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#506 Por que os hedonistas merecem condenação moral?

February 10, 2017
Q

Sou hedonista: vivo para ser feliz e curtir a vida. Não tenho nenhuma vontade de viver para alguém ou servir alguém, o que inclui o próprio Deus. Meu padrão moral pessoal diria que não há nada de errado nisso e que não deveria haver punição. Mesmo minha amável família e outras pessoas amáveis em minha vida concordam.

No entanto, de acordo com os padrões morais de Deus, meu estilo de vida seria pecaminoso e acabaria me levando para o inferno. Preciso obedecer aos seus mandamentos e evitar os pecados que ele menciona. Aceitar Jesus não basta; devo ter uma vida na santidade de Deus, e não segundo minhas paixões hedonistas egoístas. Não consigo de forma alguma amar alguém assim. Por favor, nem tente justificar como Deus é totalmente amoroso, totalmente justo e moralmente perfeito e reto; nada me convencerá que ele o seja.

O verdadeiro amor viria da minha família e daquelas outras pessoas amáveis em minha vida. Jamais me puniriam por meu estilo de vida em que sequer prejudico aos demais. Mais uma vez, não tente justificar como estou errado; não vai funcionar. Não sou só eu que enxergo meus padrões morais como justos e os padrões morais de Deus como injustos e insanos, mas também céticos famosos como Richard Dawkins, Sean Carroll, Matt Dillahunty, Sam Harris etc.

Como é possível culpá-los? Como é possível agir como se eles soubessem e tivessem consciência da santidade e justiça moral de Deus, mas escolhessem rejeitá-lo mesmo assim? Não é assim. Eles não estão convencidos de que Deus seja santos e moralmente justo, para começo de conversa. Estão plenamente convencidos do contrário. Como, então, é possível culpá-los pela blasfêmia que eles lançam contra o caráter moral de Deus?

Como é possível dizer que eu e esses céticos merecem a punição eterna, se não estamos convencidos de que Deus seja santo e moralmente justo, para começo de conversa? Aquilo de que você está convencido não é uma escolha. Antes, é qualquer conclusão à qual sua lógica honesta o leva, quando você atenta para todas as informações e argumentos de diversos lados. Assim, a minha lógica honesta e a lógica honesta deles leva a crer que Deus é uma atrocidade moral. Assim como nada pode convencê-los do contrário, nada pode me convencer do contrário, e não há razão para pensar que estamos errados e somos culpados e condenados.

Matt

  • United States

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Matt, vou respeitar seu pedido e não vou tentar convencê-lo de que “Deus é totalmente amoroso, totalmente justo e moralmente perfeito e reto”nem que você está errado ao buscar suas “paixões hedonistas egoístas” sem “nenhuma vontade de viver para alguém ou seguir alguém”. Você está obviamente com a mente formada e decidida e, como “nada pode convencê[-lo] do contrário”, blindado a argumentos e provas contrários.

Só devo observar, Matt, por preocupação com você, que o estilo de vida egocêntrico que você adotou é a prescrição para o desastre pessoal. Você nunca conseguirá ter um casamento ou filhos felizes com essa atitude tão egoísta e se verá cada vez mais isolado dos demais e afundado na desgraça. No fim das contas, a busca das próprias paixões hedonistas significará, ironicamente, o esfacelamento de uma vida feliz e realizada.

Quanto à sua família e às pessoas “amáveis” ao seu redor, fico me perguntando se elas realmente compreendem as implicações de sua perspectiva moral. Será que realmente entendem que, segundo sua perspectiva, sua escolha de ser bom com eles ou os demais é totalmente subjetiva, que você poderia com a mesma facilidade ter escolhido, caso lhe conviesse, ser explorador, cruel e até homicida? Será que realmente acreditam que o hedonista que escolhe virar, digamos, pedófilo não faz “nada de errado” e, portanto, não deve ser punido? Discordo de você que, ao aprovarem sua filosofia, estão sendo amáveis; pelo contrário, a coisa amorosa a fazerem seria tentar persuadi-lo a abandonar essa filosofia de vida que, afinal, é tão autodestrutiva. Ao aprovarem seu caminho autodestrutivo, eles estão sendo, na realidade, desamorosos e grosseiros com você.

Deixe-me, então, tomar sua pergunta literalmente: como é possível culpar pessoas que “rejeitam... a santidade e justiça moral de Deus”? Bem, parece-me que existe uma resposta ontológica e uma resposta epistemológica à pergunta. Ontologicamente, posso culpa-los porque Deus existe e, portanto, existem padrões objetivos de certo e errado que devemos seguir. Dada a existência de Deus, quem escolhe seguir suas “paixões hedonistas egoístas” sem “nenhuma vontade de viver para alguém ou servir alguém” está fazendo algo profundamente imoral e, por isso, merece a condenação moral. Está, na verdade, violando os dois maiores mandamentos de Deus: (1) amar o Senhor, seu Deus, de todo coração, alma, força e entendimento; e (2) amar o próximo como a si mesmo.

