#355 Dor animal revisitado
May 13, 2016Comentários do Dr. Craig:
Eu pessoalmente tenho achado o trabalho de Michael Murray sobre o problema da dor animal, ou talvez melhor, o sofrimento animal - ao mesmo tempo útil e instigante. Depois de citar seu trabalho em debate, várias pessoas responderam aos seus argumentos, o que levou os leitores do Reasonable Faith a enviar perguntas sobre o mesmo. Aqui o Dr. Murray, a meu convite, responde a essas críticas. O que eu acho interessante sobre a sua resposta abaixo é que ele se refere apenas indiretamente ao que eu considero ser um de seus pontos mais fortes: a de que os animais não-humanos não têm uma perspectiva de primeira pessoa de suas experiências, incluindo experiências de dor, que quer dizer, eles não podem acrescentar às suas experiências o prefixo "eu acho/sinto que...", de modo que os animais, mesmo com dor, não estão cientes de que eles próprios estão com dor. De forma totalmente independente deste ponto, o Dr. Murray mostra que seus críticos não demonstraram que o sofrimento dos animais de uma espécie moralmente significativa realmente existe.~~William Lane Craig
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Michael Murray responde:
Ao longo da minha carreira filosófica tenho procurado abordar o que eu considero alguns dos desafios intelectuais mais difíceis para a fé cristã: o Deus escondido, os relatos naturalistas sobre a origem da crença religiosa, a realidade do inferno, etc. No livro de Oxford University Press de 2008, Nature Red in Tooth and Claw [Natureza vermelha no dente e garra], abordei outro desses desafios: o problema do mal como manifestado através da dor, sofrimento, e morte de animais não-humanos (doravante, "animais"), especialmente como é entendido dentro da teoria evolutiva atual. Desde a época de Darwin, os críticos do cristianismo argumentaram que a extensão, duração, intensidade e quantidade de mal implicado pelo darwinismo fornecia evidência poderosa contra a existência de Deus. O livro destina-se a avaliar se esses fenômenos de fato fornecem ou não tais provas.
O livro analisa uma variedade de diferentes maneiras que os cristãos podem responder ao problema do sofrimento dos animais e avalia-os individualmente. O objetivo não era fornecer uma única "resposta" para o "problema do sofrimento dos animais", mas olhar para uma variedade de respostas e avaliar seus pontos fortes e fracos.
Tenho o prazer de dizer que o livro recebeu uma boa dose de atenção. Como qualquer bom livro filosófico, contém argumentos que são controversos e provocantes. No entanto, uma grande atenção tem sido dada para uma pequena parte de um argumento que discuto no capítulo 2 — um argumento que eu vou revisitar aqui. O argumento tem sido criticado em publicações por alguns filósofos profissionais. No entanto, ele também tornou-se célebre depois de ter sido referenciado por Bill Craig, em alguns de seus debates públicos. Os críticos do uso do argumento por Craig alegaram que o argumento é cientificamente desinformado, e alguns têm ido tão longe a ponto de pedir que Bill peça desculpas por usar o argumento (!). O argumento tornou-se, agora, o assunto de pelo menos duas "exposições" no YouTube que têm sido associadas a, e republicadas por dezenas de sites.
Então, o que causou toda a confusão?!? Antes de eu chegar a isso, deixe-me tomar algumas palavras para situar o argumento geral. O objetivo do livro é minar o argumento de que a realidade do sofrimento dos animais é uma boa razão para rejeitar a existência de Deus. Como a maioria dos "argumentos do mal" a alegação é que alguns males existem, e que não há nenhuma razão moralmente suficiente para que Deus permita que o mal exista. Se houvesse um Deus, este mal, portanto, não existiria. Mas ele existe. Portanto, não há Deus.
Para resistir a esse argumento você precisaria mostrar ou (1) que o mal não existe de fato (ou que não estamos em uma boa posição para afirmar que ele existe), ou (2) que há uma razão moralmente suficiente para Deus permitir o mal (ou que não estamos em uma boa posição para dizer se há ou não uma razão moralmente suficiente para Deus permitir o mal). No livro eu tento resistir ao argumento por todos esses meios.
No entanto, no Capítulo 2 eu olho especificamente para argumentos ao longo das linhas de (1). Ou seja, eu olho para os argumentos que sustentam que a dor e o sofrimento animal não são reais, ou que não estamos em uma boa posição para saber se eles são ou não reais.
