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#320 Livre Arbítrio

May 16, 2015
Q

Eu venho de um lar de devotos Testemunhas de Jeová e Católicos (não parece uma mistura emocionante?) e eu mesmo sou implicitamente ateu. Apesar de tudo isto, continuo muito interessado em questões teológicas. Depois de muita procura interna, eu finalmente encontro-me preparado para abraçar uma divindade ausente do mundo, mas, mesmo assim, quero manter o meu coração aberto para a alternativa.

Em primeiro lugar, eu quero agradecer a você por fazer o que você faz, porque você é, talvez, o pensador mais refrescantemente claro que eu conheço que é facilmente encontrado no YouTube. As pessoas hoje não tem a mente clara, e movimentos como o novo ateísmo e as pessoas por quem as pessoas estão geralmente cercadas (pelo menos no meu bairro) com certeza poluem a mente. Mesmo como um ateu, porém, fui levado à euforia no dia que eu assisti você debater com Sam Harris. Apesar do que foi para mim uma conclusão inquietante, seu argumento foi tão claramente entregue que eu não pude me conter de refletir com alegria: "Eu estava errado! E eu sei por quê!" Em todos os argumentos com que eu me envolvo com outros, as pessoas tendem a raciocinar de forma tão confusa que, independentemente do que é "certo", os argumentos que elas oferecem são tão cheios de falácia que a sua posição não é logicamente compreensível, deixando assim o seu oponente ou frustrado ou confuso em vez de intelectualmente melhor.

Quanto à minha pergunta, diz respeito à natureza do livre-arbítrio [...] o que é? Em todos os lugares em que eu procurei por argumentos que defendem a existência do livre-arbítrio, me parece que só descubro argumentos de que o livre arbítrio não foi descartado pelo determinismo ou que o conceito é necessário por algum motivo social. Para minha surpresa, parece que nunca foi feita qualquer tentativa para descrever o que, na verdade, é uma escolha. Seja o que for, pelo menos pode ser dito que é um evento que pode influenciar eventos físicos, o que você acha? Se a natureza da escolha não admite, neste momento, qualquer descrição, como alguém pode ser responsabilizado pelo evento de uma escolha que elas fazem quando, fundamentalmente, literalmente não têm ideia do que aconteceu?

Além disso, em uma nota mais pessoal, o pensamento de que minhas ações se originam de uma fonte etérea e ininteligível rouba minhas ações de qualquer significado genuíno, no sentido de que não há nenhuma maneira significativa de entender o que eu fiz.

Muito obrigado pelo seu tempo!

Sebastian

Estados Unidos

<ul><li>United States</li></ul>

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Eu estou tão contente de receber seus comentários generosos, Sebastian! Ao fazer nossas premissas claras, podemos, pelo menos, identificar claramente quais os pontos de que discordamos, de forma a ter uma discussão frutífera.

Todo mundo reconhece que nós temos, pelo menos, a ilusão do livre-arbítrio. Creio que o meu senso de escolher livremente não é apenas mera aparência, uma vez que se fosse, nada que eu penso ou faço seria de qualquer significado. Mesmo a decisão de acreditar em determinismo seria sem sentido, nada mais significativo do que ter uma dor de dente. Uma vez que a liberdade da vontade é uma condição necessária para o significado da minha vida, posso muito bem supor que eu tenho isso. Afinal, se eu não tenho livre-arbítrio e minha vida não tem sentido, quem se importa?

Então eu não acho que o determinismo seja incompatível com o livre-arbítrio, mas que o determinismo não foi demonstrado como sendo verdade. Então, o que significa ter livre arbítrio? Alguns pensadores disseram que é a capacidade, em situações causalmente idênticas, para escolher A ou não-A. Parece-me, no entanto, que este chamado Princípio de Possibilidades Alternativas não é uma condição necessária da vontade livre. Estou persuadido por ilustrações como essa dada por Harry Frankfurt para mostrar que a liberdade não requer a capacidade de escolher diferente do que alguém escolhe. Imagine um homem cujo cérebro foi secretamente implantado com eletrodos por um cientista louco. O cientista, sendo um apoiador de Obama, decide que ele vai ativar os eletrodos para fazer que o homem vote em Obama se o homem for para a cabine de votação para votar em Romney. Por outro lado, se o homem escolher votar em Obama, então o cientista não ativará os eletrodos. Suponha, então, que o homem vai para a cabine de votação e aperta o botão para votar em Obama. Em tal caso, parece que o homem vota livremente pelo Obama. No entanto, não estava dentro de seu poder fazer qualquer coisa diferente!

Tais experimentos mentais têm sido criticados porque ninguém poderia saber o que o homem ia fazer antes que ele realmente tentasse fazê-lo; assim, sua decisão livre deve ser abortada pela ativação dos eletrodos. Mas enquanto essa objeção parece convincente contra exemplos humanos de prevenção ou intervenção, ocorre-me que, se Deus tem conhecimento médio, e por isso sabe o que uma pessoa iria fazer livremente em qualquer conjunto de circunstâncias em que Deus poderia colocá-lo, então a objeção não tem força. Suponha, por exemplo, que se Deus soubesse que Pôncio Pilatos não enviaria Jesus para a cruz, Ele não teria colocado Pilatos em tais circunstâncias. Nesse caso, Pilatos não tinha, nas circunstâncias, a capacidade de deixar Jesus solto. No entanto, ele livremente enviou Jesus à cruz, uma vez que nada o determinou a fazê-lo.

Isto sugere que o que é fundamental para o livre-arbítrio não é a capacidade de escolher de forma diferente em circunstâncias idênticas, mas não ser causado a fazer algo por causas além de si mesmo. Cabe a mim como eu escolho, e nada determina a minha escolha. Às vezes, os filósofos chamam isto de causalidade do agente. O próprio agente é a causa de suas ações. Suas decisões são diferenciadas dos eventos aleatórios por que está sendo feito pelo próprio agente, por razões que o agente tem em mente.

Esta compreensão do livre-arbítrio tem relevância para o caso do próprio Deus. Jesus, sendo divino, era impecável (não podia pecar). Portanto, não havia nenhuma possibilidade de ele ceder às tentações de Satanás no deserto. No entanto, ele resistiu ao pecado livremente porque nada externo a ele determinou suas escolhas. Como o homem com os eletrodos implantados em seu cérebro, Jesus não poderia ter escolhido o pecado, mas ele resistiu livremente ao pecado. Mais uma vez, Deus não pode optar por fazer o mal, mas Ele livremente faz o Bem porque nada fora Dele determina Ele a fazê-lo.

Então, para voltar ao caso dos agentes humanos, certamente uma escolha livre influencia eventos físicos, mais obviamente no caso de ações básicas em meu próprio corpo, como levantando livremente o meu braço. Nós não somos causalmente determinados a fazer todas as escolhas que fazemos; na verdade, muitas escolhas dependem de nós e, portanto, são escolhas livres. Somos responsabilizados por tais escolhas, porque elas não são o resultado de eventos aleatórios cerebrais mas são realizadas por razões que nós pesamos e agimos de acordo.

Eu não tenho certeza do que você quer dizer com "alguma fonte etérea e ininteligível", mas se você está se referindo a Deus, eu concordo que, se Deus determina secretamente todos os meus pensamentos e ações, então eu sou apenas um fantoche cujas ações são sem sentido. Mas um Deus dotado de conhecimento médio do que pessoas livremente fariam em qualquer conjunto de circunstâncias que Deus pode colocá-las pode ser previdente sobre assuntos humanos sem infringir a liberdade humana.

- William Lane Craig