#513 Ressurreições antes do fim do mundo?
February 10, 2017Fato 4, ponto 2 em sua declaração de abertura do debate com Bart Ehrman: o senhor afirma que as visões judaicas do além excluíam a existência glorificada antes da ressurreição geral. Ainda assim, nos relatos da Transfiguração de Jesus, três discípulos viram Moisés e Elias. Elias, de acordo com o relato em Reis, nunca morreu, mas está registrado no fim de Deuteronômio que Moisés morreu. Independentemente de que ele tenha sido de fato ressuscitado e glorificado no mesmo sentido que vieram a crer Jesus o tinha sido, será que não podiam acreditar que foi isso que aconteceu? Aparições de mortos (Samuel a Saul e a pitonisa de Endor) não eram desconhecidas no Antigo Testamento.
Arnold
Dr. craig’s response
A [
Vamos, primeiro, montar o cenário para quem não está familiarizado com o debate que você menciona, Arnold. Dentre os fatos sobre Jesus que são geralmente aceitos por historiadores (incluindo Ehrman) está o seguinte:
Fato 4: os discípulos originais repentina e sinceramente vieram a acreditar que Jesus ressuscitara dentre os mortos, apesar de terem toda a predisposição contrária.
Fiz menção a três aspectos da situação histórica em que os discípulos se encontravam após a crucificação de Jesus. O segundo aspecto é:
2. As crenças judaicas sobre o além excluíam a ressurreição de alguém dentre os mortos para a glória e a imortalidade antes da ressurreição geral dos mortos no fim do mundo.
Uma vez que foi exatamente nisso que os discípulos originais vieram a crer, a pergunta que não quer calar é o que os levou a crer em algo tão não-judaico e estranho? O livro A ressurreição do Filho de Deus, de N. T. Wright, é uma discussão com 800 páginas sobre a questão.
Sua pergunta questiona o ponto (2) com base na narrativa da transfiguração e nas histórias de aparições dos mortos, como no relato da pitonisa de Endor.
Leitores atentos verão de imediato, penso eu, que você não prestou atenção o suficiente à minha afirmação em (2). O ponto (2) não afirma que “as visões judaicas do além excluíam a existência glorificada antes da ressurreição geral”. Antes, o que ele afirma é o fato de que o judaísmo não tinha nenhuma concepção de ressurreição dos mortos para glória e imortalidade antes da ressurreição no fim do mundo. Na melhor das hipóteses, houve ressuscitações dos mortos, um retorno à vida mortal terrena, como no caso de Lázaro e da filha de Jairo, os quais Jesus ressuscitou dos mortos. Essas pessoas não receberam um corpo glorificado e, enfim, vieram a morrer novamente. A ressurreição para glória e imortalidade viria somente no fim da história, quando Deus ressuscitasse todos os mortos para executar o juízo final.
Pois bem, obviamente, nem a história da transfiguração nem a história da pitonisa de Endor são histórias da ressurreição dos mortos. Ressurreição envolve os restos mortais de alguém — na crença judaica, principalmente, os ossos — sendo restabelecidos e transformados. Antes, essas histórias relatam experiências visionárias ou, então, uma encarnação temporária de pessoas que no presente estão com Deus aguardando a ressurreição final. A crença judaica nessas histórias não chega nem perto de explicar por que os discípulos viriam a crer que Jesus literalmente ressuscitou dos mortos, distante e previamente à ressurreição final. Por que não disseram que ele lhes apareceu em glória, assim como Elias e Moisés?
É claro que uma pergunta bem diferente ainda fica de pé: será que experiências visionárias de Jesus poderiam ter levado os discípulos a inferir erroneamente que Jesus ressuscitou dos mortos? Veja o que escrevi sobre a hipótese da alucinação para acompanhar uma discussão desta questão. Como N. T. Wright se expressou tão incisivamente, no mundo antigo, uma visão de um defunto não era prova de que a pessoa estava viva. Era prova de que ela estava morta!
- William Lane Craig