Não preciso dizer que este argumento não é popular. Qualquer um que tenha visto filmes de natureza, ou foi a uma fazenda ou zoológico, ou tenha um animal de estimação, pensa que é claro e óbvio que os animais sentem dor e experimentam sofrimento. Que pessoa sensata negaria isso? Bem, talvez nenhuma! Mas os filósofos estão sempre dispostos a explorar posições contra-intuitivas para ver se elas têm ou não algum mérito. E neste capítulo eu faço exatamente isso.
Os argumentos do capítulo são complicados e não posso reiterá-los aqui em detalhe. Mas, brevemente, considero a seguinte pergunta: quão confiantes podemos ser que os animais experimentam o tipo de dor e sofrimento que conta como mal? Isso pode soar como uma maneira estranha de colocá-lo, uma vez que se poderia pensar que todas as formas de dor e sofrimento são maus. E é aí que as coisas ficam complicadas.
Organismos encontram todos os tipos de perigos em seus ambientes. Alguns deles são estímulos que ameaçam diretamente a integridade biológica e bem-estar do organismo, de alguma forma. Teóricos da dor chamam estes de "estímulos nocivos." Animais de todos os tipos reagem a estímulos nocivos, e numa variedade de maneiras. Na maioria dos casos, a reação envolve algum tipo de comportamento de evitar, que visa tirar o organismo para longe do perigo e de volta para a segurança.
Às vezes, esses estímulos nocivos envolvem dor e às vezes não. Quando eu retiro minha mão do fogão quente, há dor. Quando o caracol se retira para dentro de sua concha quando tocado (discutivelmente) não há (ele simplesmente não tem a complexidade neural necessária). Então a pergunta é: quando é que estímulos nocivos e comportamentos aversivos envolvem sentir dor e quando não? Isso acaba sendo uma pergunta muito difícil. A razão de ser difícil é que responder a esta pergunta exige que saibamos, não se os animais podem reagir a estímulos nocivos (é claro que eles fazem isso!), mas se eles podem "sentir a dor" que é (às vezes) causada por estímulos nocivos .
Responder a esta pergunta exige que tenhamos alguma teoria sobre o que significa ser capaz de "sentir a dor" ou de "sentir" de forma mais geral. Como se vê, esta é uma das perguntas mais difíceis na filosofia da mente e, de fato, em toda a filosofia contemporânea. "Sentir" deste tipo é conhecido como "consciência fenomenal".
No Capítulo 2 do meu livro, eu olho para uma variedade de formas de pensar sobre a consciência fenomenal e suas implicações para o problema do sofrimento animal. Uma teoria que considero com algum detalhe é conhecida como a teoria da consciência "Pensamento da Ordem Superior " (ou POS). Nesta teoria, podemos distinguir entre estados mentais de "primeira ordem" e estados mentais de "ordem superior", e são estados de ordem superior que são necessários para "sentimento" ou "consciência fenomenal." Há de fato evidência real para essas diferentes ordens de estados mentais em fenômenos como a visão blindsight, onde os pacientes com um certo tipo de danos cerebrais relatam que eles são cegos, e ainda assim eles são capazes de navegar com obstáculos em seu caminho usando seus olhos. Como explicar esse tipo de coisa? A resposta é: pacientes Blindsight têm acesso à existência dos obstáculos através de meios visuais, mas eles não estão cientes de que eles têm esse acesso. Então, eles estão conscientes dos objetos em um sentido (às vezes chamado de "consciência de acesso"), mas não em outro sentido, ("consciência fenomenal"). E teorias POS fornecem uma explicação plausível de como isso poderia ser assim.
Assim, quando vemos animais reagindo com dor, é justo fazer uma pergunta: eles têm consciência fenomenal da dor, ou apenas consciência de acesso do estímulo nocivo? Se as teorias POS estão certas, eles só podem ter consciência fenomenal se eles têm esse pensamento de ordem superior, ou consciência dos estados mentais de primeira ordem, que são causados pelo estímulo nocivo. Será que eles têm tais pensamentos de ordem superior? Bem, isso é controverso. É simplesmente difícil saber se os animais têm pensamentos de ordem superior, e difícil de descobrir que tipo de evidências comportamentais ou neurais poderiam confirmar isso. Então, se nós não temos certeza se os animais têm consciência fenomenal de dor, e esse é o tipo que importa quando se trata de dor contando como ruim ou mal, então não temos certeza se há um "problema do sofrimento animal". Chame isso de "resposta 1" para o problema do sofrimento animal.
