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#72 Os ateus enlouqueceram?

February 10, 2017
Q

Questão 1:

Caro Professor Craig,

Eu sou um ateu que tem admirado seus debates e argumentos, mas tem havido uma tendência que notei em meu lado da discussão que eu queria perguntar-lhe a respeito.

Parece-me que os ateus populares de hoje, como Richard Dawkins, Daniel Dennett, Christopher Hitchens e Sam Harris, nem sempre apresentam argumentos sólidos (ou, pelo menos, válidos) da mesma forma que um filósofo como você (ou um filósofo em formação, como eu) gostaria de ver. Eu sei que existiram tais argumentos de ateus no passado (como Mackey, Russell ou Hume), mas eu não sei por que os ateus populares de hoje (ou outros ateus em geral) não empregam tal argumentação em recentes debates.

Alguém poderia atribuir isso ao fato de que os ateus populares de hoje simplesmente não têm a formação filosófica para saber como fazer argumentos válidos ou sólidos, mas isso não é verdade, pois Dennett é um filósofo. No caso de Dennett, ele se recusa a abordar os argumentos tradicionais a favor e contra a existência de Deus, e é bastante interessado nos mecanismos evolutivos por trás da crença religiosa.

Eu reconheço que existem ateus filosoficamente sofisticados hoje (Quentin Smith, o qual você conhece, é um exemplo), mas por que é que eles não estão no centro das atenções?

A que você atribui como causa disto, com a sua experiência no debate e discussão ao longo dos anos? Eu não acho que a posição ateísta é implausível (mesmo que possa ser falsa), então eu não espero que você alegue simplesmente que o ateísmo está falido. Mas se sua resposta não condiz com este pensamento, então o que poderia ser a causa?

Atenciosamente,

Arash

Questão 2:

Tenho praticado apologética cristã na rede por dez anos. Eu tenho um mestrado em Teologia pela Perkins, e fui candidato a doutorado em história das ideias durante dez anos, mas fui forçado a abandonar os estudos devido a tragédias familiares.

Eu também sediei vários fóruns de discussão, e tenho feito isso desde 1999. Tenho ficado cada vez mais frustrado e irritado sobre a natureza da mentalidade ateísta nos fóruns. Não era nada parecido com o que é agora quando descobri os fóruns. Eles costumavam ser divertidos. Eu costumava reter o melhor sobre eles o tempo todo. Eu costumava ser amado e apreciado por meu aprendizado e meu conhecimento.

Não se trata de mim, eu não estou fazendo isso para vencer argumentos. Mas isso é uma medida de como as coisas mudaram. Agora eu sou considerado como um tolo completo na rede. Isso não é porque meus argumentos de repente ficaram ruins, mas porque os ateus perceberam que podiam parar de debater as questões e começar a me debater. Agora todas as postagens nos fóruns se trata de me combater. Eu não posso ir em um único fórum onde os ateus não começam a ridicularizar e em que eles se recusam a ouvir os argumentos. Eles tentam encontrar qualquer tipo de pequenas falhas em cada coisa que eu digo.

Como um membro da comunidade apologética na rede digo que estou muito alarmado com isso. Essencialmente os fóruns já não são uma ferramenta de apologética ou evangelismo. Ateus demonstram mais e mais ódio o tempo todo. Em seu próprio fórum, hoje mesmo, um ateu ridicularizou tudo o que eu disse, embora ele não tenha entendido uma única palavra, e, em seguida, anunciou que os cristãos não são dignos de respeito.

Eu acredito que a comunidade dos apologistas da internet têm de se unir se queremos mudar o ambiente. Temos que começar a proibir as pessoas de insultar o cristianismo. Como em qualquer intimidação, eles sempre se retraem se você enfrentá-los. Eles se tornam mais abusivos se você tentar ser gentil com eles.

Creio que temos de começar a impor vigorosamente regras que os proíbem de difamar os cristãos e o cristianismo. Quase todas os fóruns têm regras que proíbem o abuso, mas ninguém as impõe contra a atitude um pouco sarcástica dos ateus. Temos de começar a fazer isso. Não estamos perdendo nada caso se afastem porque eles estão transformando o Evangelho em uma chacota de qualquer maneira.

Eu espero que você considere o que eu disse. Também estou aberto a outras sugestões sobre o que fazer.

Sinceramente, em Cristo

Joe

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Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Fiquei fascinado com a concordância destas duas cartas, uma por um ateu e a outra por um cristão, sobre o tom grosseiro que predomina entre os ateus de nível popular nos dias de hoje. Eu compartilho estas cartas por seu interesse intrínseco e não por qualquer visão especial que eu pudesse oferecer sobre as razões desta mudança.

