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#213 Impassibilidade Divina e a Crucificação

February 10, 2017
Q

Senhor,

Antes de mais nada, muito obrigado por suas palestras. Embora eu seja um muçulmano, elas são muito informativas e me ajudam a racionalizar minha crença em Deus. (Ainda que, algumas vezes, toda esta conversa filosófica seja demais para mim!)

Eu tenho duas perguntas:

1. Ao dizer que Deus sentiu dor pelo fato da humanidade ter pecado (e, portanto, enviou Jesus como um cordeiro por seus pecados), ou que a alma de Cristo sofreu, ou que Cristo clamou a Deus por ajuda quando estava na cruz, não estamos degradando a natureza de Deus? Por que se Deus é capaz de ser ferido (não fisicamente, mas espiritualmente) pela humanidade, não seria isso uma fraqueza de caráter, mostrando que somos capazes de causar-lhe dano? Na verdade, isso significaria que, quando Deus criou Adão, Ele criou em Si mesmo uma fraqueza, pois os filhos de Adão fariam com que Ele se magoasse. Pelo menos, é assim que eu entendo.

2. Eu sei que você tende a responder a perguntas baseadas em teísmo e não especificamente sobre o cristianismo, mas por favor, tenha paciência comigo. Na maneira como eu entendo a Trindade, cada parte da Trindade é totalmente Deus. Jesus teve que morrer porque ele era desprovido de qualquer pecado (porque ele era divino). Então, quando ele foi crucificado, a parte dele que tinha que morrer não era apenas seu corpo humano, mas a alma sem pecado, para que o sacrifício significasse algo. Então, ok, ele morreu e depois de três dias ressuscitou. Isso significa que por este período de três dias, Deus tinha morrido? Porque Jesus é plenamente Deus, certo? Ou, caso não seja, isso significa que Deus era 1/3 menos divino? E, se Jesus morreu (parte da trindade), isso significa que parte de Deus não é eterno?

Muito obrigado por ler isso (e provavelmente responder).

Sinceramente,

Mun

Canadá

  • Canada

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Mun, por eu ter um ávido interesse em filosofia islâmica medieval e por ter escolhido o Islã como minha segunda área de especialização em meu trabalho de doutorado em teologia, eu gosto muito de conversar com muçulmanos sobre estas importantes questões. Obrigado por escrever! Sua pergunta vai ajudar os leitores muçulmanos do nosso site em todo o mundo a entender melhor o que os cristãos acreditam.

1. Uma vez que ambos os muçulmanos e os cristãos aceitam Gênesis como palavra revelada de Deus, todos nós temos que lidar com a questão do que significa o texto quando ele diz que quando Deus viu o pecado generalizado da humanidade "pesou-lhe a seu coração" (Gn 6.6 ). Isso deve ser entendido literalmente, ou é apenas uma forma antropomórfica de falar de Deus (isto é, falando de Deus em termos humanos)? A narrativa bíblica é indiscutivelmente cheia de descrições antropomórficas de Deus, descrevendo-o como "vendo" e "ouvindo" coisas, e assim por diante. Mas deveríamos entender Deus como sendo literalmente sem emoções?

A visão de que Deus não é de forma alguma afetado por criaturas é chamado de impassibilidade de Deus. Esta parece ser a visão de que você é a favor. Deus não pode sofrer dor emocional. impassibilidade divina foi considerada por teólogos cristãos medievais como um dos atributos de Deus. Então você iria encontrar muitos cristãos históricos que estariam de acordo com o seu ponto de vista. Mas na cena contemporânea há muito poucos teólogos que defendem tal doutrina. Não parece haver nenhuma boa razão para não tomar as descrições bíblicas de emoções de Deus literalmente. Longe de ver a susceptibilidade à dor emocional como uma fraqueza, a maioria dos filósofos e teólogos cristãos contemporâneos diria exatamente o oposto: que é uma fraqueza para uma pessoa ser indiferente ao sofrimento humano e um ponto forte o sentir emoções, incluindo dor, indignação, compaixão , etc. na verdade, pense na etimologia da palavra "compaixão": sofrer juntamente com. Sendo o maior ser concebível, Deus pode ser compassivo e partilhar de nossas dores e alegrias. Impassibilidade é realmente uma fraqueza, enquanto a compaixão aumenta a grandeza de Deus.

