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#329 Argumento da Contingência

May 16, 2015
Q

Olá Dr. Craig,

Eu tenho uma pergunta sobre o "mistério da existência", basicamente. Eu sou um agnóstico que, uma vez, era um cristão e continuo pensando sobre as questões teológicas e sou uma pessoa de mente aberta (também tenho ouvido todos os seus podcasts e estou constantemente envolvido com o seu trabalho). Recentemente assisti a uma parte da série "Closer to Truth", com Robert Lawrence Khun, na qual você apareceu, mas esse segmento foi com o físico Steven Weinberg. As declarações dele ajudam a formular minha pergunta e levá-lo a ver para onde estou indo.

Robert estava perguntando: "Algumas pessoas dizem que a ciência vai bater com uma parede, aonde eles [cientistas] irão chegar a algo que vai estar além dos limites da explicação científica e é aí onde entra a religião e, supostamente, tem uma resposta" (estou parafraseando). Ele disse que concorda com o que eles dizem sobre a ciência, mas não concorda com a parte sobre religião. Ele basicamente diz que se a ciência tivesse sorte, ela bateria naquela parede e teria alguma teoria final que é o máximo onde ela pode ir, e que, no final dela, você poderá perguntar: "por que esta [teoria]?" Ele concede que há um "mistério irredutível (que eu acho que é interessante, uma vez que você definitivamente não ouviria isso de alguém como Lawrence Krauss), mas ele acha que a pessoa religiosa tem um mistério igual. Ele diz que se você perguntasse a uma pessoa religiosa "Como Deus é?", ele diria que não tem nenhuma ideia, então a noção realmente não tem conteúdo e é apenas uma palavra de quatro letras. Mas se ele diz coisas como: "Ele é bondoso, todo poderoso, amoroso, misericordioso, ou humorístico, etc [...]", então a pergunta deve surgir, "Por que isso?"

Eu penso que você, provavelmente, iria responder com coisas como o argumento ontológico, o argumento moral, Deus sendo um ser metafisicamente necessário etc., mas como um agnóstico eu tenho (e até mesmo como um crente) me questionado se Deus existe, por que ele existe? Isso me levou a pensar sobre o "mistério" da visão do naturalista/ateu e do teísta, e eu acho que pode haver uma razão porque o teísta pode ter uma vantagem neste caso.

Se o naturalista é um fisicalista e vamos também dizer que tenha uma visão atemporal (tenseless) sobre a natureza do tempo, assim, deixando-o com um bloco quatro dimensional do espaço-tempo, haveria apenas este bloco existindo inexplicável e atemporalmente. Isto parece eliminar a necessidade de responder a essas perguntas como "O que havia antes do Big Bang, ou o que o causou" e tais problemas, mas você ainda ficaria com esse mistério de um bloco inexplicável.

Mas se houvesse um Deus como concebido por teístas, parece-me que o teísta teria a seguinte vantagem sobre o naturalista no que se refere ao mistério da existência. No caso dos naturalistas (como eu tenho concebido) você tem este bloco que existe eterna e inexplicavelmente, no sentido de que não há nenhuma razão para a sua existência (e não é como se você pudesse perguntar por que ele existe). Mas no caso de Deus que, vamos dizer que é algo como uma mente, e é, portanto, relacional, e se nós também somos mentes também, parece que poderíamos relacionar-nos com este Ser de uma maneira que não poderíamos com a realidade última do bloco de espaço-tempo da teoria-B naturalista, no sentido que poderíamos perguntar a Deus por que ele existe. Concedido que provavelmente não sendo possível que Ele/Aquilo poderia nos responder em um idioma ou num sentido semântico, ele poderia torná-lo evidente para nós de uma forma relacional, conhecendo-nos intimamente e em comunhão com a gente, para que pudéssemos, em certo sentido, "tornar-nos parte de" ou "compartilhar o conhecimento de sua existência e eternidade necessária". Em qualquer caso, eu acho que seria menos misterioso se Deus existisse do que o bloco, porque Deus é uma mente e você pode se identificar com uma mente (mesmo que houvesse um tipo menor de mistério no sentido de que Deus é infinito e, portanto, não pode ser exaustivamente conhecido ou compreendido).

Gostaria de saber se você acha que o teísta tem uma vantagem neste caminho e se você discorda de Weinberg sobre o teísta sendo igualmente perplexo diante do mistério da existência.

Obrigado,

Christian

Canadá

  • Canada

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Christian, soa para mim como se você estivesse perigosamente perto de apresentar argumentos para o seu caminho de volta para o teísmo!