Concordo com você, Arash, que o ateísmo não é uma visão de mundo implausível e que, portanto, a pobreza da argumentação ateísta não pode ser rebaixada na falência do próprio ateísmo. Na minha experiência, ao parecer, isso se deve à simples ignorância da literatura.

Acadêmicos estão estreitamente focados em suas respectivas áreas de especialização e permanecem em grande parte ignorantes sobre assuntos – especialmente nos temas em que eles têm pouco interesse - fora de seus campos escolhidos. Quando se trata de assuntos fora das suas áreas de especialização, as opiniões dos grandes cientistas, filósofos e outros acadêmicos não carregam mais peso do que os pronunciamentos de um leigo - de fato, sobre estes assuntos são leigos. Em dezenas de debates com professores não-teístas ao longo dos anos, tenho sido surpreendido com a incrível ignorância dos estudiosos reconhecidamente brilhantes quando se trata de questões de teologia e filosofia da religião.

Deixe-me dar alguns exemplos. Meu amigo Quentin Smith, o qual você mencionou, há vários anos, sem a menor cerimônia coroou o argumento de Stephen Hawking contra Deus em Uma Breve História do Tempo como "o pior argumento ateísta na história do pensamento ocidental"[1] Com a publicação do "argumento central" de Richard Dawkins de seu O Delírio de Deus, o qual eu critiquei em outro lugar, chegou o momento, penso eu, para aliviar Hawking desta coroa pesada e reconhecer a ascensão de Dawkins ao trono. Alguns anos atrás ouvi o físico ganhador do prêmio Nobel, Steven Weinberg, palestrar na conferência "A Natureza da Natureza" na Universidade de Baylor. Fiquei chocado ao ouvir pouco mais do que o discurso irritado de um ateu de um vilarejo. Mesmo filósofos que não se especializam em filosofia da religião podem tropeçar quando se fala fora de sua área de especialização em filosofia. Pelo fato de você ter mencionado Dennett, dê uma olhada no debate que tive com ele no Seminário Teológico Batista em Nova Orleans a respeito da conferência Greer-Heard em 2007 sobre o ateísmo ("Em defesa dos argumentos teístas," no Futuro do Ateísmo: Alister McGrath e Daniel Dennett em Diálogo, ed Robert Stewart [Philadelphia: Fortress Press, no prelo]). Suas objeções à argumentos tradicionais teístas eram como aquelas que você iria se deparar em uma monografia de graduação. Quando terminei minha crítica, ele subiu ao palco, fez uma pausa, e depois exclamou: "isso foi um tour de force!" (Na verdade, foi elementar.) Então, qual foi sua resposta? Ele basicamente disse, "Eu acho que isso mostra que, caso você possa deduzir uma conclusão que não seja plausível a partir de um conjunto de premissas plausíveis, então você tem apenas que voltar atrás e negar algumas dessas premissas!"

Agora, se os acadêmicos finos como estes não conseguem ser profundos quando se trata de filosofia da religião, quanto mais à deriva estão aqueles populares como Harris, Hitchens e afins! O mesmo acontece, Joe, com os ateus que você encontra nos fóruns. Você tem que ter em mente que muitas dessas pessoas são apenas adolescentes irritados que não têm formação acadêmica nas áreas em que se declaram ser confiantes. Ao lhes faltar os meios intelectuais para debater as questões, seu único recurso é a ridicularização e o sarcasmo.

O que esses populares não entendem é que, se você ler o trabalho dos estudiosos não-teístas que estão trabalhando em filosofia da religião, verão que os mesmos não tratam o teísmo com desrespeito, nem saúdam os cristãos com escárnio. Se você ler um livro brilhante como o de Graham Oppy sobre Argumentando sobre Deuses, por exemplo, em que ele lança toda objeção concebível contra os argumentos teístas, o que você pode perder é que no final de tudo Oppy está argumentando que existem argumentos racionalmente coersivos para a existência de Deus (uma tese com a qual a maioria dos filósofos cristãos provavelmente concordaria!), mas que, da mesma forma, também não existem quaisquer argumentos racionalmente coercivos contra a existência de Deus, de modo que os teístas podem ser perfeitamente racionais em acreditar da maneira como o fazem. Muito poucas pessoas que sabem pensar achariam que o desdém e a condescendência desses populares em relação aos teístas em geral, e os cristãos em particular, é justificada.

