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#516 Meus argumentos teístas dependem de um sistema metafísico?

February 10, 2017
Q

Oi, Dr. Craig.

Há cerca de uma década, estudo a questão da existência de Deus. Fui criado numa família cristã e fiquei interessado filosoficamente na existência de Deus no meio da minha adolescência. Li vários livros e artigos seus, além ter assistido a diversas palestras e debates. Tenho muito respeito por seu trabalho, principalmente por ser meticuloso — em contraste com a maioria das discussões do assunto de fácil acesso na internet. Considero que sua defesa do argumento kalam é uma das melhores defesas da existência de Deus que já li. Eu me descreveria como “teísta filosófico”.

Preâmbulo a minha pergunta:

Lendo a história da teologia natural, vim notar que muitas das melhores defesas da existência de Deus são feitas no contexto de sistemas metafísicos robustos. Alguns exemplos: o argumento de Plotino para “o Uno” nas Enéadas, as cinco vias de Tomás de Aquino (que devem ser entendidas no contexto da metafísica escolástica), o argumento cosmológico de Leibniz (que só pode ser entendido adequadamente no contexto da metafísica racionalista).

Em contraste, sua defesa da existência de Deus parece estar por toda parte, metafisicamente falando. O argumento kalam faz diversas distinções que têm claramente suas raízes em Aristóteles — por exemplo, a distinção entre séries infinitas potenciais e reais, obviamente baseadas na distinção aristotélica entre “ser em ato” e “ser em potência”, ou sua distinção ocasional entre causas “materiais” e “eficientes”, claramente fundamentadas nas quatro causas de Aristóteles. No entanto, o senhor também defende o argumento leibniziano da contingência, que se baseia no entendimento racionalista da distinção entre existência “necessária” e “contingente” (que se distingue do modo como os aristotélicos empregam esses termos). O senhor também defende o argumento ontológico de Plantinga, que pressupõe algo como a metafísica modal dos “mundos possíveis” de David Lewis.

Minha pergunta:

Posso presumir, considerando seu conhecimento, que o senhor esteja a par dos diferentes sistemas metafísicos subjacentes a seus diferentes argumentos. Como o senhor concilia essas diferenças, se é que as concilia? Qual é seu sistema metafísico? O senhor acha sensato defender argumentos com pressupostos metafísicos tão diferentes e aparentemente incompatíveis? Isso não torna sua defesa da existência de Deus mais incoerente?

Faço esta última pergunta porque me parece que muitos ateus frequentemente deturpam os argumentos teístas, e o maior problema (segundo suspeito) é a ignorância sobre os alicerces metafísicos desses argumentos.

Isaac

  • Australia

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Sua pergunta é muito perspicaz, Isaac, e fui confrontado com ela logo cedo na minha reflexão acerca da teologia natural, mas é algo que ninguém jamais pensou em me perguntar antes.

Minha formação inicial em filosofia da religião foi com Norman Geisler, que segue a filosofia de Tomás de Aquino. Preocupou-me o fato de que que, para aceitar o argumento central de Tomás para a existência de Deus, é preciso antes adotar a metafísica aristotélico-tomista que o subjaz — por exemplo, a chamada distinção real entre essência e existência. Isso me pareceu (e ainda parece) tornar o argumento demasiado vulnerável. Apenas rejeite a controversa metafísica que subjaz o argumento, e o argumento se torna nugatório!

Foi aí que fiquei determinado a elaborar argumentos para a existência de Deus que não fossem dependentes de uma metafísica particular, mas pudessem ser aceitos por pessoas de variadas perspectivas metafísicas. Isso amplia o apelo dos argumentos e os torna mais imunes à refutação.

Assim, por exemplo, as duas premissas do argumento cosmológico kalam são tão simples e relativamente desprovidas de compromissos metafísicos profundos que são amplamente aceitáveis a pessoas de pontos de vistas divergentes. Ora, evidentemente, o argumento lança mão de diversos conceitos metafísicos, como você observou. Contudo, pode-se aceitar, por exemplo, a distinção aristotélica intuitiva entre causa eficiente e causa material sem aderir à metafísica aristotélica completa. Essa útil distinção atravessa divisões metafísicas. Do mesmo modo, a distinção entre infinitos reais e potenciais já entrou na matemática convencional, onde ela é totalmente independente da metafísica aristotélica. Provavelmente o maior pressuposto metafísico feito pelo argumento cosmológico kalam conforme o desenvolvo, de que eu inicialmente não me dei conta, é seu compromisso com a objetividade do devir temporal. De novo, esse compromisso dificilmente é exclusivo de um sistema metafísico e pode ser defendido sem a adoção de um sistema assim.

Igualmente, em relação ao argumento cosmológico leibniziano, não é preciso adotar uma metafísica racionalista (sem contar a monadologia de Leibniz!) para aceitar uma versão modesta do princípio da razão suficiente, conforme ele aparece na versão do argumento que defendo. É verdade que a distinção entre “necessário” e “contingente” no argumento não é aristotélica, mas o entendimento leibniziano dos termos é o entendimento que se tornou convencional na filosofia analítica contemporânea. Portanto, uso essas palavras em seus sentidos costumeiramente aceitos.

Quanto ao ajuste fino, não penso que ele pressuponha uma visão ateleológica da natureza; ou seja, ela não pressupõe que coisas não têm fins para os quais tendem. Antes, o argumento não faz nenhuma suposição nesse sentido (e, portanto, está livre das supões aristotélicas controversas, entendeu?); portanto, ele se impõe não só àqueles que creem em causas finais, mas também àqueles que não.

Já o argumento ontológico, com toda certeza ele não pressupõe nada parecido com o realismo modal de Lewis, segundo o qual mundos possíveis são outros universos espaço-temporais concretos! Tampouco pressupõe que mundos possíveis sejam estados máximos de coisas, como Plantinga pensava antes de sua conversão ao conceitualismo divino em relação a objetivos abstratos putativos. O argumento é perfeitamente compatível até mesmo com a visão antirrealista, segundo a qual mundos possíveis são apenas um mecanismo heurístico análogo a diagramas matemáticos.

Portanto, respondendo à sua pergunta, nego que haja “diferentes argumentos metafísicos subjacentes a seus diferentes argumentos”. Os argumentos, embora se valham de conceitos e ideias que aparecem em diversos sistemas (e muitos desses conceitos e ideias se tornaram geralmente ou, pelo menos, amplamente aceitos) são independentes dos sistemas nos quais talvez tenham sido inicialmente enunciados. Não há por que “conciliar essas diferenças”. Será que acho “sensato defender argumentos com pressupostos metafísicos tão diferentes e aparentemente incompatíveis?” Não, mas os argumentos que defendo são deliberadamente caracterizados de modo a ficar o máximo possível livres de suposições metafísicas extraordinárias, sem contar suposições aparentemente incompatíveis, ampliando, assim, seu apelo o máximo possível. As premissas dos diversos argumentos são perfeitamente coerentes, e até onde sei ninguém argumentou o contrário.

Por último, “qual é seu sistema metafísico?” Esta pergunta me fez sorrir. Acho que não tenho nenhum! Pois bem, sou teísta, teórico do tempo flexivo, teórico da ética da ordem divina, dualista de substância, antirrealista quanto a objetos abstratos e, suponho, muitas outras coisas. Não tenho, porém, nenhuma espécie de sistema além da composição desses diversos compromissos. Seja como for, minha teologia natural almeja ser o máximo possível livre de sistemas, a fim de apelar à maior gama possível de pessoas de diferentes persuasões.

- William Lane Craig