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#243 Dor Animal e o Tratamento Ético de Animais

January 15, 2015
Q

Dr Craig,

Recentemente vi sua apresentação intitulada "Origens do Universo - Stephen Hawking Eliminou a Deus?". Ali, você põe em dúvida as credenciais filosóficas deles e sugere que eles são meros leigos quanto a questões filosóficas. Acho intrigante, portanto, que você refere-se a Michael Murray como uma espécie de autoridade sobre a consciência e dor nos animais. Ele é um filósofo sem credenciais científicas ou qualquer pesquisa científica publicada referente à consciência animal ou dor, e assim - de acordo com você - deve ser considerado um leigo sobre estas questões. Seus pontos de vista estão certamente muito longe de representar um consenso científico.

Como alguém que legitimamente se preocupa com o bem-estar dos animais (e não apenas aqueles afortunados o suficiente para existir na categoria de animais domésticos), eu não acho muito "confortável" que as pessoas iriam promover ideias que possam prejudicar a base para a promoção do bem-estar animal ou para se opor a crueldade animal.

Se os animais não podem sentir dor, não há nada de errado em cometer atos contra os animais que se cometidos contra os seres humanos se esperaria que causaria dor? Por exemplo, o corte com uma faca. O que iria impedi-lo de cometer tal ato? Eu acho que é o fato de que você sabe, lá no fundo, que se você fizesse uma coisa dessas você estaria causando outro ser senciente sentir dor. Você também consideraria o atordoamento dos animais de fazenda antes do abate irrelevante? Afinal, se eles não podem experimentar dor, então não importa se eles estão atordoados antes de ter sua garganta cortada, não é?

Mark

<ul><li>United Kingdom</li></ul>

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Fui surpreendido com as reações emocionais que tenho recebido da Pergunta da semana passada! Parece quase como se alguns ateus realmente preferem que os animais experimentem um sofrimento terrível do que ter que desistir da objeção ao teísmo baseado no problema da dor dos animais! O que é especialmente estranho sobre essa situação é que a questão do sofrimento dos animais não tem nada a ver com a teologia, é tudo sobre neurociência. Esta deveria ser uma questão teologicamente neutra que todos nós podemos abordar com uma mente aberta para acompanhar a evidência neurológica para onde ela leva. Mas algumas pessoas são tão inflexivelmente contra deixar Deus fora do gancho, por assim dizer, para o sofrimento dos animais que eles não podem sequer olhar para a evidência científica de uma forma objetiva, desapaixonada, mas vão contra qualquer sugestão de que os animais não podem sofrer da mesma forma que os seres humanos.

Agora no seu caso, Mark, eu vejo uma preocupação diferente. Você está preocupado que negar que os animais têm uma espécie de consciência de terceiro nível de que eles próprios estão com dor levaria a maus-tratos de animais, o que é eticamente censurável. Mas aqui novamente suas emoções parecem estar ditando a ciência no que é ou não é o caso. Pois você diz que você não iria achar "confortável" que as pessoas iriam promover ideias que minam o bem-estar dos animais. Bem, eu não acharia reconfortante também; mas o que encontramos confortável não pode ser autorizado como um anel no nariz da ciência puxando-a na direção que preferimos. Em vez disso o que você precisa refletir é se a afirmação de que os animais não têm consciência da dor de terceiro nível realmente tem as implicações éticas que você sugere. Isso é uma questão filosófica, não é uma questão científica, e é aqui que o seu desafio deve ser colocado.

Assim, seus ataques contra a credibilidade de Michael Murray são bastante injustificados. É verdade, Murray é um filósofo e não um cientista. Mas ele tem feito um trabalho responsável de estudar a literatura científica sobre a dor animal, e seu livro contém citações da literatura que o leitor interessado pode ir atrás. A esse respeito, ele é totalmente diferente de Stephen Hawking (lembre-se da citação que li na minha palestra de Sir Martin Rees acerca do histórico de Hawking, ou melhor, a falta dele em filosofia e teologia). Além disso, o que Murray traz para a mesa é uma ideia filosoficamente sofisticada das questões envolvidas em problemas mente-corpo. Quando se trata de questões profundas como estas, eu tenho muito mais confiança nas declarações de um filósofo cientificamente informado do que nas declarações de cientistas filosoficamente ingênuos.

