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#97 Ceticismo de Quebec

August 3, 2014
Q

Olá. Meu nome é Martin. Sou de Quebec e recentemente assisti a uma de suas apresentações (Dieu existe-t-il?), em Quebec. Eu gostaria de ter conversado com você a respeito, mas restrições de tempo e a barreira da língua fizeram com que fosse difícil. Espero que essa mensagem chegue a você.

Eu queria dizer que achei diversos dos seus argumentos falaciosos - primeiro, dizendo que “ser um ateu é fazer apologia ao estupro” é um típico argumento homem de palha, e você sabe tanto quanto eu que qualquer pessoa pensante, ateu ou não, entende porque o estupro não é aceitável na sociedade moderna. Ser um ateu não é ser um hedonista, e eu penso que é patético que eu precise lembrar-lhe disso. Demonizar pessoas por suas crenças dificilmente é uma posição que você deveria estar defendendo.

Além disso, se você se sente confortável em associar ateus a estupro, você deveria saber que uma associação muito mais fácil e popular é a de padres católicos e estupro.

Impressionar uma sala cheia de pessoas vagamente interessadas com figuras sobre a extremamente improvável condição que permitiu que a vida existisse é bom e tranquilo - dar adeus a todo o princípio antrópico com uma única e péssima analogia não é. E, por favor, se você vai explicar algo, não use “Você não tem o conhecimento para entender isso porque é complicado demais”. Não é um argumento convincente de qualquer forma. Trabalhe nisso.

Eu achei que torcer as palavras de Nietzsche para dar apoio aos seus argumentos foi um jogo baixo. Falar de um filósofo conhecido, citando três palavras dele, e dizer que aquela pessoa apóia seu argumento, não é uma boa forma de conquistar as pessoas.. Por favor, da próxima vez que você mencionar Nietzsche, faça-o ao falar sobre moralidade absoluta e objetiva. Espero que eu não esteja lhe ensinando nada quando cito: “Todas as coisas são sujeitas à interpretação. Seja qual for a interpretação que prevalecer em certo momento, é a função do poder e não da verdade”, suas múltiplas citações sobre fé ou “Faça do seu jeito. Eu faço do meu. Pois o jeito certo, correto, e único não existe.” Os nazistas tentaram usar seletivamente as palavras de Nietzsche para justificar suas ações também. Reductio ad Hitlerum, com o qual você parece estar familiarizado.

O ponto mais fraco da sua apresentação, com certeza, é sua última “prova”: “Se você procurar por Deus, ele se revelará para você.” Em uma tacada, você dá uma desculpa para Deus por não se manifestar falando com as pessoas para que elas “acreditem mais fortemente”, você dá suporte a sua prova citando anedotas inúteis (“Aconteceu comigo! E com o meu primo!”) e você desconsidera completamente coisas como confirmações tendenciosas retrocedendo ao velho ditado “É uma questão de fé, se você acreditar que algo seja um ato de Deus, então é”. Não consigo compreender como alguém como você escolheria fé, em vez de princípios de psicologia bem documentados.

Talvez você possa achar essa informação interessante, sobre a correlação entre “religiosidade e inteligência”: Mensa Magazine, Edição da Grã-Bretanha, Fev. 2002, pp. 1213. Analisando 43 estudos feitos desde 1927, Bell encontrou que todos, menos quatro, encontram tal conexão, e ele concluiu que “quanto maior a inteligência ou nível de educação de alguém, menos provável é que essa pessoa seja religiosa ou tenha 'crenças' de qualquer tipo.” Não estou debatendo um especialista, mas eu não acho que a evidência por anedota que você apresentou (“Eu conheço muitos cristãos inteligentes!”) tem qualquer valor quando em contraste com estudos verdadeiros. Fique à vontade para ver isso mais a fundo.

Eu não estou aqui para me preocupar em apontar as várias fraquezas dos seus argumentos (infinitos não podem existir, mas está tudo bem que Deus é um ser infinito). Tenho certeza que você já ouviu essas fraquezas muitas vezes, e você tem respostas perfeitas e enlatadas para cada uma delas - mas fiquei desapontado de ver que, quando pressionado, você depende do escudo inabalável(?) e prova de lógica chamada “fé” (acredito que você está familiarizado com as obras de Nietzsche: “Um passeio casual pelo hospício mostra que fé não prova nada.” Eu esperava uma apresentação genuinamente interessante e bem elaborada e fiquei extremamente desapontado.

