#479 O que significa dizer que Deus é uma Alma?
February 10, 2017Eu gostaria de fazer uma pergunta esclarecedora, e também pedir que você considere algumas implicações da sua visão sobre a Trindade.
Para ter a referência, aqui está a visão da qual eu falo: “Então, suponha que Deus é uma alma que é dotada de três conjuntos completos de faculdades cognitivas racionais, e cada uma é suficiente para ser pessoa. Então Deus, embora seja uma alma, não seria uma pessoa, mas três; pois Deus teria três centros de autoconsciência, intencionalmente e por vontade, como os Trinitários Sociais mantêm. Deus, claramente, não seria três almas discretas, porque as faculdades cognitivas em questão são todas as faculdades pertencentes à uma alma, uma substância imaterial. Portanto, Deus seria um ser que sustenta três pessoas, assim como o nosso ser individual sustenta uma pessoa”.
Esclarecendo a pergunta: Eu ainda não estudei metafísica seriamente. Você poderia explicar o que você quer dizer com “alma” nesse contexto? Se “alma” não é uma simplificação para “faculdades cognitivas racionais”, eu não sei o que é. Você afirma que “Deus não teria três almas discretas porque as faculdades cognitivas em questão são todas as faculdades pertencentes à uma alma, uma substância imaterial”. O que exatamente é essa substância imaterial a quem pertence esses três conjuntos de faculdades racionais? Perguntando isso de outro ângulo: qual seria a diferença se Deus tivesse três almas? Além de não ser ortodoxo, o que significaria Deus ter três almas? Eu sinto que você responder isso envolveria Deus não sendo unificado. Mas eu ainda estou confuso. O que é essa “coisa” nebulosa que unifica essas pessoas?
E sobre as suas implicações: você já considerou como isso se relaciona com as doutrinas de glorificação e/ou theosis? Em que sentido, como Pedro descreve, “somos feitos participantes da natureza divina”? A “natureza divina” é o equivalente a alma de Deus? Se assim for, nós seremos pessoas não-divinas anexadas a essa alma? Nós pertenceríamos a essa alma assim como o Pai, o Filho e o Espírito pertencem, sendo a única diferença a de que nós não somos pessoas divinas? Sinto que a resposta seria “não”, mas por quê?
E mais: que implicações essa visão da Trindade teria na Encarnação? Eu entendo que você tem a visão neo-apolinarianista da Encarnação. Você diria que a consciência de Jesus pertenceria, na Sua encarnação, à “alma Deus” e à “alma Jesus Humano”?
Obrigado pelo seu tempo, bom senhor.
Câmbio e desligo.
Jordan
Estados Unidos
Dr. craig’s response
A [
Por alma, eu quero dizer uma substância viva e espiritual. Ao caracterizar Deus como uma alma, significa o que Jesus quis dizer quando falou “Deus é espírito” (João 4:24). Uma alma humana tem faculdades cognitivas racionais, mas não é idêntica às suas faculdades racionais, já que as faculdades não são algo que existe por si só na abstração da coisa que as tem. O que é uma alma? É o que você é sem o seu corpo.
Normalmente, nós supomos que uma alma racional é idêntica à uma pessoa. Mas isso é porque nós estamos familiarizados com almas dotadas somente de um conjunto de faculdades racionais suficientes para ser uma pessoa. A minha sugestão é que nós pensemos em Deus como uma alma dotada de três conjuntos de faculdades racionais, cada uma suficiente para ser uma pessoa, para que Deus seja tri-pessoal.
A sua pergunta, “O que significaria Deus ter três almas”?, lembra Cérbero, o cão mitológico de três cabeças, que podemos considerar ter três almas habitando em um corpo canino. Mas claro que Deus não é assim, já que Deus não tem corpo. Se você quis dizer “O que significaria Deus ser três almas”?, então a reposta é de que Deus seria um grupo como, o time de beisebol, Red Sox. Claro, isso é politeísmo, não monoteísmo; portanto, é inaceitável.
“O que significa essa ‘coisa’ nebulosa que unifica...essas pessoas”? É a substância espiritual que são as faculdades. É a entidade ou ser imaterial que tem essas faculdades. Eu não sou apaixonado pela doutrina da theosis, a ideia de que, de alguma forma, participaremos da natureza divina. A natureza divina são as propriedades essenciais de Deus. Nunca seremos onipotentes, oniscientes, eternos, necessários metafisicamente, perfeitamente morais, etc. Uma criatura sempre continua uma coisa criada. Os Pais da Igreja, que adotaram essa doutrina não quiseram dizer que literalmente nos tornaríamos divindades, mas que seremos glorificados e acabaremos com a nossa mortalidade e corrupção. Essa verdade não será apagada pelo discurso da divinação.
Quando eu falei, há alguns anos, em um retiro da Sociedade Médica Cristã, um dos médicos nos chamou e disse “Você deve entender, ao falar com esse grupo, que a maioria dos médicos ressentem o fato de que eles não foram feitos para ser o quarto membro da Trindade”! Não temo que isso talvez aconteça! Então, em resposta a sua pergunta, “Nós pertenceríamos a essa alma assim como o Pai, o Filho e o Espirito pertencem, sendo a única diferença a de que não somos pessoas divinas”?, é impossível que nós nos tornemos parte de Deus, pois somos almas criadas, distintas da alma que Deus é. Nós teremos uma relação mais próxima com Deus, mas a distinção Criador/criatura continua intacta.
Em relação ao meu modelo sugerido de encarnação, você poderia dizer de certa forma que “a consciência de Jesus pertenceria, na Sua encarnação, a ‘alma Deus’ e a ‘alma Jesus Humano’”; contanto que você entenda que o modelo não coloca uma “alma Jesus Humano” diferente da “alma Deus”. Seria mais claro dizer que o conjunto de faculdades racionais da alma de Deus que são as faculdades do Filho, também são as faculdades de Jesus; ou ainda mais simples, que a pessoa que é Jesus é idêntica à segunda pessoa da Trindade.
- William Lane Craig