#475 Consciência animal mais uma vez
February 10, 2017Caro, Dr. Craig,
Obrigado por tudo o que você faz por nós tanto na área apologética como na filosófica. Eu estou escrevendo porque recentemente eu estava debatendo com um amigo meu sobre a consciência e as implicações de tal conceito em nossa vida. Eu argumentei que a partir da linha de pensamento dele (que é a do evolucionismo), a consciência não é uma característica que você adquire pelos métodos evolutivos darwinianos. (Como a evolução com modificações, radiação de adaptação, etc.). Mas ele continuou e afirmou que os animais têm, de fato, estados de consciência e isso realmente me chocou, ele ir tão longe e fazer uma declaração como essa.
Depois eu comecei a pesquisar sobre esse assunto, e me encontrei numa situação muito difícil. Eu sei que é quase impossível para nós sabermos realmente se a consciência está totalmente desenvolvida em algo que não seja a espécie humana, pois a consciência é um estado de estar ciente de algo dentro de nós e, portanto, dos nossos arredores. Mas o que eu encontrei foi que neurocientistas como Jaak Panksepp, com a ajuda de outros, publicou a “Cambridge Declaration of Consciousness” [Declaração Cambridge da Consciência], que foi testemunhada pelo físico e cosmólogo Stephen Hawking. Essa declaração propôs o fato, como sendo de natureza científica, de que animais têm, na verdade, estados de consciência assim como nós, e as implicações disso para mim são imensas. Eu não tive tempo de ler tal declaração, mas eu pesquisei na Internet e em diferentes artigos científicos e, com certeza, a Declaração tem tido o seu impacto na comunidade científica. Eu também comecei a procurar sobre esse assunto no seu site reasonablefaith.org para ver se você havia tratado do assunto em algum momento na sua carreira.
A leitura que mais pareceu com a minha pergunta está na resposta de Dr. Michael Murray, na pergunta #355 em que o tema é Dor Animal Revisitada, mas os argumentos que o Dr. Michael Murray apresenta em seu trabalho não me convencem de estar no “nível contra argumentativo” para a declaração que foi publicada em 2012. Você poderia, por favor, me ajudar a sair dessa tempestade que eu entrei?
Obs.: Então você entende o meu problema com isso, eu vou te dar um exemplo de uma das primeiras implicações que me vieram a cabeça quando eu li isso. Se animais realmente têm o mesmo estado de consciência que nós temos, esses animais têm o mesmo valor e importância, biologicamente falando, que nós. Assim, a teoria criacionista de Genesis 1 é o início mais plausível para a existência do universo e toda essa teoria cai, porque foi “encontrado” e concordado por cientistas famosos que os animais têm estados de consciência assim como nós. Então a distinção que Deus traça entre nós e os animais é exatamente o nosso estado de consciência, porque nós temos partes do nosso ser que são intrinsecamente atadas a esfera da metafisica. Além disso, essas partes de nós são características gerais que podem ser encontradas no próprio Deus. Então, o simples fato de que cientistas fizeram essa declaração, e circunscreveram o estado de consciência a uma região no córtex pré-frontal, parece-me que é evidência o suficiente para contra argumentar as teorias criacionistas.
Agradeço de antemão e para que você saiba, eu não estou abandonando a fé por causa disso. É somente que nessa área eu não pude debater com um cientista, muito menos com o meu amigo porque eu não encontrei uma evidência contra isso.
Obrigada de novo, Dr. Craig.
Joshua
Porto Rico
Dr. craig’s response
A [
A sua pergunta é muito oportuna, Joshua, já que há duas semanas eu recebi um e-mail de Michael Murray em que dizia “É possível que isso seja de seu interesse” sobre esse mesmo assunto. Em anexo havia um arquivo da última edição da Natural Reviews: Neuroscience intitulado “Neural Correlates of Consciousness: Progress and Problems” [Correlações Neurais da Consciência: Progresso e Problemas], por uma equipe de cientistas do cérebro. O artigo revê a situação atual da investigação sobre as correlações neurais da consciência ou, como eles chamam, “os mecanismos mínimos neurais suficientes para qualquer percept [experiência] de um consciente específico”.
É importante ressaltar que eles não estão investigando os mecanismos mínimos neurais suficientes para a autoconsciência. Em minhas questões da semana anteriores sobre esse assunto, eu percebi que não há evidências de que animais, além dos primatas superiores, tem uma consciência de si que os permite pensar “Eu mesmo estou sentindo dor”. Isso tem enormes implicações para o problema do sofrimento animal e para o chamado de mal natural. Pois, embora os animais tenham ciência da dor (sejam conscientes), eles não estão cientes de que eles mesmos estão sentindo dor (não são autoconscientes) e, por isso, não sofrem como nós sofremos.
Do mesmo modo, as preocupações expressadas na sua pergunta surgem somente se os animais têm autoconsciência. Eu fiquei surpreso sobre o quão perturbado você parece estar com a noção de que alguns animais são conscientes. A mera consciência ou sensibilidade não é suficiente para fazer de um organismo um agente moral. É non-sequitur (ilógico) concluir que porque um cachorro sente uma coceira na perna, “os animais têm o mesmo estado de consciência que nós”. Então você está errado quando afirma “a distinção que Deus traça entre nós e os animais é exatamente o nosso estado de consciência”. Não, a distinção é que nós somos agentes livres, autoconscientes e não meramente organismos sentimentais (conscientes). Você não tem nada a temer teologicamente ao reconhecer que animais são conscientes. E isso é tudo o que a Declaração de Cambridge afirma.
