#383 A Realidade do Tempo
May 16, 2015Dr. Craig,
Você tem desempenhado um papel vital no meu desenvolvimento de apologética, juntamente com outros filósofos. Estou intrigado com o fato de que muitas coisas consideradas verdade, embora examinar a sua legitimidade seja o trabalho da filosofia, assim eu preciso lhe perguntar: por que você acredita no tempo em primeiro lugar? Não é [o tempo] apenas uma ideia em nossa mente que nos ajuda a localizar um evento em relação à nossa experiência? Eu não envelheço por causa do tempo, mas por causa do meu desenvolvimento biológico e realidade entrópica. Estes são componentes físicos do universo que implicam espaço e massa em uma interação dinâmica. Além disso, os elementos que moldam eventos já existem em nosso universo. Dizer que o tempo para x ainda não chegou é estritamente dizer que as condições físicas para x ocorrer ainda não estão satisfeitas pelos fatores que temos reunidos. Você pode me ajudar a identificar o que eu não estou vendo aqui, por favor?
Guillermo
Nicarágua
Dr. craig’s response
A [
Que bom é receber uma pergunta de alguém com o mesmo nome que o meu! Por que eu acredito no tempo? Em uma palavra, eu experimento o tempo, e eu não tenho um derrotador (defeater) da veracidade dessa experiência.
No meu trabalho sobre Deus e o tempo, eu argumento com detalhe em favor da realidade do tempo flexivo (tensed), o qual implica que o tempo é real. Eu não consigo pensar em qualquer outra crença que temos que seja tão fundamental e tão poderosamente garantida como a crença de que o tempo é real. Até mesmo a crença na existência do mundo externo dos objetos físicos não se pode comparar a ela. Pois o mundo externo é apreendido como um mundo temporal, mas, além disso, apreendemos o tempo na vida interior da mente ao experimentarmos uma sucessão temporal de estados de consciência. Mesmo se eu fosse um Cérebro de Boltzmann com a ilusão de um mundo físico a minha volta, a experiência do tempo permaneceria intacta para mim.
Então, eu tenho argumentado que a crença na realidade do tempo flexivo (tensed) temporal é uma crença propriamente básica, fundamentada na nossa experiência temporal. Aqui está o argumento como eu o formulei:
1. A crença na realidade objetiva da distinção entre passado, presente e futuro é propriamente básica.
2. Se a nossa crença na realidade objetiva da distinção entre passado, presente e futuro é propriamente básica, então somos, a prima facie, justificados em manter essa crença.
3. Portanto, somos, a prima facie, justificados em manter a nossa crença na realidade objetiva da distinção entre passado, presente e futuro.
Já que a premissa (2) é verdadeira pela definição de "crença propriamente básica", a premissa que exige defesa é (1).
Eu ofereço vários argumentos em apoio a (1), apontando para dados como a nossa experiência da presentidade de nossas experiências, nossas atitudes diferenciais em relação ao passado e futuro, e nossa experiência de tornar-se temporal (temporal becoming). Estes exemplos mostram quão básica, profundamente enraizada, firmemente defendida e universal é a nossa crença na realidade de tornar-se temporal (temporal becoming). Em qualquer ponto de vista em que o tempo seja irreal, somos todos irremediavelmente atolados em irracionalidade, prisioneiros em uma ilusão da qual somos impotentes para nos libertar. Em contrapartida, se uma teoria flexiva (tensed) do tempo é correta, nossas experiências e crenças são inteiramente racionais e adequadas. Portanto, na medida em que nós pensamos que tais experiências são justificadas, devemos adotar uma teoria flexiva (tensed) do tempo.
Segue a partir do argumento acima que somos, prima facie, justificados em manter a nossa crença na realidade objetiva da distinção entre passado, presente e futuro. Longe de ser controversa, tal conclusão pode ser aceita até mesmo por um defensor de uma visão aflexiva (tenseless) do tempo. O que ele vai argumentar é que a nossa justificativa prima facie é derrotada de alguma forma. Mas pelo quê? Eu defendo que não existem invalidadores ou derrotadores (defeaters) de sucesso (incluindo o famoso argumento de McTaggart para irrealidade do tempo) de tais experiências. (A propósito, quase ninguém concorda com o argumento de McTaggart: teóricos do tempo flexiva e aflexiva apenas criticam-no de maneiras diferentes.)
Você pergunta: "Não é [o tempo] apenas uma ideia em nossa mente que nos ajuda a localizar um evento em relação à nossa experiência?" Eu não vejo nenhuma razão para pensar assim; mas mesmo que fosse (como explicado acima) porque essa experiência é temporal, qualquer ideia que nos situe em relaçãoàquela experiência vai nos dar uma localização temporal.
Você diz: "Eu não envelheço por causa do tempo, mas por causa do meu desenvolvimento biológico e realidade entrópica". Bem, sim e não. O tempo não faz que seu corpo se degrade e envelheça nesse sentido. Mas tudo no tempo está ficando mais velho no sentido de que tem existido por um período temporal maior do que antes, independentemente de sua aparência física. Como Sydney Shoemaker mostrou uma vez em um artigo famoso, até mesmo um universo congelado em imobilidade ainda pode sofrer passagem temporal e assim envelhecer ao longo do tempo.
Você afirma, "os elementos que moldam eventos já existem em nosso universo. Dizer que o tempo para x ainda não chegou é estritamente dizer que as condições físicas para x ocorrer ainda não estão satisfeitas pelos fatores reunidos". Sua própria declaração implica a realidade do tempo flexiva (tensed), pois isso está implícito ao dizer que as condições físicas para x AINDA não estão satisfeitas. Isto é uma expressão temporal que serve para localizar os eventos físicos em relação ao presente. Da mesma forma, a sua declaração de que os elementos que moldam eventos JÁ existem no universo!
Acho que o tempo é inevitável. O erro de muitos é igualar o tempo com alguma quantidade física, em vez de considerá-lo uma realidade que tentamos medir por meio de mecanismos físicos (relógios). Como John Lucas memoravelmente afirmou, o tempo é o que os relógios estão lá para contar. Isso pode ser o que você não esteja vendo.
- William Lane Craig