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#342 Deus e o Tempo

May 16, 2015
Q

Caro Dr. Craig,

Eu sou um grande fã do seu trabalho e eu escutei quase tudo que você tem disponível na internet.

A minha pergunta tem a ver com uma contradição que eu acho que vejo em alguns de suas visões sobre questões de causalidade simultânea e a possibilidade de Deus entrando no tempo.

A seguir estão três coisas que (até onde eu entendo) você afirma:

1) Deus existe atemporalmente. Com isto queremos dizer, Deus existe como um único ponto ou "momento” imutável.

2) Deus é a causa simultânea do universo. Já que não há tempo antes do tempo, como em um relacionamento 'antes e depois' - apelamos à causalidade simultânea para eliminar a necessidade de um antes. Isto significa que o ponto inicial do tempo para o universo é simultâneo com a existência de um (até agora descrito como) Deus atemporal.

3) Finalmente, você, WL Craig, costuma dizer que Deus entra no tempo no ponto inicial da criação.

Meu problema é que eu não acho que essas três afirmações possam ser verdadeiras. O ponto em que Deus é atemporal é simultâneo com a criação - e o ponto onde Deus é temporal também é simultâneo com a criação. O resultado é: Deus torna-se ao mesmo tempo atemporal e temporal - o que é uma contradição.

Agora, eu ouvi você dizer (e eu li em um de seus artigos acadêmicos) que Deus é atemporal sem a criação - mas se a criação existe, então simplesmente não é o caso de que Deus é atemporal. Não há nenhum ponto em que Deus é realmente atemporal - em vez disso, Deus é apenas hipoteticamente atemporal.

Como não há nenhum ponto em que Deus seja realmente atemporal, eu acho que nós somos forçados a dizer: Deus, na verdade, começou a existir - assim como o universo (o qual, em nenhum, momento é atemporal) começou a existir. Consequentemente a premissa 1 do Argumento Cosmológico Kalam, "tudo o que começa a existir deve ter uma causa para sua existência", inclui o nosso conceito de Deus.

Agora, nós poderíamos evitar isso, se simplesmente disséssemos que Deus ainda existe atemporalmente (até mesmo agora). Mas, se isso é verdadeiro, então Deus não sabe que horas são agora e, portanto, não é onisciente.

Além disso, parece difícil ver como Deus poderia interagir com a sua criação com o passar do tempo. Isso implicaria que o conceito cristão de Deus é falso e que seria preciso recuar para uma espécie de deísmo (ou seja, Deus nos fez, mas ele não é temporal ou onisciente e ele não interage com o universo).

Estranhamente, eu gostaria de propor a minha própria solução para este problema. O problema é que o que eu estou prestes a dizer soa estranho - eu nunca ouvi alguém dizer isso. Eu me sentiria muito melhor se alguém como você pudesse avaliar minha solução estranha. Talvez você já tenha pensado nela você mesmo. Gostaria também de receber qualquer solução alternativa que você poderia dar para resolver o problema em questão.

Proponho apelar para a trindade. Deus Pai é atemporal. O Pai é a causa simultânea do filho - que é essencialmente uma versão temporal do Pai. Um destes dois (ou talvez ambos) causam o Espírito - que também é uma manifestação temporal de Deus.

O Pai simplesmente permanece atemporal, enquanto o Espírito e o Filho criam e interagem com o universo. Já que o Filho e o Espírito Santo são Deus, eles sabem qual é a hora agora - e, consequentemente, Deus sabe tudo - mesmo que a informação esteja dispersa entre as pessoas.

Agora, eu sei que isso soa estranho - mas para mim faz sentido. Afirmações como: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus, e pelo Verbo todas as coisas foram feitas [...]" parecem estranhamente parecidas com o que acabei de descrever. Além disso, declarações de antigos concílios da igreja como: "o Filho emana do Pai como o Espírito emana do Filho (e/ou Pai, dependendo se você vem do lado Católico Romano Ocidental ou do lado Ortodoxo Oriental).

Finalmente, acho que a maioria das pessoas não gostaria do fato de que nesta visão Jesus não seria eterno. Ainda assim, eu não acho que este seja um problema bíblico já que as escrituras nunca dizem muito (ou à minha mente, pelo menos) - elas só dizem que ele estava "no princípio" e "desde a eternidade / ou dos dias antigos" (dependendo da sua tradução de Miquéias 5:2).

Então, o que você acha?

Como sempre, eu aprecio o seu trabalho e eu só posso imaginar quão ocupado você deve estar sempre.

Deus Abençoe,

Adam

Estados Unidos

<ul><li>United States</li></ul>

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

É importante que você entenda as nuances da minha visão com precisão, Adam, caso contrário é fácil gerar uma contradição. Por exemplo, eu não afirmo simplesmente

1. Deus existe atemporalmente.

Pois pela mesma razão eu também afirmo

1'. Deus existe temporalmente.

