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05 / 06

#368 Algumas Reflexões sobre o Debate com Sean Carroll

May 16, 2015
Q

Dr. Craig,

Muito obrigado novamente pelos ótimos e vivos debates de que você participa juntamente com cosmólogos. Eu tenho que dizer que eu acho essa arena da Cosmologia e Deus um solo muito bom para manter afiado, principalmente porque quando a ciência comprova uma teoria, ou encontra uma boa evidência, chegamos mais e mais perto de compreender mais da grande quantidade de matéria e energia que podemos observar.

De qualquer forma, eu queria lhe perguntar sobre o mais recente debate com Sean Carroll. Houve alguns pontos fortes feitos nesse debate que, como um leigo em cosmologia, me faz querer buscar mais e mais o que os físicos teóricos realmente estão dizendo sobre suas teorias. Os meios de comunicação nem sempre são claros quanto à separação da opinião/crença do cosmólogo vs o que sua teoria realmente diz, sem viés. Então fui em frente e olhei o post dos comentários de debate de Sean Carroll, consulte o site abaixo:

http://www.preposterousuniverse.com/blog/2014/02/24/post-debate-reflections

Parece-me que as acusações que me fazem questionar a maneira como o argumento Kalam funciona, bem como o que as mais recentes teorias estão mostrando versus a própria opinião dos cosmólogos, são as respostas de Sean para:

1. A primeira premissa do argumento Kalam (Causalidade Aristotélica). Ele vai fundo na análise aristotélica da causalidade sendo ultrapassada.

2. O problema do Cérebro de Boltzmann. Ele menciona que o problema do Cérebro de Boltzmann ajuda a isolar os modelos de multiversos que não são sustentáveis. Então, o que acontece com os modelos que funcionam?

3. Sintonia Fina (ou Ajuste Fino). Sean menciona 5 pontos pelas quais a Sintonia Fina não é um bom argumento para o teísmo, e ele continua e diz que você não respondeu a eles. Eu entendo que no seu Pergunta # 49 você mencionou que é um fato sólido que o universo está ajustado finamente para a existência de vida inteligente; por isso fico confuso com o que Sean diz sobre "ele não ofereceu qualquer sugestão de que nós realmente sabemos as condições em que a vida pode e não pode se formar".

De qualquer forma, espero que você possa responder a esta pergunta para mim e me ajude a avançar na minha busca para compreender a cosmologia moderna, os seus fatos e suas esperanças. Além disso, você também vai fazer contato com Allan Guth sobre o teorema BVG? Acho intrigante que o primeiro a dizer que você estava errado sobre BVG foi o Dr. Krauss, e depois vimos a sua troca de e-mail com Valenking provando o contrário. Seria bom para nós, os espectadores, vermos qual seria sua interação com Allan Guth, agora que Sean Carroll está reivindicando que você está enganado na interpretação do teorema.

Obrigado!

Jahir

Estados Unidos

  • United States

Dr. craig’s response


A [

Obrigado por suas perguntas, Jahir! Eu me abstive de comentar o debate com Sean Carroll até que eu pudesse estudar cuidadosamente a transcrição do que foi realmente dito por meio de ponto e contra-ponto. Agora que a transcrição de nossa troca foi concluída, eu me sinto pronto para comentar. Infelizmente, no entanto, eu acho que há tanto a dizer que eu posso, no máximo, responder a apenas a primeira de suas perguntas sobre a premissa causal, deixando as outras para outro dia. Fiquei intrigado que em seu blog Carroll chama essa pergunta de "a parte mais importante do debate." Embora eu ache que a segunda premissa é muito mais importante, o comentário de Carroll revela o peso que ele coloca em sua objeção à primeira premissa.

Causalidade Aristotélica?

 

As restrições de tempo impediram a discussão da primeira premissa do argumento cosmológico kalam, no meu discurso de abertura. Então, tudo o que eu disse foi:

1. Se o universo começou a existir, então há uma causa transcendente que trouxe o universo à existência.

2. O universo começou a existir.

3. Portanto, há uma causa transcendente que trouxe o universo à existência.

...Entendo que (1) é obviamente verdadeiro.

Aqueles que conhecem o meu trabalho vão notar que eu não uso a formulação medieval típica da primeira premissa, ou seja,

1*. Tudo que começa a existir tem uma causa.

