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#515 Deus ignorou a China?

February 10, 2017
Q

Caro Dr. Craig,

Meu país de origem é a China e moro nos Estados Unidos há 17 anos. Um amigo cristão me apresentou seus livros e debates online. Faz dois anos que estou frequentando a igreja e estou bem perto de me tornar cristão. Seu trabalho tem sido instrumental ao ajudar meu cérebro de engenheiro a entender Deus, paulatina mas ininterruptamente edificando minha fé. Por isso, sou muito grato e gostaria de expressar toda minha gratidão e apreço.

Eu me pego descontroladamente falando sobre Deus com meus amigos chineses, insistindo para que gastem mais tempo buscando sua espiritualidade em Cristo. Alguns se interessam, outros não. A constante é que a maioria deles me desafia com o mesmo tipo de pergunta. “China tem milhares de anos de história, com o apogeu e queda de muitas grandes dinastias. Onde estava Deus? Por que o povo chinês não teve registros do mesmo Deus? Como a cultura chinesa gozou de tantas invenções brilhantes, de literatura e prosperidade, mesmo sem saber coisa alguma sobre Deus? Por que Deus sequer se importou em amar ou se fazer conhecido ao povo chinês por milhares de anos?” Tentei pesquisar e encontrar respostas sozinho; infelizmente, nada foi muito convincente aos meus amigos chineses. Cheguei a usar seus cinco argumentos (origem, ajuste fino, valores morais objetivos, morte e ressurreição de Jesus e experiência pessoal) para desafiá-los, mas acho muito difícil superar a resistência inicial e criar aquela conexão pessoal.

Tenho o luxo de conseguir ir a uma igreja e ter a experiência pessoal do Espírito Santo, um luxo que nem todos meus amigos chineses na minha terra natal têm. Qual é a melhor forma de responder à pergunta deles, de modo que deixem de lado seu orgulho e preconceito culturais e abram suas mentes e corações para Deus?

Aguardo ouvir suas ideias!

Obrigado!

Paul

  • United States

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Como é encorajador ler sobre sua jornada espiritual, Paul! Deus está fazendo uma obra surpreendente entre os chineses, não apenas estudantes e imigrantes nos Estados Unidos, como você, mas na própria China, onde talvez haja aproximadamente 100 milhões de cristãos hoje.

As perguntas de seus amigos não são peculiares à China. É apenas uma aplicação particular da velha questão do destino dos não-evangelizados. Como o cristianismo não é somente um código ético ou uma filosofia de vida, mas uma religião histórica, pela própria natureza da situação, a maioria das áreas do mundo não serão alcançadas por um tempo, à medida que o evangelho se espalha pelo globo desde a Palestina do século I. Assim, pessoas nas Américas, por exemplo, poderiam fazer exatamente a mesma pergunta que seus amigos. É verdade que não tinham “as invenções brilhantes, literatura e prosperidade” da China, mas Deus se importa com o pobre e humilde, e não apenas com o rico e ilustre. Os povos das Américas também poderiam perguntar: “Por que Deus sequer se importou em amar ou se fazer conhecido a [nós] por milhares de anos?”.

De fato, historicamente, o cristianismo, na verdade, chegou à China relativamente cedo, durante a dinastia Tang, séculos antes de ter sequer alcançado as Américas. A chamada Igreja do Oriente estava difundida na China até o século XIV, quando foi esmagada pela perseguição. Portanto, o cristianismo tem raízes profundas na China. Muitos anos atrás, quando Jan e eu estávamos num congresso de filosofia na Universidade de Pequim, um dos filósofos chineses, ao refletir sobre o rumo futuro da China, disse ousadamente: “A China precisa de um fundamento moral para a sociedade. O marxismo não é capaz de proporcioná-lo. O confucionismo está morto. Precisamos adotar o cristianismo. O cristianismo é uma religião chinesa indígena e fornece a melhor esperança de proporcionar um fundamento moral para a sociedade chinesa”. Ficamos chocados. Como ele viu acertadamente, o cristianismo não é a religião do homem branco, mas uma religião chinesa indígena com uma história incrivelmente longa. Este fato, embora não lide com sua pergunta diretamente, pode ser um passo adiante talvez para ajudar seus amigos a que “deixem de lado seu orgulho e preconceito culturais e abram suas mentes e corações para Deus”.

Abordei a questão do destino dos não-evangelizados diretamente em inúmeros lugares, por exemplo, no capítulo final de Em guarda ou aqui: http://www.reasonablefaith.org/portuguese/como-e-possivel-cristo-ser-o-unico-caminho-para-deus. Defendo que Deus, enquanto Deus justo e amoroso que deseja que todas as pessoas cheguem a conhecê-lo, julga as pessoas com base nas informações que elas têm. Assim, as pessoas na China, África ou nas Américas antes do advento do cristianismo não serão julgadas com base na fé em Cristo que tinham ou não. Antes, como as pessoas no antigo Israel, serão julgadas por Deus com base na sua resposta de fé à revelação que Deus lhes deu. De acordo com a Bíblia, Deus se revelou na natureza e na consciência de modo inegável a todas as pessoas, em todos os tempos e terras (Romanos 1—2). Como na Grécia antiga pensadores como Platão e Aristóteles compreenderam o conceito de Deus sem a revelação bíblica, assim também, na China antiga, parece ter havido uma compreensão incipiente de Deus no conceito de tiān 天 (céu) ou Shàngdì 上帝 (Senhor Altíssimo). Assim, a salvação estava ao menos acessível ao povo chinês antes do advento do evangelho. Por isso, não é preciso se preocupar que os próprios ancestrais tenham inevitavelmente se perdido.

Defendo também que é ao menos possível que Deus tenha ordenado o mundo providencialmente de tal maneira que qualquer pessoa que viesse a crer no evangelho ao ouvi-lo terá nascido num tempo e lugar na história em que ela, de fato, o ouça. Assim, ninguém está perdido em razão de um acidente histórico ou geográfico. Se esta proposta for plausível, ajudará a remover qualquer preocupação de que os próprios ancestrais estejam perdidos, mas teriam sido salvos se tivessem nascido em outro tempo ou lugar. Pelo contrário, quem quer que queira ou mesmo viesse a querer ser salvo será salvo.

Talvez seus amigos não fiquem muito comovidos com estas reflexões filosóficas; porém, pode acontecer que, ao verem que ser cristão não é nenhuma traição de sua etnia chinesa, estejam mais abertos a colocar sua fé em Cristo.

- William Lane Craig