Então, vamos conceder, por uma questão de argumento, que Murray tem razão sobre a ciência quanto a dor de animais: animais sencientes experimentam dor, mas eles (além dos primatas superiores) não estão cientes de que eles próprios estão com dor. Que implicações éticas para o tratamento de animais que esta afirmação tem?

Isto levanta um problema para o ateísmo, que eu acho ser realmente desesperado, ou seja, dado o naturalismo não parece existir qualquer base de normas éticas para o tratamento de animais. Em primeiro lugar, parece claro que o tratamento ético dos animais não pode ser baseada em supostos "direitos dos animais". Esta expressão popular é um equívoco. Pois os animais não são agentes morais. Como tenho frequentemente salientado, quando um leão mata uma zebra, ele o mata, mas não o assassina. Pois os leões não têm obrigações morais para cumprir ou proibições para obedecer. Zebras não têm mais direito à vida do que o leão tem o direito de comer. A natureza é simplesmente moralmente neutra, porque os animais não são agentes racionais dotados de deveres morais.

Agora, se o leão não faz mal em matar a zebra, porque um ser humano está errado em matar a zebra? Não pode ser simplesmente porque a zebra iria experimentar dor, pois a dor é a mesma em ambos os casos. Se a zebra tivesse um direito inerente de não ser prejudicado, por que esse direito evaporaria quando o agressor é um leão em vez de um ser humano?

Em vez disso, parece claro que a base para o tratamento ético dos animais deve apresentar, não a ideia difusa dos direitos dos animais, mas sim os deveres morais dos seres humanos, que são, afinal, agentes morais e que, portanto, tem certos deveres sobre como os animais devem ser tratados. É por isso que podemos moralmente distinguir entre um leão rasgar uma zebra membro por membro, e um ser humano fazer o mesmo. Enquanto o leão não viola deveres morais (já que não tem nenhum) ao fazê-lo, um ser humano pode estar violando um dever moral que ele tem em tratar uma zebra assim (digamos, se ele só o faz isso por esporte).

Aqui é onde as coisas ficam realmente desesperadas para o ateu. Dado o naturalismo, por que pensar que os seres humanos têm quaisquer direitos morais objetivos com outros animais? Por que é errado para os seres humanos, que são apenas primatas relativamente avançados, infligir dor em outros animais? Quem ou o que os proíbe de fazê-lo? Obviamente, estamos de volta ao velho problema de encontrar qualquer base objetiva para os valores e deveres morais em um mundo ateu, só que desta vez o foco é sobre os nossos deveres para com os outros animais.

O teísta goza da vantagem de que o tratamento ético dos animais pode ser baseado em ordens de Deus para os seres humanos para serem bons administradores da terra. Esses comandos irão servir para fundamentar uma ética ambiental mais ampla, até mesmo para florestas e similares, para as quais a linguagem dos "direitos" seria ainda mais obtusa e dor nem sequer entra na equação. Desmatamento desnecessário ou poluição da água podem ser considerados violações morais de nossos deveres para cuidar da terra. Infligir dor injustificada em animais seria moralmente proibido a nós por Deus. Sim, lembre-se que na visão de que estamos discutindo, animais sencientes experimentam estados de dor de segundo nível, que não deve ser desnecessariamente infligido. Assim, atordoar animais antes de matá-los para o alimento é, de fato, uma boa ideia. Mesmo em relação aos animais que não experimentam a dor de segundo nível, o teísta pode sustentar que não devemos desnecessariamente prejudicar ou matá-los. Então, enquanto nós justificadamente passamos spray para mosquitos para evitar a propagação de doença, a pessoa que encontra prazer, digamos, em arrancar as asas de moscas apenas para o divertimento dela estaria violando seus deveres morais dados por Deus quanto ao tipo de pessoa ela deveria se tornar. Há, obviamente, muito aqui para aqueles que se especializam em ética aplicada, mas eu espero que você pode ver que o teísta está muito melhor colocado do que o ateu para promover o tratamento ético dos animais-mesmo aqueles que não têm consciência da dor de terceiro nível.

- William Lane Craig