Por que a mudança? Bem, há algum tempo, meu amigo Chris Weaver, um estudante de graduação em filosofia, me alertou para o fato de que algumas pessoas podem se opor a (1*) porque pressupõe uma concepção aristotélica da causalidade, segundo a qual as substâncias estão em relações causais umas com as outras, ao passo que as teorias contemporâneas de causalidade pensam em relações causais como sendo obtidas entre outras entidades, por exemplo, eventos ou estados de coisas. O teórico causal contemporâneo não diria que Deus é a causa do universo, mas, por exemplo, que Deus criando o universo é a causa do universo vir a ser. Agora eu acho que a visão de que as relações causais obtêm entre substâncias (bem como entre eventos ou estados de coisas) é perfeitamente defensável.[1] Nós dizemos que Deus criou o universo, assim como Tolstoi escreveu Anna Karenina ou Picasso pintou Guernica, cujas declarações postulam relações causais entre essas coisas. Mas eu estou constantemente envolvido em aprimorar meus argumentos para torná-los mais imune a possíveis objeções, então eu reformulei a primeira premissa para torná-la o mais neutro possível no que diz respeito à própria teoria da causalidade. Meu discurso de abertura, na verdade, inclui uma nota de rodapé neste ponto (o que, obviamente, não foi apresentada oralmente) onde se lê:

(1) não pressupõe uma análise particular da relação causal. Requer simplesmente que o universo não veio a existir sem causa. Para que o universo viesse a existir sem uma causa de qualquer tipo, seria vir a existir a partir do nada, o que é pior do que mágica.

(1) deixa inteiramente em aberto se a causa transcendente é uma substância, um evento, um estado de coisas, ou o que seja.

Observe a justificativa de (1): é óbvia. Na mágica, o mágico faz uma coisa material vir a ser sem qualquer substrato material. Mas se (1) é falsa, então o universo veio a existir sem qualquer material ou causa produtiva, o que é realmente pior do que mágica. Qualquer um que nega (1) deve, portanto, também não ter qualquer problema com a mágica.

Então como é que Carroll responde a (1), em seu discurso de abertura? Ele diz:

O problema com esta premissa é que ela é falsa. Não há quase nenhuma explicação ou justificativa dada para esta premissa na apresentação do Dr. Craig. Mas há um problema maior com ele: é que ela não é nem mesmo falsa.

Há três acusações distintas aqui. A segunda acusação é totalmente correta e será corrigida mais tarde no debate, como veremos. A primeira e a terceira acusações são auto-contraditórias. (1) não pode ser ao mesmo tempo falsa e nem mesmo falsa. Para dizer que (1) não é nem mesmo falsa é dizer que não tem sentido e, portanto, não tem valor de verdade. Embora Carroll alegue que (1) não tem valor de verdade, vamos ver com o desenrolar das coisas que, muito pelo contrário, ele a trata como uma proposição significativa e bem-entendida que ele acha ser falsa.

Então, por que ele diz que (1) não tem sentido? Ele explica:

O verdadeiro problema é que estas não são as palavras certas do vocabulário a serem usadas quando discutimos física fundamental e cosmologia. Esse tipo de análise aristotélica da causalidade estava na moda há 2.500 anos. Hoje sabemos melhor. Nossa metafísica deve seguir nossa física. Isso é o que a palavra "metafísica" significa. E na física moderna, se você abre um livro de teoria quântica de campo, ou um livro de relatividade geral, não vai encontrar as palavras "causa transcendente" em qualquer lugar. O que você encontra são equações diferenciais. Isso reflete o fato de que a forma como a física sabe trabalhar nos dias de hoje é em termos de padrões, regras inquebráveis, leis da natureza. Dado o mundo em um ponto no tempo, vamos dizer-lhe o que acontece em seguida. Não há necessidade de qualquer bagagem metafísica extra, como causas transcendentes além disso. É precisamente a maneira errada de pensar sobre como a realidade fundamental funciona.

Aqui vemos uma rejeição de uma "análise aristotélica da causalidade", porque "Hoje sabemos melhor." Esta parece ser precisamente a objeção de que Chris Weaver tinha me alertado e que eu tinha antecipado. Então, no meu discurso seguinte eu respondi,

Para a minha surpresa, o Dr. Carroll desafia a primeira premissa deste argumento, dizendo que é baseado em conceitos aristotélicos obsoletos de causalidade. Eu protesto - não mesmo! Não há uma análise dada do que significa ser uma causa nesta primeira premissa. Você pode adotar sua teoria favorita de causalidade, ou considerar causalidade um primitivo conceitual. Tudo o que requer é que o universo não tenha surgido sem causa de absolutamente nada.