Se você de fato ler isso, como eu espero que leia, tenho uma pergunta para você. Por que (como eu tenho certeza que você saiba) o ateísmo está lentamente tornando-se mais e mais a corrente de pensamento principal, enquanto religião está se extinguindo? Adoraria ouvir uma resposta sua.

Finalmente - eu honestamente espero que Deus não seja tão fraco quanto aos argumentos para Sua existência. Boa sorte pra você.

P.S: Trabalhe para melhorar suas apresentações de Powerpoint: 5 slides não fazem uma apresentação.

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Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Wow, fico feliz em ouvir de você! Não tenho certeza se estavas na palestra da Universidade de Montreal ou em Laval. Fiquei extremamente frustrado que em Montreal tivemos quase nenhum tempo para perguntas, antes que a sala tivesse que ser esvaziada para a próxima aula. Quero ouvir de alunos como você, e dar-lhes a chance de colocar suas objeções e/ou perguntas. Em Laval, por contraste, o Q & A continuou por uma hora e meia depois da minha fala de 45 minutos terminar, e, com o tradutor presente, não havia qualquer barreira de língua.

Nunca deixa de me surpreender a hostilidade e a petulância de estudantes de faculdade profundamente secularizados. A arrogância deles se equivale somente a sua ignorância. Martin, sua carta exala altivez e condescendência. (Nem mesmo meus slides de PowerPoint - que meramente expuseram as premissas de cada argumento para facilitar a compreensão e discussão - escaparam do seu criticismo!) Porém, suas objeções são fáceis de responder.

Vamos considerar os argumentos na ordem em que você os endereçou. Primeiro, o argumento moral:

1. Se Deus não existe, valores morais objetivos não existem.

2. Valores morais objetivos existem.

3. Portanto, Deus existe.

Sua resposta para esse argumento revela que você simplesmente não o entendeu. Você parece pensar que eu estava dizendo que ateus fazem apologia ao estupro e são hedonistas. Eu tentei evitar essa má compreensão comum ao dizer:

Mas devemos ter muito cuidado aqui. A pergunta aqui não é: “Devemos acreditar em Deus a fim de viver vidas com moralidade?” Eu não estou afirmando que devemos. Nem mesmo a pergunta é: “Podemos reconhecer valores morais objetivos sem acreditar em Deus?” Eu acho que podemos. Na verdade, a pergunta é: “Se Deus não existe, valores morais objetivos existem?”

Depois de ler seu e-mail, ainda não estou certo qual premissa do argumento moral você rejeita. Quando você diz “qualquer pessoa pensante, ateu ou não, entende porque o estupro não é aceitável na sociedade moderna,” você está afirmando algo diferente de estupro ser um tabu na sociedade moderna, como resultado de pressões socio-biológicas? Ou você acha, como eu, que padres Católicos estuprando meninos é objetivamente errado? Você mesmo está certo sobre qual premissa do argumento você vê como falsa, e por quê?

Eu citei Nietzsche para mostrar que a morte de Deus implica niilismo. Era nisso que ele acreditava e isso foi o que ele disse. Você implora, “Por favor, da próxima vez que você mencionar Nietzsche, faça-o ao falar sobre moralidade absoluta e objetiva.” Mas, Martin, como eu poderia ter sido mais claro? (Olhe para o meu terrível slide de powerpoint com o argumento!) Eu defini o que eu queria dizer por “objetivo” e dei uma ilustração. Qualquer que seja o motivo você simplesmente não estava escutando atentamente.

Agora considere o argumento da sintonia fina do universo:

1. A sintonia fina do universo é devido à necessidade física, chance ou ao design.

2. Não é devido à necessidade física ou chance.

3. Portanto, é devido ao design.

Em minha discussão da alternativa da chance, você me acusou de “dar adeus a todo o princípio antrópico.” Mas, Martin, o Princípio Antrópico é inútil como explicação a menos que seja unido com uma hipótese de Conjunto de Mundos. É isso que a ilustração do pelotão de fuzilamento de Leslie ilustra. Por que você me aconselha: “não use 'Você não tem o entendimento para entender isso e é complicado'?” Você sabe que eu nunca disse tal coisa. Eu expliquei as hipóteses de Conjunto de Mundos, ou multiverso, e depois apresentei duas objeções contra elas, incluindo o criticismo devastador de Roger Penrose. Ou, em sua opinião, o Penrose também é alguém que só “dá adeus”?

