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#290 Uma Questão de Justiça

May 16, 2015
Q

Olá Dr. Craig,

Minha pergunta é sobre a justiça divina. Você descreve Deus como sendo essencialmente bondadoso, justo e compassivo, mas eu não vejo como sua justiça pode ser exemplificada com cenários como este:

Suponha que um assassino em série como Jeffrey Dahmer goza de um estilo de vida de torturar, matar e canibalizar as pessoas para se divertir. Com o tempo é pego e vai para a prisão. Na prisão, ele se torna um cristão nascido de novo e todos os seus pecados foram perdoados. Ele, então, é morto e vai para o céu, já que o simples ato de conversão para o cristianismo o limpa de todas as ações erradas que cometeu anteriores. Algumas dessas vítimas, contudo, não eram cristãos quando foram assassinados e portanto, eles vão para o inferno quando morrem. Portanto, não somente as vítimas de assassinato são torturados e assassinados neste mundo, mas eles também são enviados para o inferno para serem torturados pior ainda. Mas agora é para sempre, enquanto seu assassino goza de paz eterna no céu.

Eu nunca tive um cristão me explicar como esse cenário acima não é apenas o trabalho de uma divindade "todo-amoroso" e "perfeito", mas que este é um exemplo de perfeita justiça que não poderia ser melhorada por qualquer geração de seres humanos, passado, presente ou futuro. Em outras palavras, se o Deus da Bíblia é intrinsecamente perfeito, compassivo e justo, por que ele iria permitir que um assassino em série fosse para o céu, mas suas vítimas sofressem no inferno eternamente, quando a única coisa que os separa (além do fato de as vítimas nunca terem torturado e matado pessoas) é a conversão do assassino ao cristianismo na prisão pouco antes de morrer? A objeção que tenho é que este não é um ato de justiça perfeita e que o Deus cristão está meramente sendo definido como perfeito/bondoso/justo/compassivo, etc o que para mim é apenas um jogo de palavras já que o seu histórico mostra o contrário. A única resposta que eu ainda tenho que ouvir é que todos nós somos merecedores do inferno e apenas aqueles que se submetem a Deus são dados misericórdia, mesmo se eles são assassinos em série. Então, eu tenho de lhe perguntar, com todo o respeito, se você realmente concorda com esta noção da justiça, que permitiria que um sádico assassino em série ficasse livre de punição divina, quando suas vítimas, que imploraram por suas vidas e foram mortos sem misericórdia, estão agora sendo torturados ainda pior, tudo isso enquanto seus gritos por misericórdia ficarão sem resposta por toda a eternidade?

Obrigado por seu tempo.

Mike

Estados Unidos

  • United States

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Sua pergunta desperta emoções profundas, Mike. Como você afirmou-a desapaixonadamente, e por isso eu lhe congratulo, eu lhe peço que considere a minha resposta desapaixonadamente também.

Eu acho que a pergunta é baseada em um mal-entendido fundamental da fé cristã. Muitos das pessoas (se não a maioria) pensam que o cristianismo ensina que a salvação do pecado e da separação eterna de Deus é o resultado de algo que fazemos, por exemplo, amar o próximo como a si mesmo ou fazer aos outros o que gostaríamos que fizessem a nós ou acreditar em Jesus, como um resultado do qual Deus nos recompensa com o perdão e vida eterna. Este é um erro terrível. O cristianismo bíblico ensina, como o grande reformador protestante Martinho Lutero viu depois de anos lutando em vão para ganhar a aprovação de Deus, é que a salvação é totalmente pela graça de Deus. Isso significa o favor imerecido de Deus. Não há nada que possamos fazer para ganhar o perdão de Deus e merecer a vida eterna. A Bíblia diz que todas as nossas justiças são como trapo de imundícia em comparação com a santidade impressionante de Deus. Ninguém poderia estar diante de Deus e justificadamente dizer: "Eu mereço o seu favor, eu ganhei o seu perdão, e eu mereço a vida eterna!" O que isso significa é que se Deus fosse perfeitamente justo e esse fosse o fim da história , todo o ser humano estaria perdido. Em pé diante de um Deus santo de justiça absoluta e intransigente, cada um de nós iria ser desfeito.

É por isso que a sua pergunta sai com o pé errado desde o início: você enquadrar a pergunta como uma questão de justiça. Mas a justiça pura e simples implicaria a condenação de todos os seres humanos moralmente responsáveis. Se Deus escolhesse salvar qualquer pessoa, isso seria misericórdia de Sua parte. Aqueles que foram condenados não poderiam se queixar de que eles foram injustamente punidos, pois eles tiveram o que mereciam.