A alegação de Carroll que o argumento é baseado em conceitos ultrapassados de causalidade é, portanto, infundada.

A Rejeição de Carroll de uma Causa Transcendente

 

Embora Carroll pareça afirmar que, em física, as coisas são explicadas em termos de leis da natureza e não em causas, vamos ver que ele está muito feliz em admitir causas imanentes no universo. Em seu segundo discurso, ele dirá: "quando você encontra algum evento ou estado de coisas B hoje, podemos muitas vezes segui-lo de volta no tempo para um ou alguns possíveis eventos anteriores que nós, portanto, chamamos de a causa daquilo, o que leva a B de acordo com as leis da física". Assim, oferecer explicações em termos de leis naturais não exclui que exista causas e efeitos.

Em vez disso, a que Carroll se opõe é a uma causa transcendente de qualquer tipo! Por quê? Carroll explica que, na física, as explicações causais são dadas em termos de leis naturais (e, presumivelmente, condições iniciais), e assim, no caso de um começo do universo, não pode haver tal explicação, já que não há condições prévias em que as leis da natureza colidam.

Agora, para mim, tudo o que isto prova é que não pode haver uma explicação física da origem do universo; isto é, à medida que vamos para trás no tempo, a física pára no começo do universo.[2] Então é claro, a física que opera apenas dentro do universo não sabe nada de "causas transcendentes". Mas por que não poderia haver uma causa metafísica que transcenda o universo? Eu acho que a chave para o pensamento de Carroll encontra-se em sua pequena frase: "Nossa metafísica deve seguir nossa física". Esta é uma expressão de naturalismo epistemológico. A física leva a metafísica pelo nariz e a metafísica não pode postular entidades além do que a física requer. Escusado será dizer que eu rejeito o naturalismo epistemológico — veja meu debate com Alex Rosenberg para razões de porquê.[3] Metafísica vai além da física, isto é o que "metafísica" significa!

Carroll continua a aconselhar:

A pergunta que você deve estar se fazendo é: "Qual é o melhor modelo do universo a que a ciência pode chegar?" Por um modelo, eu quero dizer um sistema matemático formal que pretende corresponder ao que observamos. Então, se você quer saber se algo é possível, na cosmologia ou na física, você pergunta:" Posso construir um modelo em que o universo teve um começo, mas não uma causa? A resposta é sim. Isso já foi feito. Trinta anos atrás, como já é famoso, Stephen Hawking e Jim Hartle apresentaram o modelo de cosmologia quântica sem limite. O ponto sobre este modelo não é que seja o modelo certo, eu não acho que estamos sequer perto do modelo certo ainda. O ponto é que é completamente autossuficiente. É toda uma história do universo que não depende de qualquer coisa fora dele. Simplesmente é assim. A demanda por mais do que um modelo completo e consistente que se ajusta aos dados é uma relíquia de uma visão pré-científica do mundo. Minha reinvindicação é que, se você tivesse um modelo cosmológico perfeito que desse conta dos dados, você iria para casa e se declararia vitorioso.

Aqui, Carroll diz, com razão, que a física pode (em princípio, pelo menos) criar um modelo do universo em que o estado desse universo, em qualquer momento t, tem uma descrição física completa. Tal modelo é "autossuficiente" no sentido de que não inclui intervenções sobrenaturais (milagres) no universo em qualquer momento t. Mas Carroll considera-o autossuficiente em um sentido mais radical, isto é, o universo não tem uma causa transcendente que o traz a existência. Ele acha que o modelo Hartle-Hawking representa um universo que não tem causa nesse sentido.

No meu segundo discurso, eu respondi,

Dr. Carroll diz que no modelo Hartle-Hawking o universo não é causado. De modo nenhum! O universo passa a existir em tal modelo, e não há nada na teoria que explicaria por que este universo existe em vez de não existir. O modelo pode ser autossuficiente; mas isso é perfeitamente consistente com o meu argumento. Eu não estou argumentando se existe algum tipo de divindade intervencionista, mas sim, por que o universo existe? Por que mesmo veio a existir?

