#333 Deus é um Consequencialista
May 16, 2015Caro Dr. Craig,
Obrigado por considerar a minha pergunta e respondê-la (espero!). A minha pergunta diz respeito ao que parece ser uma contradição em sua posição sobre epistemologia moral. Estou plenamente consciente de que esta não é uma área que você prefere focar mas, talvez, a contradição também fale sobre a incoerência do teísmo cristão.
Você já disse que um cristão não praticaria utilitarismo/consequencialismo e que um cristão normalmente seria de uma persuasão deontológica. No entanto, um dos principais argumentos em sua resposta para o problema do mal é que Deus permite o sofrimento horrível para milhões e milhões de pessoas na terra, porque ele pode trazer um bem maior. Neste caso, o único bem maior é que traz mais pessoas para um relacionamento salvífico com Deus. No entanto, esta abordagem é claramente o oposto de uma abordagem ética deontológica, é utilitarismo puro.
No coração do cristianismo está, obviamente, a morte de Jesus, que mais uma vez parece moralmente errada do ponto de vista deontológico, ou seja, que uma pessoa pode ser condenada à morte porque no ato de matar uma pessoa um grande número de outras pessoas podem se beneficiar. Não me parece que a morte de Jesus poderia ser considerada um auto-sacrifício, porque ele não se suicidou.
Se a resposta é simplesmente ao longo das linhas da teoria do comando divino moralmente niilista, eu ficaria muito decepcionado. Se você pudesse responder à questão de como resolver esta aparente contradição, tanto com e sem a teoria do comando divino, eu seria (talvez eternamente) grato.
Atenciosamente,
Mark
Reino Unido
Dr. craig’s response
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A sua pergunta muitas vezes surge, Mark, mas eu acho que ela é baseada em um certo mal-entendido ou em uma má aplicação do consequencialismo. Não é realmente uma questão da epistemologia moral, como você diz (Deus, afinal, não enfrenta desafios epistemológicos!), mas da ontologia moral: o que faz um ato certo ou errado?
O consequencialismo é uma teoria ética que diz respeito à determinação do nosso dever moral que mantém que é nosso dever moral agir de tal forma a levar às conseqüências mais benéficas para as pessoas. Agora surge imediatamente um problema na aplicação de tal teoria a Deus, a saber, no meu ponto de vista (visão), Deus não tem deveres morais para cumprir. Os deveres morais surgem em resposta aos imperativos emitidos por Deus. Já que Deus não emite comandos para si mesmo, Deus não tem deveres morais [para cumprir]. Em vez disso, os atos de Deus devem simplesmente ser coerentes com a Sua natureza perfeitamente boa. Então o consequencialismo não pode aplicar-se a Deus, já que Ele não tem deveres morais [para cumprir]. Suas ações, como permitir alguns males tendo em vista bens maiores, devem simplesmente ser coerentes com Ele sendo todo-amoroso, punindo o mal, etc.
Sua ridicularização da "teoria do comando divino* moralmente niilista" sugere que você acha a solução acima intragável. Mas a teoria do comando divino não é moralmente niilista, uma vez que ela fundamenta valores morais objetivos em Deus como o paradigma e fonte de bondade moral. O fato de que Deus não tenha deveres morais não implica que Ele possa fazer qualquer coisa; em vez disso Suas ações devem ser coerentes com sua própria natureza.
Além disso, não ache que, porque Deus permite o mal de algum ato à luz de um bem maior, esse ato já não é mais mal. O ato humano ainda é mal, apesar dos grandes bens que podem vir dele. Ou seja, o consequencialismo é falso e permanece sendo falso.
Lembre-se: Deus não é o que está cometendo o ato de maldade. Assim, por exemplo, a crucificação de Jesus ainda é errada, mesmo se Deus a permitiu à luz do grande bem que viria dela. Aqueles que crucificaram Jesus fizeram algo terrivelmente errado, apesar das grandes consequências de sua morte.
Mesmo levando em conta a (falsa) presunção que Deus tem deveres morais para cumprir, a pergunta relevante é o status moral de Deus ao permitir a crucificação. Observe que as suas boas consequências não são suficientes para justificar simplesmente qualquer ato da parte de Deus, por exemplo, violar o livre arbítrio dos agentes humanos envolvidos causando-lhes a crucificar Jesus. Então, Deus não é um consequencialista; o bem que é maior deve ser coerente com certos princípios morais (ou, como eu prefiro, o caráter de Deus). Steve Wykstra, um filósofo que trabalhou muito sobre o problema do mal, aponta que a exigência de alguns bens maiores para a permissão de alguma situação de sofrimento ou maldade por Deus fornece uma razão apenas para uma condição necessária de Sua permissão de alguma instância de sofrimento: Ele permite isto APENAS SE, fazendo isso, fortemente serve um propósito bom maior. Isso não significa que Ele permite QUANDO (se) ele traz um bem maior. Pode muito bem haver outras limitações de uma espécie deontológica [...] O consequencialismo a ser mais cauteloso, penso eu, faria 'alcançar um bem maior', tanto uma condição necessária e suficiente para permitir algum mal quando-considerado-sozinho.1
Claramente, eu não considero que as consequências boas servem para justificar Deus fazendo ou permitindo qualquer coisa, já que eu afirmei que deve ser consistente com o Seu caráter (ou certos princípios deontológicos).
Lembre-se que deontólogos não simplesmente ignoram as consequências de suas ações. Eles irão considerar os resultados de ações ao determinar se um determinado princípio moral se aplica. Por exemplo, considere um médico que está tratando um paciente que sofre de câncer cervical avançado.2 Este médico pode acreditar no princípio moral que um médico não deve infligir sofrimento desnecessário a um paciente. Suponha que ele determina que o câncer do paciente está tão avançado que, rodada após rodada de quimioterapia e cirurgia seria, em última análise, inútil e resultaria em meses de sofrimento incessante para seu paciente. Nesse caso, ele pode decidir que seria errado prescrever tal tratamento para o paciente. Eu acho que você pode ver que o exame das consequências pode ser relevante factualmente para decidir qual princípio moral é aplicável em uma situação.
Assim, levando em conta as consequências, permitir alguma instância de sofrimento ou mal, não faz de ninguém um consequencialista. O mesmo aplica-se a Deus. Ele deve ter algum bem primordial em mente ao permitir o sofrimento e o mal no mundo, mas Ele não é um consequencialista, não somente porque Ele não tem deveres morais a serem determinados, mas também porque o bem primordial deve ser complementado por outras condições, talvez de natureza deontológica, a fim de ser suficiente para permitir o sofrimento.
* [a teoria do “comando divino” também é conhecida como a “teoria do(s) mandamento(s) divino(s)” em diferentes partes deste site e em outros lugares].
1 Comunicação Pessoal
2 Agradeço ao meu colega J. P. Moreland pela inspiração para esta ilustração!
- William Lane Craig