Há uma cena eletrizante no "O Conde de Monte Cristo" de Alexandre Dumas, em que o conde salva da execução um de dois condenados. O outro prisioneiro, vendo seu companheiro de prisão posto em liberdade, de repente começa a gritar e lutar, dizendo que ele, também, deveria ser posto em liberdade, que o outro prisioneiro não é menos culpado do que ele, que é injusto outro ser libertado e ele morrer. Ele é arrastado para o bloco e executado. O Conde observa quão estranho é que, enquanto seu companheiro seria condenado junto com ele, ele estava contente de ser executado, reconhecendo que ele merecia a pena. Mas assim que o outro foi concedido misericórdia, de repente, ele começou a chorar da injustiça, como se ele não mais merecesse morrer.

Nós merecemos morrer. Isso é justiça perfeita. Se Deus salva qualquer um, esta é uma manifestação de misericórdia.

Potanto, o problema não é realmente um problema de justiça. Pelo contrário, é um problema de amor. A Bíblia diz que Deus é tão amoroso quanto Ele é santo. Assim como a Sua justiça flui de Sua santidade, assim a Sua misericórdia flui do Seu amor. Uma vez que Ele é amoroso, Ele quer salvar o máximo de pessoas que puder. A Bíblia diz: "Deus quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade" (I Timóteo 2:4). Em particular, ele diz que Deus não tem prazer na morte do ímpio, mas quer que o ímpio volte para Ele e viva (Ezequiel 8:23).

Então, como Deus pode ser perfeitamente justo e perfeitamente amoroso? Como Ele pode mostrar misericórdia sem comprometer a sua justiça? Como Ele pode mostrar justiça sem comprometer o seu amor? Ambos são essenciais para a Sua natureza. Nem podem ser comprometidos. Sua santidade exige justiça, punição para o pecado justamente merecida. Seu amor exige misericórdia, perdão para o agressor. O que Deus deve fazer neste dilema?

A resposta é Jesus Cristo. Ele é o cumprimento da misericórdia e da justiça de Deus. Eles se encontram na cruz: a santidade e o amor de Deus. Na cruz vemos a justiça de Deus, ao Cristo carregar a punição para o pecado que nós merecíamos. Mas também vemos o amor de Deus, ao Ele, na segunda pessoa da Trindade, voluntariamente dar a Sua vida por nós. Cristo é a personificação da justiça e da misericórdia de Deus.

Assim, "O que você vai fazer com Cristo?" torna-se maior a pergunta da vida. Nele você encontrará a graça de Deus e o perdão imerecido. Tudo o que podemos fazer é receber com gratidão o dom da graça de Deus. Se você rejeitá-lo, você cai de volta na justiça de Deus, e Ele deve dar o que você merece.

Então, vamos aplicar estes princípios ao caso Jeffrey Dahmer. Justiça perfeita teria condenado aquele homem à perdição eterna. Mas Deus o ama e quer salvá-lo. Cristo morreu pelos seus pecados. No cenário que você descreve este homem vê o mal de seus caminhos e se volta para Deus em arrependimento sincero por tudo que ele tem feito. Agora que tipo de Deus seria que recusaria seu sincero pedido de perdão? Tal Deus não seria amoroso e misericordioso! Claramente, um Deus amoroso ficaria contente que alguém tão perdido visse o erro de seus caminhos e se voltasse para Ele em busca de perdão.

Assim, podemos deixar o caso Dahmer para descansar. Nós todos concordamos que um Deus amoroso verdadeiramente iria perdoar e salvá-lo. Trazer Dahmer para a história é um elemento estranho que não tem nenhum efeito sobre o tratamento de Deus com outra pessoa.

Agora vire para o caso de suas vítimas. Precisamente os mesmos princípios se aplicam. Elas não merecem o perdão de Deus. Se Deus lhes desse justiça perfeita, todas elas estariam perdidas. Mas Deus os ama e quer salvar a todos quantos Ele pode, sem violar a livre vontade delas. Aquelas que aceitam a Sua graça serão salvas; aquelas que rejeitam ela vão, tragicamente, ser perdidas. A tragédia horrível de incredulidade, eu acho, é que algumas pessoas, tendo tido um sorte terrível na vida, agravam o sofrimento rejeitando a Deus que as ama e que é a sua única esperança de felicidade. O caso dos incrédulos é trágico, terrivelmente trágico! Mas é uma tragédia que eles trazem sobre si mesmos, rejeitando a graça e o amor de Deus.