Note aqui que estou muito disposto a admitir, por uma questão de argumento, que o universo é autossuficiente no sentido de que não há intervenções sobrenaturais em qualquer momento t. Como um modelo puramente físico, o modelo Hartle-Hawking não diz absolutamente nada sobre a existência de uma causa transcendente para o universo vir a ser. Como poderia? Como o próprio Carroll enfatiza repetidamente, essas causas não são contempladas em uma teoria física, e por isso não são nem afirmadas nem negadas. Portanto, a pergunta continua a ser, por que o universo começou a existir? Além de uma causa metafísica, transcendente, você está preso ao universo surgindo não-causado, e, como eu disse, se esse é o preço do não-teísmo, então o não-teísta é bem-vindo a pagá-lo.

Então como é que Carroll responde? Ele responde: "Eu afirmo que um modelo coerente, completo que se encaixa com os dados do vemos no mundo é um sucesso. Não temos o direito de exigir mais do que isso, e eu acredito que a resposta do Dr. Craig foi, 'Temos sim!' Eu não acho que isso conta como uma resposta muito boa."Esta é uma rendição sem caridade da minha resposta! Minha reinvindicação foi precisamente que "um modelo completo consistente que se ajusta aos dados" vai envolver um começo do universo. São modelos sem princípio que são inconsistentes ou não conseguem ajustar-se aos dados. Quanto ao direito de exigir mais do que isso, tal direito é fundamentado no absurdo do universo vir a ser a partir do nada.

Carroll agora passa a explicar por que não deveríamos estar preocupados com o começo existir do universo sem uma causa:

É uma coisa muito difícil, porque o universo é diferente da nossa experiência cotidiana. Isso não soa como uma declaração surpreendente, mas nós realmente precisamos levá-la a sério. Olhar para um modelo cosmológico moderno e dizer: "Sim, mas qual foi a causa?" é como olhar para alguém tirando fotos com um iPhone e dizer: "Mas onde é que vai o filme?" Não que a resposta seja difícil ou inescrutável; é completamente a pergunta errada para estar se fazendo. Na verdade, é um pouco técnica a maior parte da minha segunda palestra aqui, mas acho que vale a pena fazê-la direito. Por que devemos esperar que existam causas ou explicações ou uma razão para o universo em que vivemos? É porque o mundo físico, dentro do qual estamos incorporados, tem duas características importantes. Existem padrões inquebráveis, as leis da física — as coisas não simplesmente acontecem, elas obedecem às leis — e há uma seta do tempo que se estende do passado para o futuro. A entropia era menor no passado, e aumenta para o futuro. Portanto, quando você encontra algum evento ou estado de coisas B hoje, podemos muitas vezes segui-lo de volta no tempo para um ou alguns possíveis eventos anteriores que, portanto, nós chamamos dea causa daquilo, o que leva a B, de acordo com as leis da física. Mas, fundamentalmente, ambas as características do universo que nos permitem falar a língua de causas e efeitos estão completamente ausentes quando falamos sobre o universo como um todo. Nós não pensamos que o nosso universo seja parte de um conjunto maior que obedece a leis. Mesmo que seja parte do multiverso, o multiverso não é parte de um conjunto maior que obedece leis. Por isso, nada nos dá o direito de exigir algum tipo de causa externa.

Olhe o que está acontecendo aqui: Carroll identifica duas características do universo (leis naturais e uma direção do tempo) que, ele pensa, torna adequado exigir causas dos eventos imanentes, mas que não se aplicam ao começo da existência do universo. Portanto, o começo do universo é isento do princípio da causalidade. Esse argumento é um non sequitur. (Ou seja, é logicamente inválido.) Para esse argumento passar na inspeção, Carroll precisaria mostrar que estas duas características são condições não só suficientes, mas necessárias da exigência para explicação causal. Ele não faz qualquer uma das duas. Na verdade, se algo não pode vir a existir não-causado em um momento do tempo, como poderia vir a existir sem uma causa, se aquele momento fosse o primeiro momento do tempo? Se algo que pode ser explicado pelas leis naturais requer uma causa de sua vinda à existência, como isso isentaria algo que certamente não pode ser explicado em termos de leis naturais? A visão de Carroll parece ininteligível.