Ao que me parece, na verdade é você, Matt, que está numa situação impossível nesse caso. Conforme a filosofia do hedonismo, como é possível que você me condene por minhas escolhas de vida mais do que eu às suas escolhas? Segundo sua filosofia, sou livre para buscar aquilo da vida que mais me dá prazer e, se isso envolve ser um pedante condenatório e cheio de justiça própria, como é que você pode dizer que fiz algo errado ou mereço a culpa? Fico perplexo com o tom de indignação moral que permeia sua carta. Será que você não é culpado, Matt, de introduzir aí valores morais objetivos de juízo que são independentes daquilo que mais dá prazer a cada pessoa?

Epistemologicamente, eu diria que quem rejeita a santidade e justiça moral de Deus merece a condenação porque:

(i) Deus se revelou a nós na natureza e na consciência com clareza suficiente, de modo que quem o rejeita é culpável por isso. A Bíblia diz:

Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas, de modo que esses homens são indesculpáveis... és indesculpável, ó homem, sejas quem for, pois te condenas naquilo em que julgas o outro; pois tu, que julgas, praticas os mesmos atos. Mas nós sabemos que o julgamento de Deus é de acordo com a verdade contra os que praticam tais atos. (Romanos 1.20; 2.1-2).

Além disso, há bons argumentos que fazem bastante provável que Deus exista, incluindo o argumento moral para Deus como o paradigma de bondade moral e a origem da lei moral, o que prova que Deus é “totalmente amoroso, totalmente justo e moralmente perfeito e reto”. Céticos, incluindo os “famosos” que você menciona, conhecem esses argumentos e fracassaram, na minha detida opinião, ao tentar refutá-los.

(ii) O testemunho do Espírito Santo quanto à verdade do teísmo cristão é suficiente para conhecer a Deus, mesmo àqueles que não estão familiarizados com os argumentos a favor da existência de Deus. Quem suprime o testemunho do Espírito Santo é culpado de resistir ao próprio Deus e, portanto, merece a condenação de maneira enfática.

Pois bem, sua reação é interessante. Você diz:

Aquilo de que você está convencido não é uma escolha. Antes, é qualquer conclusão à qual sua lógica honesta o leva, quando você atenta para todas as informações e argumentos de diversos lados. Assim, a minha lógica honesta e a lógica honesta deles leva [sic] a crer que Deus é uma atrocidade moral.

Discordo que “aquilo de que você está convencido não é uma escolha”. Às vezes, é, sim. Pecadores determinados a buscar suas paixões hedonistas egoístas têm um interesse pessoal em se livrar de Deus e, portanto, podem ignorar ou suprimir os indícios de que ele seja real. Todos temos um botão de volume cético que tendemos a aumentar ao máximo quando confrontados com visões de que não gostamos e diminuir ao mínimo quando se trata de nossas visões. Fico impressionado com as coisas absurdas nas quais as pessoas acreditam só para resistir aos argumentos a favor da existência de Deus — por exemplo, que o universo inteiro surgiu sem uma causa, uma afirmação que é literalmente pior do que mágica e que jamais aceitariam com relação a qualquer outra realidade em suas vidas. Tudo que você precisa fazer é observar a maneira como esses céticos respondem aos argumentos e indícios da existência de Deus para se convencer de que eles não são lá esses pensadores objetivos e desinteressados que você imagina. Acrescente a isso o testemunho do Espírito Santo, que eles resistem firmemente, e fica claro que aquilo em que cremos pode, às vezes, ser uma escolha.

Existe ainda uma observação que precisa ser feita, Matt, se você ainda está lendo este texto. Quando você fala dos “padrões morais de Deus”, do que está falando? De onde está tirando sua descrição dos padrões de Deus? Não é do argumento moral, que prova que Deus é perfeitamente santo e justo! Antes, o que os céticos discutem são as descrições de Deus na Bíblia, principalmente no Antigo Testamento. Rejeitam essa descrição de Deus, o que dá uma roupagem totalmente diferente ao problema!

Conforme reconheci em minha resposta à questão 16 sobre o massacre dos cananeus ordenado por Deus, existem passagens no Antigo Testamento que certamente são problemáticas do ponto de vista moral. Posso entender prontamente por que os céticos vêm a pensar que essas caracterizações de Deus não podem ser verdadeiras. Não os culpo ou condeno por terem dificuldade com as passagens em questão. O que essas passagens põem em causa, porém, não é a existência ou bondade de Deus (que são estabelecidas pelos argumentos moral e ontológico), mas, sim, a inspiração ou inerrância do Antigo Testamento. Se essas passagens não podem ser conciliadas com um Deus perfeitamente bom e amoroso, como eu tentei fazer, esse fato, obviamente, não refuta Deus, mas, sim, a confiabilidade das descrições do Antigo Testamento acerca de Deus. É possível rejeitar essas passagens sem rejeitar Deus ou o cristianismo.

Para concluir, espero, Matt, que você não tenha a mente tão fechada como faz parecer. Afinal, você tirou seu tempo para me escrever! Espero que você considere novamente os indícios de que um Deus santo e justo, de fato, existe.

- William Lane Craig