Agora, é claro, é tentador aumentar a sua história, acrescentando elementos, como por exemplo: "E se alguns não tinha ouvido o Evangelho?" "E se alguns tinham ouvido apenas uma perversão do Evangelho?" "E se alguns eram crianças ou mentalmente incompetentes?" Mas, então, essas seriam as perguntas a fazer, perguntas sobre a providência de Deus, que eu tentei responder em outro lugar a partir de uma perspectiva do conhecimento médio. Essas são perguntas distintas em seu próprio direito. Mas a sua pergunta não levanta qualquer problema particular, pelo menos intelectualmente falando. Sua força é puramente emocional, corroborada da situação reconhecidamente trágica que você descreve.

Agora, talvez a sua dificuldade, Mike, não é o suposto tratamento diferenciado de Deus das pessoas envolvidas (espero ter explicado que elas não são tratadas de forma diferente), mas sim que todo o cenário miserável não deveria ter sido realizado por Deus. Deus deveria ter escolhido um outro mundo possível para Ele que não incluía este cenário. Mas este é apenas o velho problema do mal. O que você tem que mostrar é que existe algum outro mundo de agentes livres viável para Deus em que tanto bem, inclusive a salvação das pessoas, é alcançado como neste mundo, mas sem cenários como o que você imaginou. Isso é pura conjectura. Eu acho que você pode ver por que digo que este é um problema emocional, não um problema intelectual.

Então deixe-me responder mais especificamente às suas perguntas:

Como o cenário acima pode ser, não somente o trabalho de uma divindade "perfeita" e "todo-amoroso", mas um exemplo de perfeita justiça que não poderia ser melhorado por qualquer geração de seres humanos, passado, presente ou futuro? Deus neste cenário é tanto perfeitamente justo e perfeitamente amoroso, pois nenhum pecado fica impune e Sua graça é oferecida gratuitamente a todos os que aceitam-na. Você parece pensar que o cenário que você descreve é unilateralmente provocado por Deus. Discordo. Existem vários agentes livres envolvidos, cujas escolhas devem ser respeitados e o cenário é um cruzamento complexo das escolhas livres desses agentes. Deus salvará quantas dessas pessoas que puder sem violar a sua livre vontade. Ninguém diz que este é um exemplo de perfeita justiça sem melhoria por qualquer geração de seres humanos. Seria fácil melhorar esta situação se todas as pessoas voltassem-se livremente a Deus para a salvação. Mas Deus faz tudo o que pode para salvar o maior número viável, dadas as suas escolhas livres.

Por que Deus permite que um assassino em série vá para o céu, mas suas vítimas sofrerem no inferno eternamente, quando a única coisa que os separa é a conversão do assassino ao cristianismo na prisão pouco antes de morrer? Um Deus todo-amoroso não iria recusar-se a perdoar um assassino em série que sinceramente se arrepende e se volta para Deus para o perdão. Da mesma forma, Deus vai salvar qualquer uma das vítimas que se arrependerem de seus pecados e confiar nele para a salvação. A salvação de cada pessoa está em suas próprias mãos.

Eu realmente concordo com a noção de justiça, que permitiria um sádico assassino em série livre de punição divina, quando suas vítimas, que imploraram por suas vidas e foram mortas sem piedade, estão agora sendo torturadas, pior ainda, enquanto todos os seus gritos por misericórdia ficam sem resposta por toda a eternidade? Esta pergunta é colocada pejorativamente. É claro, eu acho que Deus iria prontamente e alegremente perdoar um assassino em série que se arrepende e volta-se para Ele em busca de perdão! Com certeza! Mas não é como se não há punição divina de seus pecados. Há punição divina pelos pecados do assassino em série, mas foi recebida por Cristo. Quanto àquelas vítimas do assassino que rejeitaram a graça de Deus em suas vidas, elas escolheram livremente resistir todos os esforços de Deus para salvá-las e, portanto, contrário à Sua vontade, se separaram dele para sempre. Eu não vejo nenhuma razão para pensar que, como você imagina, os condenados no inferno clamam a Deus por misericórdia. Pelo contrário, a minha leitura das Escrituras sugere que o maldito se torna ainda mais duro e mais implacável em seu ódio de Deus pelo Seu castigo a eles (Apocalipse 16:11, 21).

Mike, eu não pude deixar de notar que você não refuta os cristãos que lhe disseram que todos nós merecemos o inferno, mas que a graça de Deus está disponível a todos que aceitam-no livremente. Você apenas repudia sua resposta. Mas, então, o problema é emocional, não intelectual.

- William Lane Craig