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#512 Perguntas hipotéticas do tipo “e se...?”

February 10, 2017
Q

Caro Dr. Craig,

Sou fã de seu trabalho já faz 2 ou 3 anos. Eu era ateu até um dos meus amigos cristãos me indicar seu site, e agora eu me considero indeciso entre o ateísmo/cientismo e o cristianismo. Nos últimos dias, um pensamento abalou minha cosmovisão e minha confiança de que a filosofia possa provar a existência de Deus. Vou resumir minha ideia da melhor forma possível.

Digamos que, 50 mil anos atrás, nossos ancestrais evolutivos não tivessem nenhuma concepção de filosofia ou não a tivessem do modo avançado/sofisticado como temos hoje. No presente, sua filosofia, bem como a de Plantinga, Kreeft, Lennox e outros, parece deduzir logicamente que Deus existe. Meu problema é o seguinte: e se, daqui a 50 mil anos (isso se a raça humana sobreviver até lá), os processos humanos para deduzir argumentos e usar lógica forem muito melhores do que os nossos atuais e, então, vierem a encontrar contradição em seus argumentos, refutando a existência de Deus? Ou, então, e se eles puderem criar argumentos melhores contra a existência de Deus do que podemos compreender atualmente com nossa inteligência?

Como é que posso confiar que minhas capacidades mentais são adequadas o suficiente para criar um argumento lógico hermético a favor da existência de Deus, de modo a permanecer tão hermético hoje com o poder de pensamento humano atual quanto no futuro, caso o poder de pensamento se desenvolva e fique mais forte?

Na esperança de ser seu irmão em Cristo,

Matthew

  • Canada

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Embora muito comuns, Matthew, essas perguntas hipotéticas do tipo “e se...?” não fazem nenhum sentido. “E se eu for apenas um cérebro num recipiente, sendo estimulado por um cientista maluco?” “E se eu for apenas um corpo presente na Matrix e habitando uma realidade virtual?” “E se eu estiver sendo iludido por um deus maligno ou um demônio?” “E se o universo for apenas um holograma?”

O problema com todas essas perguntas hipotéticas é que não há nenhuma justificativa para elas e, por isso, elas não constituem refutações de nossas crenças. O simples fato de descrever uma possibilidade hipotética nada faz para solapar a crença pessoal em x. É preciso ter alguma boa razão para pensar que a hipótese é realmente verdadeira. Do contrário, sua crença permanece incólume.

Consideramos, então, o motivo de sua preocupação: “e se, daqui a 50 mil anos... os processos humanos para deduzir argumentos e usar lógica forem muito melhores do que os nossos atuais e, então, vierem a encontrar contradição em seus argumentos, refutando a existência de Deus? Ou, então, e se eles puderem criar argumentos melhores contra a existência de Deus do que podemos compreender atualmente com nossa inteligência?”. Existe algum indício para pensar que isso vá acontecer? Você poderia dizer: “Veja o enorme progresso em argumentação e lógica que a humanidade teve nos últimos milhares de anos!” Certamente, isso dá boa razão para pensar que continuará a haver progresso. Isso, porém, não é nenhum indício para afirmar que contradições nos argumentos teístas serão encontradas ou que argumentos melhores, porém ainda incompreensíveis, serão encontrados contra o teísmo. Trata-se somente de temores céticos. De fato, suspeito que o mais provável, considerando o padrão histórico, é que novos argumentos a favor da existência de Deus serão descobertos (p. ex., o argumento do ajuste fino) e soluções serão encontradas para problemas que presentemente parecem intratáveis (p. ex., a resolução da antiga versão lógica do problema do mal). Há motivo tanto para otimismo quanto para temor.

É preciso também entender que, à medida que a ciência progride, não significa que velhas teorias são abandonadas. Antes, são adotadas e incorporadas na nova (p. ex., a incorporação da física newtoniana na física da relatividade para objetos que se movem com velocidades que não estejam próximas à da luz). Do mesmo modo, embora tenha havido avanços em lógica (p. ex., lógica frásica consegue lidar com inferências que a lógica silogística aristotélica não conseguia), não significa que a velha lógica tenha sido simplesmente jogada fora. Ainda é verdade que, se todos os A são B e todos os B são C, todos os A são C. Diferentemente da ciência, a lógica não depende de fatos empíricos e, portanto, é menos suscetível à revisão. Os argumentos teístas que defendo se baseiam em regras de inferência tão elementares e intuitivas que não existe nenhuma chance, realisticamente falando, que elas venham a ser invalidadas ou tidas por contraditórias.

Talvez mais importante ainda, no entanto, é que sua questão parece estar predicada numa suposição falsa, a saber, que precisamos ou buscamos “um argumento lógico hermético a favor da existência de Deus”. Não está certo. A existência de Deus não precisa ser provada com o tipo de certeza matemática que você imagina para que a crença em Deus seja racional e garantida. Certeza é um bicho-papão que você não deve caçar.

Além disso, não acho — nem Plantinga e, aposto, nem Lennox — que sequer precisamos de argumentos que provem a existência de Deus para que saibamos que Deus existe. Conforme Plantinga explicou extensivamente, Deus nos criou com faculdades cognitivas que, ao funcionar apropriadamente, apreendem sua existência e as grandes verdades do evangelho, quando as ouvimos em uma forma apropriadamente básica. Assim, não dependemos dos caprichos da história para saber que o teísmo cristão é verdadeiro e, portanto, não precisamos temer o que avanços futuros podem trazer.

Em contrapartida, Plantinga argumentou persuasivamente que, se o naturalismo é verdadeiro, não podemos ter nenhuma confiança em nossas faculdades cognitivas. Dado que C é a proposição de que nossas faculdades cognitivas são confiáveis, N a proposição de que não existe a pessoa de Deus ou algo parecido (naturalismo) e E a proposição de que nós e nossas faculdades cognitivas vieram a existir do modo proposto pela teoria científica contemporânea da evolução, Plantinga formula o seguinte argumento:

1. Pr (C | N&E) é baixa.

2. Quem aceita (crê) N&E e vê que Pr (C | N&E) é baixa tem um derrotador de C.

3. Quem tem um derrotador de R tem um derrotador de qualquer outra crença que pensa ter, incluindo a própria N&E.

4. Se alguém que aceita N&E possui, assim, um derrotador de N&E, N&E é autoderrotável e não pode ser aceito racionalmente.

5. Logo, N&E não pode ser aceito racionalmente.

Veja a obra Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, and Naturalism (Oxford University Press, 2011), de Plantinga, para sua defesa dessas premissas. Portanto, a pessoa que realmente está em apuros quando o assunto é confiar em suas “capacidades mentais” não é o teísta, mas o não-teísta!

- William Lane Craig