Agora, como um filósofo cristão, digo que o rumo dos acontecimentos em certo sentido me fez rir. Voltando para os anos trinta e quarenta, durante os dias escuros da retirada fundamentalista do meio acadêmico, a multidão do livre-pensamento foi talvez justificada ao olhar para baixo de seus narizes, na subcultura cristã. Eles poderiam se colocar como os líderes da racionalidade e tratar os cristãos como intelectuais de segunda categoria. Agora, de forma contrastante, a subcultura do livre-pensamento encontra-se no lado perdedor do concurso intelectual. Ela está desatualizada em relação à obra filosófica sobre os argumentos para a existência de Deus, fora de contato com o diálogo florescente entre ciência e religião que está acontecendo hoje, presa na velha metáfora de guerra de Andrew Dickson White, e atolada na crítica bíblica do século XIX e em estruturas interpretativas mitológicas para a compreensão do Jesus histórico. Estou positivamente exultante sobre como a paisagem mudou!

É claro, Joe, que conforme você se queixou, pode ser irritante ter de enfrentar a arrogância e condescendência de pessoas que são, por vezes, tão invencivelmente ignorantes. Mas, então, o que você espera? Tome algum tempo para meditar sobre os capítulos de abertura de I Coríntios. Olhe quantas vezes Paulo usa as palavras "ingênuo" ou "tolo". Paulo diz que a mensagem do Evangelho é loucura para o mundo incrédulo, que o homem natural, sem o Espírito de Deus, considera as coisas espirituais como insensatas, que "Se alguém entre vós pensa que é sábio neste mundo, faça-se louco para que ele se tornar sábio "(I Cor. 3.18). Aos seus detratores, os quais depreciaram Paulo, ele escreveu: "Nós somos loucos por amor de Cristo" (I Cor. 4.10). Estou convencido de que até que uma pessoa esteja pronta para engolir seu orgulho e ser considerado um tolo por amor de Cristo, ele não está pronto para ser plenamente utilizado por Deus.

Obviamente, não posso colocar isso sem dizer que de fato não podemos ser tolos ou medíocres em nossos relacionamentos. Devemos buscar a excelência e assumir o chamado de Charles Malik para desafiar estudiosos seculares em suas próprias áreas de conhecimento. Devemos ser intelectualmente humildes e prontos para aprender com os nossos críticos e abertos a suas críticas. Podemos descobrir que cometemos erros e precisamos revisar ou abandonar nosso argumento. Mas no final, precisamos estar preparados para sermos ridicularizados como loucos por amor de Cristo.

É claro que dói quando as pessoas não apreciam você ou seu trabalho. Mas aqui podemos tirar encorajamento das palavras de Jesus: "Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e disserem todo mal contra vós por minha causa. Alegrai-vos e exultai, porque vossa recompensa será grande no céu, pois assim homens perseguiram os profetas que foram antes de vós "(Mat. 5,11-12). Você realmente acredita nisso, Joe? Então, alegre-se! Não nos alegremos em sentir pena de nós mesmos, mas regozijemos no fato de termos a honra de carregar o mesmo opróbrio que caiu sobre nosso Senhor.

Ao invés de ficar com raiva de quem nos ridiculariza, precisamos considerar a fonte e sentir compaixão por essas almas perdidas. Lembro-me de um ditado que ouvi certa vez: "Eu não poderia ter mais raiva dele do que teria com um homem cego que pisasse no meu pé".

Seu ponto sobre a ineficácia evangelística das mensagens nos fóruns é uma preocupação prática que aqueles que passam muito tempo em tais fóruns precisam medir sériamente. Nosso fórum aberto na Reasonable Faith não se destina principalmente para servir a um propósito evangelístico, mas em promover a discussão de questões importantes entre quem quiser participar. É minha esperança que os cristãos sejam aprofundados na sua compreensão da verdade cristã por meio de tal discussão.

Tenha em mente também que centenas de pessoas estão lendo sua troca de mensagem com algum ateu recalcitrante e observando como você responde. Como em meus debates públicos, o objeto dessa comunicação pode não ser para convencer a pessoa com quem você está envolvido, mas para convencer aqueles em sua audiência que estão à procura, com uma mente aberta. A maldade e mente fechada do seu interlocutor, em contraste com o seu espírito generoso, pode na verdade ser um benefício a seu favor.

Eu concordo totalmente com você sobre a necessidade de civilidade. É por isso que eu insisti em descrever nosso Fórum como "discussão de temas de forma pacífica e substancial." Mas eu não vou banir pessoas que não têm a maturidade para agir de forma civilizada. Eu simplesmente concordarei com o conselho de Chris Weaver, de simplesmente não responder a tais pessoas. Deixe com que suas postagens afundem no esquecimento até que aprendam a tratar as pessoas com quem eles não concordam de forma gentil e respeitosa.



[1] Quentin Smith, "A Função de Onda de um Universo sem Deus", no Teísmo, Ateísmo, e Cosmologia do Big Bang (Oxford: Clarendon Press, 1993), 322.

- William Lane Craig