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#73 Cristo poderia ter pecado?

February 10, 2017
Q

Dr. Craig,

Estou ouvindo os podcasts de sua "Classe de Defensores" e tenho desfrutado muito deles. Recentemente, ao ouví-lo discutir sobre os atributos de Jesus, você mencionou que porque ele era totalmente Deus, bem como plenamente homem, ele não podia pecar. Enquanto você reconheceu que ele foi tentado, você sustentou que era impossível que ele pecasse. Como cristão, isso me incomoda. Por muito tempo pensei em Jesus como alguém que tinha a mesma capacidade para o pecado quanto eu, mas que venceu o pecado ao viver uma vida perfeita. Além disso, quando penso na ideia da tentação, isso parece implicar a possibilidade de algo que o tenta. Por exemplo, eu posso ser tentado a comer as sobras na geladeira quando estou acordado à meia-noite. Mas me parece ser um mau uso da palavra "tentado" ao dizer algo como "Estou tentado a viajar de volta no tempo" porque é impossível para mim fazê-lo. Eu poderia dizer: "Eu gostaria de poder voltar no tempo", mas para dizer que eu estou tentado isso parece incluir a possibilidade de que eu realmente possa viajar no tempo. Portanto, quando falamos de Jesus sendo tentado, isso parece implicar a possibilidade de que ele realmente possa ser capaz de fazer as coisas que o estão tentando. Quando Satanás disse-lhe para lançar-se do templo, eu tenho muita dificuldade em imaginar que Jesus não poderia ter feito isso. Se fosse esse o caso, então haveria ele sido realmente tentado? E se era impossível para ele pecar, como podemos dizer que ele foi tentado como nós somos? Afinal, quando somos tentados, há sempre a possibilidade de cairmos em tentação. Na minha leitura do Novo Testamento, parece que para Jesus ter sido plenamente homem, temos que permitir que ele tenha sido capaz de ceder a suas tentações. Caso contrário, parece que elas, de fato, não eram verdadeiras tentações.

Eu gostaria muito que seus pensamentos sobre isso me ajudassem a esclarecer a questão em minha própria mente. Agradeço por este grande trabalho que você faz. Você continuará em minhas orações!

Scott

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Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Tentações de Cristo

Obrigado por suas orações, Scott! A doutrina da impecabilidade (ou incapacidade de pecar) de Cristo não é uma doutrina peculiar, mas parte integrante de uma doutrina ortodoxa de Cristo. Ela é reconhecida por todas as grandes confissões da cristandade. É fácil ver o por que, quando você pensa sobre isso por um minuto. Deus, como um ser essencialmente perfeito, não pode pecar. Mas Cristo é Deus, a segunda pessoa da Trindade. Portanto, Cristo não pode pecar. Agora você pode dizer: "Mas reconhecendo o fato de que Cristo não podia pecar de acordo com a sua natureza divina, não poderia ter ele pecado de acordo com a sua natureza humana? Isso é análogo à sua onipotência: Ele era onipotente de acordo com a sua natureza divina, mas limitado em poder de acordo com a sua natureza humana".

Mas esta analogia não vai funcionar, pois pecado é algo que uma pessoa faz. Mas a natureza humana de Cristo não é uma pessoa. (A idéia de que a natureza humana de Cristo é uma pessoa distinta da Segunda Pessoa da Trindade é uma heresia chamada Nestorianismo. Ela destrói a unidade da pessoa de Cristo, dividindo-o em uma pessoa humana e uma pessoa divina, dizendo assim que há realmente duas pessoas envolvidas na encarnação, não uma pessoa com duas naturezas.)

Assim, a pessoa que é Cristo, é uma pessoa divina e como tal não pode pecar.

Meu colega Thomas Flint argumentou pela visão romancista de que a natureza humana de Cristo poderia, de fato, pecar, mas que se tivesse, então teria sido uma pessoa, isto é, uma pessoa meramente humana, sendo assim, Jesus não teria sido a segunda Pessoa da Trindade. Então Flint concorda que Cristo, a Segunda Pessoa da Trindade, encarnado como Jesus de Nazaré, não poderia ter pecado; mas a natureza humana de Cristo, que é, de fato, não uma pessoa e que foi tentado pelo diabo, poderia ter pecado, e se assim fosse, uma pessoa, um pecador, um ser humano. A visão de Flint tem uma consequência estranha e, alguns diriam absurda, de que ser uma pessoa não é uma propriedade essencial de uma pessoa. Se você quiser ler mais sobre esta disputa teológica recôndita, dê uma olhada no meu artigo "A Cristologia Radical de Flint que não é Radical o Suficientemente", embora eu já avise que é muito técnico. Se pensarmos que ser uma pessoa não é uma propriedade contingente que alguém tem, mas uma propriedade essencial, então a natureza humana de Cristo não poderia ter existido como uma pessoa separada da Segunda Pessoa da Trindade, conforme era sua natureza humana encarnada. Devemos então ficar com a visão de que nem Cristo, nem a sua natureza humana, poderia ter pecado.