No artigo mencionado acima, Christof Koch et al estão tentando avaliar os mecanismos mínimos neurais suficientes para a consciência. Eles explicam:
“Estar consciente significa que uma pessoa está tendo uma experiência – o fenômeno subjetivo de ‘como é’ ver uma imagem, ouvir um som, pensar um pensamento ou sentir uma emoção. Embora as nossas experiências despertas geralmente se referem ao mundo externo, nós continuamos a estar conscientes quando nós estamos sonhando acordado e quando dormimos e sonhamos. A consciência só desaparece quando dormimos sem sonhar ou sob anestesia geral quando, a partir da nossa própria perspectiva intrínseca, tudo desaparece e nós não experimentamos nada”.
Então, eles estão preocupados com um nível mínimo de consciência, diferente do não experimentar absolutamente nada.
O longo e curto do artigo deles é que há uma “zona quente” no cérebro humano no córtex cerebral posterior em que estão os melhores candidatos anatômicos para as correlações neurais da consciência (seja a consciência geral ou a consciência com conteúdo específico).
Em uma caixa com o nome “Casos e Decisões difíceis”, eles mencionam alguns desses casos em que é difícil determinar se uma pessoa é consciente, por exemplo, casos de pessoas que não tem consciência de funcionamento devido a uma lesão cerebral ou alguém que tem o cérebro com algumas áreas isoladas de atividade como resultado de um dano cerebral grave; casos que envolvem sonâmbulos que mostram um comportamento complexo, mas não conseguem lembrar dos sonhos; casos de epilépticos que durante as convulsões mostram comportamentos automáticos; casos de pacientes que estão em estados imobilizados; casos de recém-nascidos, que tem cérebro que ainda não amadureceram e assim por diante. Então segue esse parágrafo muito interessante:
Avaliar a consciência é ainda mais problemática em animais que não são humanos. É provável que mamíferos que compartilham de características comportamentais com humanos, e tenham o cérebro organizado de maneira semelhante aos cérebros humanos, sejam conscientes. De fato, em laboratórios usados para estudar as correlações neurais de consciência em humanos, os macacos agiam de maneira muito semelhante aos humanos, incluindo fazer uso de sinais quando eles não veem um estimulo quando estão sob uma condição de visão cega [blindsight]. No entanto, em espécies que são mais distantes dos humanos em termos neurais e evolucionários, a questão de eles estarem conscientes se torna mais difícil. Pássaros, peixes, cefalópodes e insetos são capazes de comportamentos sofisticados, aprendidos e não estereotípicos que são tipicamente associados com a consciência em humanos. Embora os sistemas nervosos deles talvez sejam menores e organizados de maneira diferente, eles ainda assim são muito complexos. Por exemplo, os cérebros das abelhas contêm quase 1 milhão de células nervosas organizadas de maneira dez vezes mais densa do que no neocortex e é montada em circuitos de feedbacks não-lineares. Ainda assim, humanos podem executar comportamentos mais complexos de uma maneira aparentemente não-consciente, tais como detectar o significado das palavras, resolver problemas simples de aritmética ou digitar rapidamente; e as estruturas altamente complexas no cérebro humano, como o cerebelo, não contribuem para a consciência. Desse modo, quando uma abelha escolhe um ramo marcado de vermelho em um labirinto, nós não sabemos se ela faz isso conscientemente, como os humanos fariam sob tais circunstâncias, ou o fariam seguindo um programa inconscientemente.
Apesar dos seus comportamentos complexos, muitos animais talvez nem estejam conscientes! A neurociência é um estado de incertezas em relação a essa questão. Koch e os seus colegas concluem o seu artigo com um alerta: “Um progresso adicional...vai requerer, em adição ao trabalho empírico, teorias testáveis que tratem de maneira exemplar o que é a consciência e o que é necessário do seu substrato físico”.
Suspeito que o que está comandando a Declaração Cambridge da Consciência não é a neurociência, mas a ética; uma preocupação pelo tratamento ético dos animais. Com a ausência de Deus para valores e deveres morais objetivos, o naturalista deve eles mesmos encontrar algo nos animais para garantir o seu tratamento ético. Essa será a consciência deles de dor. Como você mesmo falou: “Se animais realmente tem o mesmo estado de consciência que nós temos, esses animais têm o mesmo valor e importância, biologicamente falando, que nós”. No entanto, essa tentativa naturalista de fundamentar o tratamento ético dos animais é condenada ao fracasso, já que nem todos os animais são sensíveis – para não falar de florestas e oceanos! Uma ética ambiental sólida, incluindo o tratamento ético dos animais, serão fundadas no mandato de Deus para o homem de administrar a Terra como o presente de Deus. Quando poluímos os mares, desmatamos as florestas e abusamos dos animais, nós violamos os deveres morais que Deus nos deu. Para justificar o tratamento ético dos animais, nós não precisamos pensar neles como se eles fossem Bambi e Tambor.
- William Lane Craig