Até agora, deve ficar claro que a afirmação de Carroll é, não que a premissa (1) seja sem sentido, mas que ela é falsa. De fato, mais tarde, ele admite em resposta à pergunta 11: "Eu completamente posso conceber um universo que foi trazido à existência por um Deus que era onipotente e assim por diante e por qualquer motivo Deus escolheu ser completamente invisível e o universo funciona por princípios puramente naturalistas." Isto é concordar com o que eu digo em resposta a essa mesma pergunta: "Os argumentos que eu ofereci hoje à noite são consistentes com o universo ser autossuficiente na maneira que o Dr. Carroll descreveu. Então, isso não precisa ser uma questão de debate entre nós." Carroll acha que poderia haver uma causa para o início da existência de um universo autossuficiente, mas que não precisa haver uma causa. O universo pode simplesmente começar a existir não causado. Em resposta à pergunta 13, ele dirá mais tarde,

Eu não acho que se o universo teve um primeiro momento no tempo isso significa que há qualquer tipo de condições eternas ou preexistentes ou regras ou leis ou qualquer coisa assim. Significa simplesmente que a nossa melhor, e talvez correta descrição do cosmos, é aquela que teve um primeiro momento no tempo. A pergunta é, isso pode ser autossuficiente no sentido que eu estou usando, que é se eu escrever as equações e as condições, e assim por diante, que descrevem o universo com um momento mais inicial, eu estou pronto? Existem perguntas que eu possa ter sobre esse universo que não podem ser respondidas por esse formalismo?

Em minha opinião, você está longe de estar pronto. Pois a maior pergunta ainda permanece sem solução: por que o universo começou a existir?

Justificativa da Premissa Causal

 

Então, no meu terceiro discurso, eu dou a minha justificativa para a premissa causal que Carroll havia reclamado que estava faltando em minha apresentação de abertura:

Sinceramente, estou muito surpreso que ele poderia pensar que o universo pode literalmente surgir literalmente do nada. Deixe-me apenas dar três argumentos de o por quê deve haver uma causa.

Em primeiro lugar, parece-me um primeiro princípio metafísico que a existência não vem da não-existência. As coisas não simplesmente vêm a existir, literalmente, a partir do nada. “Nada” não tem propriedades, nem potencialidades. É nada. Portanto, parece-me inconcebível metafisicamente pensar que o universo possa ter vindo a existir a partir do nada.

Em segundo lugar, se o universo poderia vir a existir a partir do nada, então por que é que só os universos surgem do nada? Por que não bicicletas e Beethoven e refrigerante? O que torna o nada tão discriminatório? Se universos pudessem surgir a partir do nada, então qualquer coisa e tudo deve aparecer a partir do nada. Uma vez que isso não acontece, isso sugere que as coisas que vêm à existência tem causas.

Finalmente, todas as evidências empíricas que temos sustentam a verdade do princípio da causalidade. Quando o Dr. Carroll diz: "O universo é diferente da nossa experiência",  está realmente cometendo o que Alexander Pruss chama a falácia do táxi, ou seja, você colabora com o princípio da causalidade até chegar ao seu objetivo desejado, e então você acha que pode simplesmente descartá-lo como uma picareta, porque você não quer que haja uma causa para sua entidade, o universo. Mas se o universo veio à existência, se o universo não é eterno, então certamente seria necessário ter uma causa. Na verdade, negar isto não é científico, porque todo o projeto da cosmogonia contemporânea é tentar descobrir qual é a causa do universo! Assim, por seu princípio, seria uma rolha da ciência e iria destruir sua própria área de especialização.

Meu primeiro argumento acima deixa claro que eu acho que a metafísica é uma disciplina independente. Há primeiros princípios óbvios com que devemos chegar a um acordo.

Meu segundo argumento vem do grande filósofo de Oxford, A. N. Prior. Acho que é um argumento extremamente poderoso. Já que o nada não pode constranger qualquer coisa, se o universo pode vir a existir sem uma causa, então é inexplicável por que qualquer coisa e tudo não faz o mesmo. Por que não um posto de gasolina Chevron ou uma aldeia esquimó surge em vez de o nosso universo? Nenhuma razão pode ser dada. Não somente este é o caso no que diz respeito a inícios absolutos, mas também para coisas imanentes no universo. Você não pode dizer que as leis da natureza ou a seta do tempo evita que as coisas surjam sem causa, precisamente pela razão de que elas são sem causa. Não há condições causais que rejam a sua vinda à existência. Então você não pode confiná-los apenas para o início do tempo e do universo.