Tentações de Cristo - A capacidade não é uma condição necessária para a tentação

Então, como devemos entender a tentação de Cristo? Bem, de forma muito simples, você não tem que ser capaz de fazer alguma coisa, a fim de ser tentado a fazê-lo. Tomando o seu exemplo, suponha que você está no laboratório de um cientista maluco e você realmente acredite que ele tem uma máquina de viajar no tempo (DeLorean). Ele o deixa responsável por guardar o laboratório com instruções estritas, "Não saia com a máquina (DeLorean) para dar uma volta no tempo!" Agora você deve estar tentado a fazer uma viagem através do tempo durante sua ausência, afinal, você poderia voltar para o ponto onde você tivésse saído, assim ninguém descobriria! Você talvez teria que lutar para resistir a essa tentação. Mal sabia você que o cientista era um charlatão e não havia nenhuma possibilidade de você dar um passeio através do tempo! Mas você fez o seu dever; você resistiu à tentação e pode até mesmo merece ser elogiado por isso, e poderia ter fortalecido sua vida moral ao dominar sua vontade.

Ou para tomar um exemplo mais realista, suponha que você está fazendo dieta e se sente tentado a ir para a geladeira para pegar o bolo de chocolate que sua esposa deixou lá na noite passada. Você corajosamente resiste, sem saber que ela já tinha comido o bolo durante um assalto à meia-noite e a geladeira estava vazia! Exemplos como esses mostram de forma muito convincente, eu acho, que, para que sejamos tentados a fazer algo, não precisamos ser realmente capazes de fazer aquilo que somos tentados a fazer.

Agora, certamente, Jesus poderia ter realizado fisicamente as ações que Satanás o estava pedindo para que ele fizesse, como atirar-se do templo ou transformar pedras em pão; mas ele não poderia ter feito essas coisas a mando de Satanás, pois isso teria sido pecaminoso.

Tentações de Cristo – limitação de conhecimento consciente pode permitir tentações reais

A questão realmente interessante, penso eu, vem em seguida, é que tipo de limitações cognitivas uma pessoa deve possuir a fim de ser tentado? Cristo sabia que ele era incapaz de pecar? Se assim for, como ele poderia ser tentado se ele sabia que não podia sucumbir? Visto que Cristo é divino, ele deve ser onisciente e assim deve ter sabido que ele não poderia ter sucumbido às tentações de Satanás.

Sim, mas aqui eu acho que nós queremos dizer que uma verdadeira encarnação implica que Jesus tinha uma consciência humana comum e, portanto, poderia crescer em sabedoria e maturidade da infância à idade adulta. Uma maneira de entender isso é através da diferenciação dos níveis de consciência na pessoa de Jesus. Se muito do seu conhecimento de super-humanidade era subliminar, então ele não estava ciente de tudo o que conhecia, assim como nós desconhecemos muitas vezes o conhecimento que se encontra em nosso subconsciente. Talvez ele não tinha conhecimento de sua impecabilidade, ou se ele sabia, talvez suas outras limitações cognitivas eram tais que ele ainda teve que lutar contra a tentação, assim como ele teve que lutar contra a ansiedade, medo e fadiga. Por ter uma consciência humana comum Jesus podia sentir a atração da tentação, embora fosse divino e, portanto, incapaz de ceder a ela. Se você estiver interessado em pesquisar uma teoria da encarnação, segundo a qual Jesus teve diferentes níveis de consciência, veja o meu capítulo sobre a encarnação em Filosofia e Cosmovisão Cristã (Nova Vida).

Outra questão interessante que se levanta é a seguinte: se Jesus era incapaz de pecar, então será que livremente resistiu ao pecado? Se não, qual é o que significado moral de sua vitória? Se assim for, então como isso é compatível com a nossa compreensão comum de liberdade, como a capacidade de escolher entre opostos? Eu trato desta pergunta na Pergunta # 56 “Liberdade e aptidão para escolher o mal”.

- William Lane Craig