Depois de ter sido inicialmente cético sobre o argumento de Leibniz da contingência a favor de Deus como um ser necessário (principalmente porque eu pensei que pressupunha uma versão forte do Princípio de Razão Suficiente e porque eu não acho que as proposições existenciais eram necessariamente verdadeiras), cheguei a ideia de que o argumento de Leibniz é, de fato, um argumento sólido a favor da existência de Deus. Através do trabalho de filósofos como Alvin Plantinga eu vim a ver como a existência de Deus pode ser entendida como ampla e logicamente necessária e, graças a Stephen Davis, eu vim a ver que o argumento de Leibniz pode ser solidamente formulado ao usar um Princípio da Razão Suficiente que seja bastante modesto e plausível.

Aqui está o argumento:

1. Tudo o que existe tem uma explicação para sua existência (ou na necessidade de sua própria natureza ou em uma causa externa).

2. Se o universo tem uma explicação para sua existência, esta explicação é Deus.

3. O universo existe.

4. Portanto, o universo tem uma explicação para sua existência.

5. Portanto, a explicação da existência do universo é Deus.

Concordo com Weinberg de que o universo não é plausível e metafisicamente necessário em sua existência. Mas ele está errado em pensar que o teísta é igualmente confrontado com um contingente bruto final. O ponto de Leibniz é que Deus, como a explicação final, deve ser metafisicamente necessário em Sua existência e, assim, incapaz de não existir (ou incapaz da não-existência). Além disso, Deus tem certas propriedades essenciais (propriedades que ele tem em todo o mundo possível nos quais Ele exista), e assim, dada a Sua existência necessária, ela não é contingente, e, por isso, não é surpresa que Ele tenha essas propriedades. Ele não poderia ser Deus sem elas.

Por isso, não faz sentido perguntar: "se Deus existe, por que ele existe?" Esse tipo de quebra-cabeça é apropriado apenas para um ser que exista contingentemente. Mas com relação a um ser necessário, isso é como se perguntar: "Por que todos os solteiros não são casados?"

Estou inclinado a concordar com você que se adotarmos uma teoria-B ou atemporal (tenseless) do tempo, segundo a qual todos os momentos do tempo são igualmente reais, e tornar-se temporal [temporal becoming] é uma ilusão da consciência humana, então o argumento cosmológico kalam baseado no princípio do universo não é a questão saliente, mas, sim, o argumento de Leibniz de contingência: por que este bloco de espaço-tempo de quatro dimensões existe? Isso, de fato, clama por explicação, já que para que o naturalista diga que isso simplesmente existe inexplicavelmente parece cometer o que Alexander Pruss, na sequência de Arthur Schopenhauer, tem chamado “a falácia do táxi”: ela trata o Princípio de Razão Suficiente como um serviço contratado que pode ser demitido arbitrariamente uma vez que se chegou ao destino desejado. Não, a existência de um espaço-tempo que exista contingentemente requer uma explicação também, da mesma maneira como os planetas e cães e caramujos.

Mas eu não vejo como Deus, sendo uma mente, faria Sua existência menos intrigante se Ele existia contingentemente. Você parece estar usando outro argumento para a existência de Deus, o que eu tenho chamado de argumento noológico, ou seja, que mentes finitas como as nossas se encaixam em um mundo teísta muito melhor do que em um mundo naturalista. Dado o naturalismo, parece que estados de intencionalidade não existiriam, porque os objetos físicos não são sobre ou de outra coisa. Só mentes exibem tal intencionalidade. Então, se Deus não existisse, seria plausível que estados de intencionalidade não existiriam. Mas é inegável que estes estados intencionais existem! Portanto, Deus existe.

Mas, para fornecer uma razão suficiente para o porquê de alguma coisa existir, precisamos chegar a um ser metafisicamente necessário como nosso explicativo final. Curiosamente, há boas razões para pensar que tal final explicativo deve ser uma mente. Em primeiro lugar, de que outra forma se poderia obter uma realidade contingente de um ser necessariamente existente, a menos que o ser seja um agente pessoal dotado de livre-arbítrio, que pode escolher livremente criar um universo contingente? Sem o livre-arbítrio, o efeito de um ser necessário deve ser tão necessário quanto o próprio ser. Eu não consigo pensar em alguma maneira de obter um efeito contingente de uma causa necessariamente existente, a menos que a causa seja um agente pessoal dotado de liberdade da vontade. Em segundo lugar, os únicos candidatos que conhecemos para um ser metafisicamente necessário além do universo físico ou são objetos abstratos ou uma mente. Mas objetos abstratos não estão em relações de causa-efeito para qualquer coisa. Isso é parte da definição do que é ser abstrato. Portanto, a explicativa final é plausivelmente uma mente.

Assim, enquanto Deus, sendo da ordem da mente, não é, por si só, suficiente para atender as demandas do Princípio da Razão Suficiente, ainda assim a conjugação do teísmo de necessidade metafísica e do aspecto final da mente parece dar o teísta uma vantagem decisiva sobre o naturalista.

- William Lane Craig