#477 O que Jesus sofreu?
February 10, 2017Dr. Craig,
Fico feliz em saber que a sua próxima linha de pesquisa é sobre a expiação. Eu também tenho investigado sobre esse assunto e eu estou tentando encontrar algumas respostas em relação a um aspecto da teoria da substituição, especificamente, Cristo sendo punido ou recebendo a ira de Deus em nosso lugar. Eu acredito que isso envolve mais do que só a morte física, já que a nossa punição sem o revestimento da retidão de Jesus é uma eternidade no lago de fogo.
Isso significa que enquanto Jesus sofreu uma morte física horrível na cruz, ele também sofreu essa mesma eternidade da ira de Deus por cada pessoa que já viveu ou irá viver?
Caso contrário, houve muitos mártires que sofreram mortes horríveis, então o que faz a morte de Cristo mais difícil de lidar do que a deles, com relação a ira de Deus, se significava somente o aspecto físico?
Aaron
Estados Unidos
Dr. craig’s response
A [
Há muitas questões que são levantadas pela doutrina da expiação, e sua pergunta, Aaron, é um dos desafios para a chamada teoria penal da expiação, de acordo com a qual Cristo suportou o sofrimento que passaríamos como punição pelos nossos pecados.
O que é a punição pelos pecados? Em Gênesis, Deus advertiu a Adão e Eva “mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17). Aqui não está claro se a morte é a punição pelo pecado ou, simplesmente, a consequência natural do pecado. O que está claro é que Adão e Eva não morreram fisicamente no dia que eles desobedeceram a Deus. Mas eles foram retirados da Sua presença do Jardim do Éden. Essa expulsão da presença de Deus é um tipo de morte espiritual. A promessa do Novo Testamento da vida eterna em Cristo é a promessa, não da mera vida biológica (bios), mas da vida espiritual (zoē), do companheirismo com Deus. Por outro lado, aqueles fora de Cristo são ditos estar “mortos nos vossos delitos e pecados” (Efésios 2:1).
Alguns teólogos bíblicos disseram que a punição pelos pecados é simplesmente Deus nos abandonando para sofrermos as consequências dos pecados - vidas quebradas, distorcidas e mortais vividas com comportamentos autodestrutivos e egocêntricos, como os descritos em Romanos 1:24-32. No entanto, essa não pode ser a história toda, porque, como você percebe, o Novo testamento adverte sobre o escatológico de Deus ou julgamento final dos pecadores. A morte física não é o fim da história: cada pessoa que viveu será trazida de volta a vida e aparecerá diante do lugar do julgamento de Deus, “para que cada um receba segundo o bem ou mal que tiver feito por meio do corpo” (2 Coríntios 5:10). Aqueles que não conhecem a Cristo, serão apartados dele para sempre (Mateus 7:23).
De certa forma, até mesmo essa separação eterna de Deus pode ser vista com uma consequência do pecado. Pecadores não resgatados não podem existir em uma relação de companheirismo com o santo Deus. A presença de Deus expulsa o mal, assim como a luz expulsa a escuridão. Portanto, uma consequência natural do pecado é a separação de Deus e da vida eterna que está Nele. Contudo, Paulo fala dessa separação eterna de Deus, não simplesmente como uma consequência do pecado, mas como uma punição pelo pecado: “Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder”. Pecadores não resgatados, Paulo diz, “são passíveis de morte” (Romanos 1:32). O destino final deles é, no final das contas, um resultado do julgamento de Deus sobre eles.
Agora, se pensarmos que Cristo tomou sobre si o que nós mereceríamos como um resultado dos nossos pecados, o que exatamente Jesus sofreu em nosso lugar? A punição pelos nossos pecados é uma eterna separação de Deus, mas Cristo não sofreu uma eterna separação de Deus. Em vez disso, ele foi ressuscitado dos mortos por Deus. Como entendemos isso?
Uma resposta é que, em virtude da dignidade da pessoa dele, especificamente, a segunda pessoa da Trindade, o que ele sofreu é equivalente ao sofrimento eterno dos condenados ao inferno. Interessantemente, no nosso sistema criminal de justiça, esse tipo de diferença é reconhecido, mas não é consentido. Para um criminoso insensível, a punição pode ser um mero aborrecimento, mas para uma pessoa que é frágil ou sensível, a mesma punição pode ocasionar um terrível sofrimento. O nosso sistema legal não permitirá essas diferenças em pessoas que serão sentenciadas por razões obvias: isso levaria para uma exploração absurda do sistema por certas pessoas. Então, o sofrimento subjetivo das pessoas não é permitido no desígnio da punição. Porém, Deus claramente não é suscetível para esses tipos de abusos como é um sistema legal humano, então ele talvez considere essas diferenças subjetivas. Nesse caso, pode-se dizer que Cristo sofre, subjetivamente, as mesmas dores que os condenados.
No entanto, até mesmo em uma visão puramente objetiva da punição, talvez seja que Cristo é, de fato, sentenciado para o mesmo destino que nós somos, ou seja, a morte. Várias vezes, o Novo Testamento diz que Cristo morreu pelos nossos pecados.[1] Mas, você pergunta, e sobre a morte eterna? A punição pelo pecado não é a morte eterna? Bem, talvez não. Talvez a eternidade da morte é uma consequência contingente da persistência eterna do condenado. Eles são condenados a morte, ponto final, mas por eles persistirem para sempre sem se arrepender, vale ressaltar, a punição deles é para sempre. Comparável com um prisioneiro com prisão perpétua sem liberdade condicional que pode viver por um ano ou por cem; a duração da sua pena é uma consequência contingente de quanto tempo ele vive. Do mesmo modo, a duração da sentença de morte dada aos condenados é uma consequência contingente da duração eterna deles.
No caso de Cristo, ele sofre a morte de modo que ele paga a nossa pena e dispensa a nossa sentença. Mas essa morte não precisou ser prolongada, pois ele próprio é inocente. Qualquer culpa que ele suporte não é dele, mas nossa que foi colocada sobre ele. Então não há razão para ele continuar morto. Deus, ao ressuscitá-lo dos mortos, o vindica e demonstra a sua vitória sobre o pecado, a morte e o inferno.
Mas como pode Cristo, que é uma pessoa divina, passar por uma separação de Deus? Não seria isso impossível, dividir a Trindade ao meio? Bem, parece-me que Cristo, em sua natureza humana pode sentir abandono e separação de Deus, o Pai, uma ruptura do companheirismo e retirada da benção Dele. Em teorias clássicas da encarnação, a alma humana de Jesus (que não é uma pessoa) sente tal abandono, não o Logo divino (que é a pessoa de Cristo). Na minha doutrina neo-Apolinária preferida da encarnação, Cristo em sua consciência humana desperta, sente tal abandono. Assim, ele pode sofrer a pena de morte que nós merecemos.
[1] Embora eu ache que isso tenha envolvido mais que a mera morte física, em uma visão objetiva, não é relevante que outros mártires tenham sofridos mortes horríveis, então Cristo não passou por nenhum sofrimento “mais difícil de lidar que o deles”. O fato continua de que Cristo estava morrendo em seu lugar, pagando a sua pena, e eles não estavam.
- William Lane Craig