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#351 Problemas com o Antigo Testamento

January 15, 2015
Q

Querido Professor Craig,

É uma honra escrever para você e eu lhe agradeço por seu site de apologética Cristã que tem sido muito estimulante para eu ler nos últimos anos.

Eu sou um agnóstico (pendendo fortemente para um teísmo genérico) com algumas ligações familiares ao Cristianismo. Nos últimos anos eu tenho pesquisado e investigado a verdade do Cristianismo profundamente e acho seu trabalho muito útil nessa área. No momento, eu pessoalmente acho que muitos dos argumentos em favor do teísmo genérico são muito convincentes (especialmente seu argumento cosmológico Kalam). Porém, não tenho certeza se posso dar o salto final para o Cristianismo ainda. Ainda existem algumas coisas com os quais estou trabalhando e investigando e pensei que poderia te perguntar sobre uma das áreas que tem me incomodado bastante e que faz com que seja difícil confiar e crer no Cristianismo.

A área que me incomoda um pouco é a questão de como lidar com o Antigo Testamento da Bíblia. O que quero dizer, Professor Craig, é que o Antigo Testamento faz algumas afirmações e/ou pintam uma imagem de Deus que parece muito diferente da imagem apresentada no Novo Testamento. Dois exemplos chave do que quero dizer seriam:

1.) Milagres extraordinários (como Jonas vivendo dentro de uma baleia, uma cobra que fala e a história do Êxodo, para a qual não parece existir provas históricas/arqueológicas).

2.) Um Deus colérico, que parece cheio de raiva (estou pensando nos castigos de Deus no livro de Levítico, que parecem assustadores e extremos)

Professor Craig, eu entendo que algumas pessoas alertam para o fato de que não devemos sempre ler o Antigo Testamento literalmente, estou ciente disso e mantenho isso em mente; mas, ainda assim, de forma geral, parece que as duas áreas chave que citei acima mantêm-se problemáticas. No Antigo Testamento, Deus realmente parece inusitadamente irado (novamente, estou pensando nos castigos de Levítico), assim como extraordinariamente grandioso na escala de seus milagres, que parecem quase inacreditáveis ao serem lidos.

Minha pergunta para você é essencialmente como você responderia a esses aspectos do AT? É realmente razoável acreditar que todos os eventos sobrenaturais extravagantes relatados no Antigo Testamento foram literais e ocorreram de fato (a despeito, por exemplo, de não existir qualquer evidência do Êxodo)? E, em segundo lugar, é realmente razoável acreditar que o Deus do Antigo Testamento que articulou punições, como aquelas encontradas em Levítico, poderia ser exatamente o mesmo Deus que a pessoa de Jesus no Novo Testamento? São estas questões que me impedem de confiar no Cristianismo no momento, porque a descrição de Deus e suas interações com a humanidade no Antigo e no Novo Testamento parecem muito inconsistentes em alguns momentos.

Eu te agradeço pelo seu tempo, Professor Craig, e aguardo ansioso a possibilidade de ver sua resposta para minha pergunta em seu site no futuro.

Sinceramente,

Jason

<ul><li>United States</li></ul>

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Nós recentemente retornamos da Inglaterra, onde participamos de eventos comemorando o aniversário de 50 anos da morte de C. S. Lewis. Lewis ficou famoso por sua defesa do que ele chamava de “Cristianismo puro e simples,” isto é, aquelas verdades centrais da cosmovisão Cristã. Se Deus existe e Se revelou decisivamente em Jesus de Nazaré, então o Cristianismo é verdade, e o resto é só acerto de detalhes.