A seguir, considere minha afirmação que crença em Deus é propriamente básica para aqueles que O experimentam. Eu explicitamente disse, “Isso não é realmente um argumento para a existência de Deus; na verdade é a afirmação que você pode saber que Deus existe completamente à parte de argumentos, simplesmente por experimentando-O pessoalmente.” Depois de mais explicações eu resumi da seguinte forma:

1. Crenças que são fundamentadas apropriadamente podem ser aceitas racionalmente como crenças básicas, sem estarem fundamentadas em um argumento.

2. A crença que o Deus bíblico existe é apropriadamente fundamentada.

3. Portanto, a crença que o Deus bíblico existe pode ser racionalmente aceita como crença básica sem estar fundamentada em um argumento.

Preciso dizer novamente que eu nunca falei qualquer uma das palavras que você atribuiu a mim? Por que você insiste em colocar palavras na minha boca? Você precisa mostrar porque não é racional que eu entenda a crença em Deus como propriamente básica. Apelos vagos para confirmação tendenciosa não vai ser suficiente, meu amigo; isso funciona para os dois lados.

Finalmente, o argumento cosmológico:

1. Tudo o que começa a existir tem uma causa.

2. O universo começou a existir.

3. Portanto, o universo tem uma causa.

Você oferece uma frase como resistência: “infinitos não podem existir, mas está tudo bem que deus é um ser infinito.” Você imagina, Martin, que Deus é uma coleção de um número real infinito de partes definidas e discretas? Se sim, então você não entende o conceito clássico de Deus; se não, então conceitos matemáticos e quantitativos do infinito são irrelevantes para a infinidade de Deus, que é um conceito qualitativo expressando os atributos superlativos de Deus, como necessidades, asseidade, eternalidade, onipresença, onipotência, e assim por diante.

Em suma, você evidentemente não pensou muito profundamente a respeito dessas perguntas, Martin. Se você não achou meus argumentos interessantes e bem pensados, talvez isso seja mais uma reflexão a seu respeito do que com os argumentos que eu dei.

Agora compare com seus próprios argumentos. Pessoas com uma educação melhor tendem a ser menos religiosas. Então o que segue disso? Você realmente imagina que isso seja uma objeção séria à verdade da crença religiosa? Pode até ser uma reflexão do processo de socialização que acontece na universidade secular. De fato, quando olho para os muitos teístas brilhantes que existem, e os péssimos argumentos que secularizados tipicamente dão para sua descrença, eu suspeito que seja exatamente isso que acontece. Esse tipo de elitismo cultural - tão familiar na esfera política - na verdade faz um curto-circuito na investigação e avaliação racional.

Novamente, quando você pergunta, “Por que (como eu tenho certeza que você saiba) o ateísmo está lentamente tornando-se, mais e mais, a corrente de pensamento principal, enquanto religião está se extinguindo?”, você apenas revela quão paroquial você é, Martin. Alunos da altamente secularizada Quebec tendem a pensar que todo o mundo é como eles. Vocês não se dão conta de que na Ásia, África e América Latina o cristianismo evangélico está tendo uma afluência em níveis sem precedentes. Além do mais, na esfera de países de fala inglesa, tem acontecido uma revolução desde o fim da década de 1960 na área da filosofia, tal que muitos dos filósofos mais brilhantes da Inglaterra e dos Estados Unidos em muitas das nossas melhores universidades são cristãos declarados. (Dê uma olhada no meu artigo A Revolução na Filosofia anglo-americana em Artigos Populares desse site.) Os argumentos para existência de Deus que eu compartilho são todos defendidos por pensadores, hoje, que são muito mais brilhantes do que você ou eu. O ateísmo tem recuado por diversas décadas e continuará a declinar depois que a velha guarda morrer e seus lugares forem tomados por alunos de mestrado, cristãos jovens e brilhantes que estão se infiltrando no sistema.

Eu sei, Martin, que tudo isso soa muito estranho para você. Eu morei na Europa por treze anos e sei como uma cultura majoritariamente secular pode modificar a percepção de alguém. A filosofia francesa não tem sido tocada pela revolução que eu mencionei. Eu lhe encorajo a tentar sair do seu contexto cultural imediato e olhar para o que está acontecendo nos esforços acadêmicos do mundo em geral. Eu sei que você ficará chocado.

- William Lane Craig