Mas as premissas (1) e (1') são contrárias: eles não podem, sem qualificação, ser ambas verdadeiras. Então eu as qualifico. O que eu afirmo é que

1''. Deus existe atemporalmente sem a criação e temporalmente desde o momento da criação.

Tal visão diferenciada não é explicitamente contraditória.

Assim, a minha premissa (1'') é inconsistente com as (2) e (3)? Eu não posso ver que seja. Tempo começa no momento da criação (a qual não precisa ser um ponto instantâneo — eu deixo esta pergunta em aberto) e esse é o momento em que Deus faz com que o universo exista e o primeiro momento do tempo em que Deus existe.

Então, eu não defendo, nem segue de (1) - (3) que "o ponto em que Deus é atemporal é simultâneo com a criação." Eu não sei por que você atribuiria tal crença a mim. Você está sendo enganado por alguns defensores da atemporalidade divina que afirmam coisas como "todos os momentos do tempo são igualmente reais ou presentes para Deus"? Como um teórico da Teoria-A do tempo que nega que todos os eventos passados, presentes e futuros, estão em igualdade ontológica, eu explicitamente rejeito essa caracterização da eternidade divina. É precisamente porque eu rejeito a noção de que todos os eventos podem estar presentes a Deus que eu acho que a verdadeira relação de Deus com um mundo temporal requer Sua temporalidade. Ele pode existir atemporalmente somente se não existe um mundo temporal. Sua decisão de criar um mundo temporal é uma decisão de existir temporalmente.

Você interpreta a minha visão como implicando que "Não há nenhum ponto em que Deus é realmente atemporal, em vez disso, Deus é apenas hipoteticamente atemporal." Isso é incorreto. Eu não sei o que significa "hipoteticamente atemporal" ("possivelmente atemporal", talvez?), mas a minha opinião é que o mundo real inclui um estado de coisas em que Deus existe completamente sozinho, sem criação, e esse estado é atemporal. Não há nada hipotético sobre isso. Eu mesmo não uso a linguagem de "um ponto", mas eu suponho que você poderia dizer que esse estado é geometricamente como um ponto em que ele não tem nenhuma extensão. Nós apenas temos que ter cuidado para que não sejamos entendidos como falando de um ponto do tempo. Assim entendido, certamente não há nenhum ponto do tempo em que Deus seja atemporal! Vamos gerar menos confusão se dissermos que há um estado de coisas em que Deus existe atemporalmente.

Mais uma vez, sua inferência "Já que não há nenhum ponto em que Deus é realmente atemporal, eu acho que nós somos forçados a dizer: Deus, na verdade, começou a existir, assim como o universo (que, em nenhum momento é atemporal) começou a existir" é injustificada. Há um estado de coisas no mundo real em que Deus existe atemporalmente sem a criação. Esse estado é causalmente, mas não temporalmente, antes da criação no sentido de que o ser que existe em tal estado traz o universo à existência através do exercício do Seu poder causal. Quando é que Ele faz isso? No momento da criação, é claro!

Aqui está a minha explicação da locução "começa a existir", onde "x" varia sobre qualquer entidade e "t" varia ao longo do tempo, se os instantes ou momentos são de duração finita diferente de zero (de não zero):

A. x começa a existir em t se x passa a existir em t.

B. x começa a existir em t se (1) x existe em t, e o mundo real inclui nenhum estado de coisas no qual x existe atemporalmente, (2) t é a primeira vez em que x existe ou é separado de qualquer t'<t em que x existia por um intervalo durante o qual x não existe, e (3) x existindo em t é um fato temporal.

Como Deus não cumpre a condição (1) de (B), não se pode dizer que Ele começou a existir em t, pois Ele não começa a existir em t.

Como esta posição parece perfeitamente coerente, não somos forçados a sua solução estranha, não ortodoxa. Ao dizer que o Pai é atemporal, o Filho é temporal, e que o Pai simultaneamente causa o Filho, você leva a sua contradição para dentro do próprio ser de Deus. Nós já concordamos que um ser atemporal não pode (com a teoria-A do tempo) ser a causa de um ser temporal, muito menos a causa simultânea, pois então eles teriam que existir ao mesmo tempo. Ao dizer que o Filho não é eterno, eu espero que você não queira dizer que Ele começou a existir, pois então o Filho não é Deus, mas uma criatura que Deus Pai fez, uma vez que Deus é essencialmente necessário e eterno e existe a se. A doutrina da emanação do Filho e da procissão do Espírito é que estas são relações eternas dentro da Divindade. Além disso, em sua ideia o Pai não é onisciente, então eu não posso ver que qualquer uma das pessoas da Trindade é divina nessa visão.

- William Lane Craig