Claramente, Jason, suas preocupações são com detalhes, não com as verdades centrais. A falta de credibilidade de algumas narrativas do Antigo Testamento não teriam nenhum impacto sobre a verdade do teísmo ou sobre a historicidade da ressurreição de Jesus dos mortos. Portanto, as perguntas que você me faz são preocupações “de casa” ou “internas” para serem debatidas entre Cristãos. Deveríamos aceitar o Antigo Testamento como totalmente inspirado por Deus? Até onde a inspiração implica credibilidade científica e histórica? Estas são, eu acredito, perguntas em aberto que devem ser discutidas. Mas elas não deveriam ser obstáculos para a crença no Cristianismo puro e simples, e, portanto, para a fé em Cristo.

Então eu te encorajaria, Jason, a simplesmente isolar estas perguntas até que você tenha se decidido sobre (1) a existência ou não de Deus e (2) se Ele ressuscitou Jesus da morte, vindicando as afirmações radicais que Jesus fez sobre si mesmo. Se você responder qualquer uma destas perguntas com uma negativa, não existe razão para se preocupar com suas questões. Por outro lado, se responder estas perguntas no afirmativo e tornar-se um Cristão, então você pode prosseguir para explorar suas questões de forma mais profunda. Elas não são obstáculos que te impediriam de se tornar um cristão.

Então o que o Cristão que crê na confiabilidade do Antigo Testamento poderia dizer em resposta às suas perguntas? Com respeito às histórias de milagres, eu acho que precisamos lembrar que se Deus existe, então milagres são brincadeiras de criança pra Ele. A pergunta importante aqui, eu acredito, é interpretativa: se as narrativas devem ou não ser vistas como literais. A respeito da cobra falante no Jardim do Éden, eu diria que isso deve muito provavelmente ser interpretado como parte de uma história figurativa da queda do homem. Os eventos históricos subjacentes realmente aconteceram, mas são colocados em linguagem figurativa. Toda a história de Adão e Eva é contada em linguagem figurativa, desde o sopro de vida de Deus nas narinas de Adão até a criação de Eva da costela de Adão e Deus caminhando no jardim gritando “Onde estás?”. Estas características da história plausivelmente não têm a intenção de serem tomadas como literais. A serpente falante é parte dos aspectos figurativos, e não literais, da história.

Com respeito a Jonas, imagino que ele morreu enquanto estava na barriga do peixe (se é ou não uma baleia, o texto não diz), e que o milagre é Deus levantando-o dos mortos quando ele foi regurgitado na praia. Sua oração a Deus é um artifício literário ou poético que serve aos objetivos teológicos do autor. Jonas é então um tipo (ou uma prefiguração) de Jesus Cristo, ainda mais semelhante do que ele seria se fosse miraculosamente preservado vivo dentro do peixe. “Pois assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre de um grande peixe, assim o Filho do homem ficará três dias e três noites no coração da terra.” (Mateus 12:40)

Agora, a respeito do Êxodo, quero recomendá-lo um livro que eu tenho aqui na minha mesa do famoso Egiptólogo Kenneth Kitchen intitulado On the Reliability of the Old Testament [Sobre a confiabilidade do Antigo Testamento] (Eerdmands, 2003). O longo capítulo 6 do livro de Kitchen é dedicado à discussão do Êxodo e a peregrinação de Israel no Sinai à luz da arqueologia. Você está certo em dizer que a arqueologia não oferece uma prova do Êxodo. Mas Kitchen explica detalhadamente porque tal prova não deve ser esperada. Ele aponta, por exemplo,

O Delta é um leque aluvial de barro depositado durante muitos milênios pela inundação anual do Nilo; não tem nenhuma fonte de pedra nele. Barro, barro e vime, e estruturas de barro-tijolo eram de durabilidade e uso limitados, e eram repetidamente nivelados e substituídos, e largamente fundido mais uma vez com o barro dos campos...Os casebres de barro de escravos e cultivadores humildes voltaram às suas origens de lama há muito tempo, para nunca mais serem vistos novamente...E, como faraós nunca faziam monumentos das derrotas nas paredes do templo, nenhum registro da saída bem sucedida de um enorme grupo de escravos estrangeiros (com perda de um esquadrão de biga inteiro) jamais seria imortalizado por um rei, em templos no Delta ou em qualquer outro lugar. Sobre esse assunto, de uma vez por todas, biblicistas devem abandonar suas atitudes ingênuas e parar de exigir 'evidência' que não pode existir (p. 246 - tradução livre)

