte de Deus usar a imputabilidade e a punição vicárias para nos salvar — legítimo porque são elementos estabelecidos da lei ocidental —, por que Deus preferiria a imputabilidade vicária ao perdão, que também é uma parte reconhecida da lei ocidental? Do ponto de vista jurídico-filosófico, qual vantagem existe da imputabilidade/punição sobre o perdão? Será que Deus não poderia ter escolhido a opção legal do perdão, se assim desejasse, em vez da expiação substitutiva? Que propósito há no sofrimento de Jesus, se a absolvição pode ser obtida de outro modo? Ou será que existe alguma outra consideração moral, estética ou pessoal que torna a substituição penal preferível?

Obrigado.

Jarrod

  • United States

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Antes de tratar de sua interessante pergunta, Jarrod, quero deixar claro que meu apelo aos sistemas de justiça ocidentais não tem a intenção de legitimar a punição de Deus executada por Deus em nosso lugar. Antes, tem a intenção de refutar a objeção tão repetida de que a imputação da transgressão e culpa a uma parte inocente é inédita e sem precedentes em nossa experiência e que, portanto, a doutrina da imputação é falsa ou incoerente. Acontece que aquilo que essa objeção supõe é categoricamente incorreto.

Você tem toda razão de que o perdão, assim como a punição, é um recurso dos sistemas de justiça ocidentais para remover a imputabilidade de alguém à punição. Como alguém que pagou seu dívida à sociedade não está mais sujeito à punição, assim também alguém que foi perdoado por alguma autoridade reconhecida do estado está eximido da punição. Isso traz à tona a questão da possibilidade de Deus ter simplesmente nos perdoado por nossos pecados, em vez de executar a punição (sobre nós ou Cristo). Será que o fato de Cristo levar nossa justa punição foi algo necessário para que Deus nos salvasse?

Talvez você se surpreenda ao saber que os teólogos cristãos não entram em acordo quanto a essa questão. Os pais da igreja, tão focados em teorias de resgate e em nossa libertação de Satanás, criam que Deus, por ser onipotente, poderia ter derrotado Satanás e nos libertado sem o sacrifício de Cristo. Somente com Anselmo, no século XI, foi que alguém defendeu a necessidade da encarnação e paixão de Cristo como o meio de nossa salvação. Anselmo denunciou as antigas teorias de resgate como inadequadas para ir ao encontro das exigências da justiça de Deus, que devem ser satisfeitas para que sejamos salvos de nossos pecados. Tomás de Aquino, embora aceitasse a explicação de Anselmo para a morte de Cristo, retornou ao ponto de vista dos pais da igreja segundo o qual a escolha de Deus de nos redimir por meio de Cristo, e não imediatamente, foi decorrente da livre escolha divina, e não uma exigência de sua justiça. Entre os reformadores protestantes, teólogos luteranos aceitaram a afirmação de Anselmo da necessidade da paixão de Cristo como o meio de nossa salvação, ao passo que pensadores reformados ficaram divididos nesta questão. Com o surgimento do socianismo, que rejeitava a substituição penal e negava a necessidade da morte de Cristo em nosso lugar, os teólogos reformados ficaram cada vez mais unidos na convicção de que Deus não poderia simplesmente nos ter perdoado sem o sacrifício de Cristo em nosso lugar.

Hugo Grócio, célebre jurista do direito internacional, defendeu a substituição penal contra as críticas de Socino, mas aceitou a visão segundo a qual a punição substitutiva de Cristo não era necessária. Deus poderia nos ter perdoado sem que Cristo carregasse a punição por nossos pecados, mas Deus escolheu a substituição penal, em vez do perdão, por causa das vantagens esmagadoras de fazê-lo desse modo. Apelando aos pais da igreja, Grócio defendeu que Deus tinha boas razões para remir nossos pecados sem punir Cristo, embora ele o pudesse ter feito assim. Deus não quis ignorar tantos e tão hediondos pecados sem testificar com algum ato como ele se desagrada profundamente de nosso pecado. O ato mais apropriado para isso é a punição. Além disso, negligenciar totalmente a punição do pecado leva a uma opinião inferior sobre o pecado, ao passo que, por outro lado, o melhor meio de prevenir o pecado é o medo da punição. Não apenas isso, mas no sacrifício voluntário de Cristo, Deus declara marcadamente seu grande amor por nós. Assim, Deus, em sua perfeita sabedoria, escolheu esse modo de redenção por meio do qual ele pôde manifestar tanto seu ódio ao pecado quanto amor pela humanidade.

Portanto, mesmo segundo os pontos de vista que consideram que a morte de Cristo não é necessária, pode haver bons motivos, como Grócio indica, para que Deus tenha escolhido nos remir por meio da substituição penal. Pode-se pensar que o perdão de Deus estendido às pessoas seria infinitamente superior à punição substitutiva, pois ele resultaria em salvação universal. Ao refletir por um momento, vemos que isso não é verdade. A redenção deve ser não apenas realizada, mas também aplicada (ver questão 482). Como os benefícios da punição substitutiva de Cristo precisam ser aceitos pela fé, assim também os benefícios conferidos pelo perdão precisariam ser recebidos pela fé. Como as pessoas livremente rejeitam o pagamento substitutivo que Cristo faz de sua punição, assim também podem rejeitar o perdão divino. De fato, quando se pensa a esse respeito, um mundo em que o perdão é oferecido sem nenhum exemplo do amor sacrificial de Cristo e do custo do pecado poderia muito bem ser um mundo em que menos pessoas são salvas do que um mundo em que Cristo leva nossos pecados por nós.

- William Lane Craig