Alvin Plantinga fala por muitos pensadores cristãos quando escreve:

<blockquote>

Conforme os cristãos vêem as coisas, Deus não fica de braços cruzados, observando friamente o sofrimento de suas criaturas. Ele entra e compartilha do nosso sofrimento. Ele suporta a angústia de ver seu filho, a segunda pessoa da Trindade, entregue para morrer de forma amargamente cruel e vergonhosa na cruz. Alguns teólogos dizem que Deus não pode sofrer. Eu acredito que eles estão errados. A capacidade de Deus para o sofrimento, creio eu, é proporcional à sua grandeza; ela ultrapassa a nossa capacidade de sofrimento na mesma medida em que a sua capacidade de conhecimento excede a nossa. Cristo estava preparado para suportar as agonias do próprio inferno; e Deus, o Senhor do universo, foi preparado para aguentar o consequente sofrimento da humilhação e morte de seu filho. Ele estava preparado para aceitar esse sofrimento, a fim de vencer o pecado e a morte, e os males que afligem o nosso mundo, e a conferir-nos uma vida mais gloriosa do que podemos imaginar. Então, não sabemos por que Deus permite o mal; sabemos, porém, que Ele estava preparado para sofrer em nosso lugar, para aceitar o sofrimento do qual não podemos elaborar um conceito.[1]

Defensores da impassibilidade divina dirão que quando Cristo sofreu na cruz, ele fez isso apenas em sua natureza humana, e não em sua natureza divina. Eu vejo que os muçulmanos frequentemente não conseguem entender que na visão cristã Cristo tem duas naturezas: a sua natureza divina, que ele possuiu desde toda a eternidade e sua natureza humana que ele assumiu no momento em que Maria concebeu Jesus em seu ventre. Defensores da impassibilidade divina dizem que a natureza humana de Cristo tem tanto uma alma humana quanto um corpo humano, e foi aí que ele sofreu, não em sua natureza divina, a qual era e é impassível. Se você quiser se deter na impassibilidade divina, Mun, você pode tomar esse caminho e ser um cristão. Mas, como Prof. Plantinga, penso que Deus é maior se Ele não for impassível.

2. O que acabo de dizer relaciona-se à sua segunda pergunta também. A visão cristã é que Cristo morreu em sua natureza humana, isto é, a natureza humana de Cristo morreu. Ele, obviamente, não morreu em sua natureza divina. A pessoa que existia desde toda a eternidade, a segunda pessoa da Trindade, não deixou de existir entre a crucificação e ressurreição. Deus é, afinal, um ser necessário (no qual todas as coisas existem) e por isso não pode deixar de existir.

Na verdade, nem a alma humana ou o corpo de Cristo deixaram de existir. O que é a morte humana, afinal de contas? É a separação da alma do corpo. Não é a aniquilação da alma. As pessoas que morrem estão em um estado intermediário, sem corpo, até o dia da ressurreição, quando suas almas serão novamente unidas com seus corpos renovados.

Portanto, é um erro até mesmo pensar que um membro da Trindade foi de alguma forma excluído quando Cristo morreu ou que a alma humana de Cristo deixou de existir quando ele morreu. O que aconteceu é que sua alma foi separada do corpo. A diferença entre o que aconteceu com a natureza humana de Cristo e o que irá acontecer com a nossa algum dia, é que Deus, o Pai re-uniu a alma de Cristo com o seu corpo antes da ressurreição geral e elevou Jesus para a glória e imortalidade como o prenúncio e garantia da nossa própria ressurreição.



[1] Alvin Plantinga, "Self-Profile," Alvin Plantinga, ed. Jas. Tomberlin (Dordrecht: Reidel, 1985), p. 36.

- William Lane Craig