Kitchen também introduz evidências positivas para mostrar a credibilidade histórica das narrativas do Êxodo (como a inexplicável quintuplicação da população na terra de Canaã entre 1210-1150 A.C.). A pergunta importante não é se existem provas para a historicidade do Êxodo, mas sim se a evidência que existe contraria a historicidade do Êxodo. Ela não contraria.

Vamos nos dirigir, então, para sua segunda preocupação, que o Deus retratado no Antigo Testamento parece bravo e irado. Acredito que esta impressão resulta de uma leitura seletiva do Antigo Testamento que ignora as muitas passagens sobre a compaixão e preocupação com as viúvas, os órfãos e os rejeitados. O Deus do Antigo Testamento é um Deus de amor e justiça. Sua ira é sempre uma expressão de Sua intensa paixão por justiça e santidade. Qualquer um que pensa que o Deus do Antigo Testamento é diferente daquele revelado por Jesus precisa refletir sobre fato de que o Deus adorado e proclamado por Jesus como nosso “Pai que está no céu” simplesmente é o Deus do Antigo Testamento!

E quanto as leis e penalidades de Levítico que você mencionou? Aqui estão algumas coisas que devemos ter em mente.

Primeiro, estas regulações não tem a intenção de serem ideais. Elas são temporárias, adequadas para as circunstâncias de Israel naquele tempo.

Segundo, em alguns casos a aparente dureza das punições testificam de quão sério Deus considera o pecado em questão. Israel era uma teocracia, uma forma de governo que tinha Deus como cabeça. Suas leis não tinham a intenção de serem aplicáveis de forma geral à sociedade secular. Pegue, por exemplo, as leis com respeito ao adultério. Adultério era uma ofensa capital em Israel. Em nossa cultura secular e cada vez mais promíscua ficamos horrorizados com esta perspectiva. Mas as leis de Israel expressaram quão intensamente Deus odeia o pecado do adultério. No Novo Testamento Paulo cita Gênesis, “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne," e então comenta, “Este é um mistério profundo; refiro-me, porém, a Cristo e à igreja.” (Efésios 5:32). A união de um homem com sua esposa em casamento é, portanto, um símbolo vivo da união entre Cristo e Sua igreja. Portanto, violar esta união através de intercurso sexual ilícito, seja heterossexual ou homossexual, é um sacrilégio, uma profanação da santa união de Cristo com Seu povo. Em nossa sociedade secular nós não temos mais esta visão do casamento. Mas em leis do antigo Israel nós podemos ver quão seriamente Deus considera o casamento e sua violação. Podemos ficar ofendidos com isso; mas quem pode dizer que nós estamos certos em nossa perspectiva e Deus está errado?

Em terceiro lugar, algumas destas leis podem não ter sido impostas de fato. As leis podem ter sido idealizações, as penalizações duras expressando o quanto Deus odeia o pecado envolvido. Mas a prática pode ter sido bem diferente daquelas idealizações. Penalidades relacionadas a filhos amaldiçoando seus pais provavelmente caiam nesta categoria.

Eu acho que Deus ainda abomina o pecado hoje, assim como Ele fez no Antigo Testamento, mas já que nós (podemos ficar felizes!) não vivemos em uma teocracia, Seu julgamento é guardado até o Dia do Julgamento, quando prestaremos conta das nossas vidas.

Agora, você não precisa acreditar em nada disso para ser um Cristão, Jason, como eu já expliquei; de minha parte, porém, não vejo problemas insuperáveis em suas perguntas.

- William Lane Craig