Argumentos desse tipo geral não são muito controversos do ponto de vista da filosofia contemporânea da mente, apesar do fato de que a maioria de nós somos intuitivamente convencidos de que os animais sentem dor. Mas, curiosamente, o argumento acima não é o que causou toda a confusão no YouTube e na internet. Para ver o lócus da controvérsia precisamos nos voltar para o próximo argumento.
Mais tarde, no mesmo capítulo, eu considero outra possibilidade estranha quando se trata de cognição animal, que é assim: vamos imaginar que os animais tenham estados mentais de primeira ordem, e tenham pensamentos de ordem superior em relação a esses estados, e, assim, sentem dor fenomenalmente consciente. Isso mostra que os animais sofrem? Não exatamente. A razão para isto é a seguinte: quando temos estados fenomenalmente conscientes, esses estados podem ter um sentimento bom (degustação de chocolate), ou ter um sentimento mau (sentir cheiro de enxofre), ou nem bom nem mau (ver vermelho). É possível que os animais tenham consciência fenomenal de dor, mas que a consciência não tenha um sentimento mau? Bem, isso parece ser ridículo! Como poderiam os animais sentir dor e que a dor não ter um sentimento mau!?!?
Por mais estranho que possa ser, no entanto, sabemos que, em alguns casos, a consciência fenomenal de dor, na verdade, não envolve um sentimento mau. Durante os anos 1940 e 1950, o procedimento cirúrgico que hoje chamamos de "lobotomia frontal" era assustadoramente comum. Durante o procedimento, muito cru, os cirurgiões removiam partes do córtex pré-frontal de pacientes com alguns resultados surpreendentes. Em alguns casos, o procedimento foi realizado para resolver a dor crônica. Embora nem sempre funcionasse, houve alguns casos em que algo muito estranho aconteceu — pacientes relataram que ainda sentiam a dor, mas que "não os incomodava" mais.
Por causa de casos como esse, eu fiz a seguinte pergunta: e se a consciência animal de dor fosse assim? Ou seja, e se, quando se trata de dor animal, o estado mental correspondente não tem uma valência negativa? Ou seja, e se eles experimentam a dor do modo como esses pacientes de lobotomia? Haveria um "problema de dor animal"? Defendo que a resposta é não. Se isso acontecesse, os animais iriam "sentir dor", mas não iriam "sofrer" com ela. Chame isto de "resposta 2" para o problema do sofrimento animal.
Sabemos se qualquer uma das possibilidades que eu descrevo (que a dor animal é como a visão blindsight, experimentada mas não sentida (resposta 1) ou como a "dor de lobotomia", sentida mas não indesejável (resposta 2)) são verdadeiras no caso de animais? Absolutamente não. Mas nós sabemos que elas não são o caso? Defendo que não. Isto é, até onde nós sabemos, a dor dos animais funciona como descrito em uma dessas opções. Os dados científicos não resolvem a questão filosófica. E, assim, não sabemos se temos um problema de dor animal.
As pessoas discordam sobre isso? Sim. No entanto, penso que a maioria dos cientistas que pensam sobre estas questões não têm toda a gama de distinções que os filósofos da mente têm quando pensam sobre estes assuntos. Então eu acho que os cientistas que discordam não apreciam plenamente as sutilezas filosóficas relevantes. (No entanto, algumas colaborações de neurocientistas/filósofos têm olhado exatamente para essas questões, de fato, sugerindo que o córtex pré-frontal desempenha exatamente o tipo de papel que eu sugiro quando se trata de consciência fenomenal — seja de dor ou de outros estados sensoriais. Veja, por exemplo, Lau e Rosenthal, "Empirical Support for higher-order theories of conscious awareness" [Suporte empírico para as teorias de ordem superior de consciência], Trends in Cognitive Ciência, agosto de 2011, vol. 15, no. 8.)
Mas o que causou toda a polêmica online foi isso. Ao discutir a "resposta 2," eu notei que quando o córtex pré-frontal (CPF) foi interrompido, os sentimentos negativos que acompanham a dor foram interrompidos também. Uma vez que esta parte do cérebro dos mamíferos foi a última a evoluir, talvez a maioria dos animais não sintam a sensação-de-dor-negativa (porque lhes falta o CPF).
