back
05 / 06
bird bird

#419 Encarnação e Teodiceia

May 13, 2016
Q

Oi Dr. Craig,

Primeiramente, gostaria de dizer que mesmo não sou um cristão (embora de alguma forma eu acabei fazendo um curso superior de Teologia [...]) eu sou um grande fã do seu programa de apresentar justificativas racionais e rigorosamente precisas para a doutrina cristã – particularmente, você completamente me convenceu sobre o argumento cosmológico! No entanto, eu estou relutante para se mover além da crença de um Deísta minimalista por um Deus criador por várias razões, entre as quais está a questão da:

A encarnação é compatível com a teodiceia?

O cristianismo ortodoxo (‘o’ minúsculo) diz que, para nos salvar, Cristo deve ser totalmente Deus e totalmente homem. Eu concordo com a suposição por trás disso – que ‘o que não é assumido não é salvo’, porque só um Deus-homem de verdade pode nos dar um contato metafísico único e exclusivo com Deus que nós precisamos para alcançar a salvação.

No entanto, também parece que ‘totalmente Deus e totalmente homem’ é paradoxal – porque as propriedades de Deus (não limitado ao espaço e tempo, impassível, etc) contradiz as propriedades de homem (limitado ao espaço e tempo, passível, etc). Então parece que para aceitar a encarnação – que Deus poderia criar um ser que é tanto limitado ao espaço e tempo como não limitado ao espaço e tempo – significa aceitar que Deus pode fazer o logicamente impossível, como criar uma pedra tão pesada que ele mesmo não consegue levantar ou criar um círculo quadrado.

Eu acho que isto leva a problemas com a teodiceia. Se Deus é totalmente amoroso, parece que Deus criaria o melhor mundo possível – por exemplo, um mundo no qual as pessoas tenham livre arbítrio é melhor que um mundo sem livre arbítrio, e como nós não podemos tanto ter livre arbítrio verdadeiramente e nunca cometer o mal, o mundo inevitavelmente contém algum mal. Porém: se a encarnação é aceita, então a habilidade de Deus de fazer o logicamente impossível também é aceita. Isto significa que não há limites lógicos para mundos possíveis que Deus pode criar – incluindo, por exemplo, um que tenha tanto livre arbítrio como nenhum mal. Então, a ‘desculpa’ de Deus pela presença do mal – que este é o melhor mundo possível – é removida, já que todos os mundos, até mesmos os paradoxais, são possíveis.

Eu realmente aprecio seu esforço para responder isso.

Saudações,

Edwin
Reino Unido

<ul><li>United Kingdom</li></ul>

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Eu acho que posso ser de alguma ajuda, Edwin, para remover pelo menos este obstáculo para a fé cristã.

O problema reside no seu entendimento da expressão “totalmente Deus/totalmente homem”. Esta expressão não é, de fato, o que os credos afirmam de Cristo. O que a Declaração[de Fé]de Calcedôniasobre a deidade e humanidade de Cristo afirma, na verdade, é que Cristo é “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem” (vere Deus/vere homo). A expressão que você cita é precisamente problemática pela razão que você explica: se Cristo é totalmente Deus, então ele não pode ser humano de qualquer forma, muito menos totalmente humano!

Eu tenho certeza que as pessoas que usam a expressam “totalmente Deus/totalmente homem” não querem sugerir que Cristo é totalmente Deus e totalmente homem, mas que ele é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. Mas por causa de sua ambiguidade e status do não-credo, eu acho que é melhor evitar essa expressão enganosa e usar a linguagem do Credo.

A expressão do Credo da Calcedôniavere Deus/vere homo” não é paradoxal (veja depois meu capítulo sobre a Encarnação no livro Filosofia e cosmovisão cristã [Vida Nova: 2005]). Os autores do Credo da Calcedônia afirmam que Cristo tinha duas naturezas distintas, uma humana e uma divina. Ao afirmar que o Cristo encarnado tinha duas naturezas, os Pais da Igreja foram declarando que Cristo exemplificou todas as propriedades que compõem a humanidade e todas as propriedades compõem a deidade [divindade]. Nesse sentido, ele tinha duas naturezas e então pertenceu dois tipos naturais, Homem e Deus. Cristo foi assim verdadeiramente humano, mas não foi meramente humano.

Com respeito a teodiceia, sua pergunta pressupõe que existe tal coisa como um melhor mundo possível. Eu acho que a maioria dos filósofos cristão negariam que tal coisa existe. Pode não haver nenhum limite superior sobre a bondade dos mundos. Então, Deus, como um ser perfeito, tem apenas que criar um mundo bom, não o melhor dos mundos possíveis, que podem não ser tão impossível quanto criar uma pedra tão pesada Ele mesmo não possa levantar. Além do mais, você erra ao pensar que a criação do livre arbítrio implica a presença do mal. Isso não é certo. É logicamente possível que todo mundo em qualquer situação moral sempre faça livremente a coisa certa. Assim, mundos sem pecados e mal são possíveis (mesmo se não viável para Deus).

Mas deixe de lado esses pontos: o ponto mais importante que você faz é que se Deus pode fazer o logicamente impossível, então qualquer coisa é possível para Ele. Isso, na verdade, dissolve o problema do mal inteiramente! Pois se Deus pode fazer o logicamente impossível, então Ele pode mandar a ver que Deus exista e o Mal exista mesmo se a coexistência de ambos é logicamente impossível! Uma vez que uma pessoa diz que Deus pode fazer contradições lógicas virar realidade, então o chamado problema do mal – em particular, a versão lógica do problema do mal – se evapora completamente.

Claro, eu não acho que Deus possa fazer o logicamente impossível, mas então a doutrina da encarnação, quando apropriadamente expressada, não envolve contradição lógica.

====

Para mais detalhes em relação a Encarnação tal qual como Jesus pode ser ambos verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus, veja a aula do Dr. Craig da série Defenders 2 sobre Doutrina de Cristo partes 1 a 8 encontradas aqui.

====

- William Lane Craig