Este tornou-se o ponto de controvérsia. Canais do YouTube como skydivephil carregaram suas câmeras de vídeo por aí entrevistando um grupo de cientistas e perguntou-lhes se os animais sentem dor ou não (um exercício que não aborda as sutilezas filosóficas dos argumentos que eu faço), e se têm CPFs. Todos os entrevistados indicaram que outros animais têm CPFs, e, portanto, o meu argumento falha.
Bem, existem três coisas a dizer sobre isso. Em primeiro lugar, mesmo que eles estivessem certos, meu argumento não falharia. O que eu afirmo é que, pelo que sabemos, a dor dos animais ocorre sem "sentimento negativo." Mesmo que a ausência de CPFs em seres humanos muitas vezes se correlacione com dor-sem-sentimento-negativo, isso não significa que os organismos que têm CPFs experimentem a sensação-de-dor-negativa. Por quê? Porque nós não temos certeza se a cognição animal é auxiliada pelas mesmas estruturas que em seres humanos. Como resultado, mesmo que tenham CPFs, isso não garante que eles tenham a sensação-de-dor-negativa.
Em segundo lugar, não é obviamente correto que os animais fora os seres humanos e primatas superiores têm CPF. Como até mesmo o pessoal do skydivephil nota, têm havido diferentes formas de demarcar o CPF ao longo do tempo. Para aqueles não familiarizados com neuroanatomia, é importante ressaltar que a identificação de regiões do cérebro não é como abrir o abdômen e distinguir o estômago, rim e fígado. As áreas do cérebro são contíguas uma com o outra, e existem diferentes critérios que podem ser usados para discriminar entre regiões. No início do século XX, o CPF foi demarcado por localização e tipo de célula. Os seres humanos e primatas superiores têm um determinado tipo de célula (conhecido como "granular") que compõe uma camada cortical específica, e o CPF foi identificado com esta camada. Alguns anatomistas depois descartaram este critério de demarcação do CPF, em parte porque fez com que fosse difícil encontrar um CPF em não-primatas superiores. Assim, anatomistas posteriores definiram o CPF funcionalmente como a zona de projeção de uma outra parte do cérebro, conhecida como o tálamo. Alguns não-primatas têm essas zonas de projeção.
É opinião científica agora unânime em como pensar no CPF? Não, não é. De fato, alguns críticos recentes argumentam diretamente contra os critérios funcionais que implicam que não primatas têm um CPF. (Veja H.J. Markowitsch e M. Pritzel, "The prefrontal cortex: Projection area of the thalamic mediodorsal nucleus?" [O córtex pré-frontal: área de projeção do núcleo mediodorsal talâmico?] Physiological Psychology 7 (1) (1979): 1-6; e
T.M. Preuss, "Do rats have prefrontal cortex? The Rose-Woolsey-Akert program reconsidered," [Ratos têm córtex pré-frontal? O programa Rose-Woolsey-Akert reconsiderado?] Journal of Cognitive Neuroscience 7 (1) (1995): 1-24). Assim, o júri não está em acordo sobre esta questão.
De qualquer forma, podemos fazer a seguinte pergunta: que estrutura do cérebro é importante aqui para sensação-de-dor-negativa? Uma camada granular cortical IV ou uma zona de projeção a partir do tálamo? Nós não sabemos. Mas sabemos que quando "aquela área" em seres humanos é interrompida, então a sensação-de-dor-negativa por vezes desaparece. Então, se os animais não têm o que nós temos nesta parte do cérebro, então, talvez, eles não tenham esse tipo de dor também. Esta conclusão permanece intacta.
Finalmente, mesmo se não primatas têm CPFs, o CPF humano é completamente diferente de qualquer outro tipo de organismo. Na verdade, uma recente pesquisa da neuroanatomia primata descreve o CPF humano como "absolutamente, obviamente e tremendamente" diferente (Rilling, Trends in Cognitive Science, vol. 18, no.1 (janeiro de 2014)). Se essas diferenças (que são destruídas em uma lobotomia) são o que torna a sensação-de-dor-negativa possível, então talvez os animais não tenham tal dor.
Deixe-me lembrar a todos que esta controvérsia diz respeito a apenas uma pequena alegação a um dos argumentos deste capítulo. Mesmo se nós jogarmos fora toda a "resposta 2", existem outros argumentos que podem ser usados para minar o sofrimento dos animais, mostrando que os animais não sentem de forma fenomenalmente consciente e moralmente relevante. Mas, dadas as críticas que têm sido apontadas pelos objetores online, ainda não temos razão para abandonar "resposta 2".
- William Lane Craig