Finalmente, a terceira razão é destinada a apelar para os naturalistas científicos como Carroll. Aqui eu tento responder a tentativa de Carroll de subverter o argumento indutivo, isentando o universo do princípio da causalidade. Eu afirmo que sua tentativa de isentar o universo é arbitrária e seria uma rolha da ciência, uma vez que cosmogonia tenta justamente dar uma explicação causal para a origem do universo. Aqui eu poderia ter sido mais claro, que não vejo nenhuma razão para pensar que as duas características mencionadas por Carroll sejam essenciais para a necessidade de uma explicação causal. Em vez disso, eu afirmo que uma condição suficiente para exigir uma explicação causal é que algo começa a existir, e esta condição é satisfeita no caso do universo. Felizmente, em resposta à pergunta 1 da platéia eu me expressei de forma mais clara:

Assim, parece-me que esta é uma diferença sem diferença. Eu diria que a condição que se aplica ao universo faz com que o princípio da causalidade relevante seria o início de sua existência. Se um cavalo começa a existir, tem que haver uma causa para isso. Se um edifício começa a existir, tem que haver uma causa para isso. Da mesma forma, se o universo começa a existir, é preciso haver uma causa para isso. E a esse respeito as condições para o princípio de causalidade se aplicam.

Isto parece-me totalmente correto. Ser incorporado no tempo ou admitir uma explicação natural não são condições necessárias de exigir uma explicação causal. Em vez disso uma condição suficiente para exigir uma explicação causal é começar a existir.

Em seu último discurso Carroll responde a estes pontos:

Ele disse que estava surpreso por eu ter me recusado a aceitar o fato de que as coisas precisam de causas para acontecer. Para isso eu só poderia citar David Lewis, "Eu não sei como refutar um olhar incrédulo". Eu tentei dar a razão pela qual a análise da causalidade que usamos para objetos dentro do universo não se aplica ao universo, mas isso mais ou menos passou zunindo por aí. Dr. Craig ganha muita milhagem da suposta loucura que é coisas apenas surgindo à existência. "Por que bicicletas não simplesmente surgem à existência?" Mais uma vez, eu tentei explicar o que faz o universo diferente, mas, mais importante ainda, a frase "surgir à existência" não é a certa para usar quando você está falando sobre o universo. Soa como se fosse algo que acontece no tempo, mas esse não é o jeito certo de fazê-lo, porque não há antes do início, se há um início. A coisa certa a dizer é que houve um primeiro momento do tempo. Quando você diz dessa forma não soa tão implausível. A pergunta é, existe um modelo em que isso é verdade? Será que as equações do modelo se encaixam? Será que o modelo se ajusta aos dados? E nós temos respostas plausivelmente positivas para todas estas.

Na verdade, David Lewis considera o olhar incrédulo como uma forma muito poderosa de responder a uma posição filosófica! Algumas coisas são simplesmente inacreditáveis. Que o universo deve começar a existir a partir do nada é uma dessas, na minha opinião.

Carroll, em seguida, faz alusão a suas duas condições supostamente necessárias acima referidas para exigir uma explicação causal, para as quais dei a minha resposta acima.

Finalmente, ele se opõe à linguagem de "surgir à existência" porque parece pressupor um tempo anterior durante o qual a coisa em questão não existia, uma condição que é inaplicável no caso do início do próprio tempo. Ele acha que não soa tão implausível dizer, em vez disso, que houve um primeiro momento do tempo. Certo, mas todo o ponto da análise filosófica é descompactar tais locuções e expor suas implicações, o que pode vir a ser bastante implausível. Eu vou dizer mais sobre isso em um momento. Note que eu dou respostas afirmativas às três perguntas que ele coloca: sim, existem modelos com um início do tempo; sim, as equações de tais modelos se encaixam; e, sim, os modelos se ajustam aos dados! Portanto, temos boas razões para acreditar que o universo começou a existir, que é a segunda premissa do argumento cosmológico kalam.

Filosofia do Tempo

A pergunta, então, é se é mais plausível que exista uma causa transcendente que trouxe o universo à existência ou que o universo começou a existir sem causa do nada. Durante todo este debate, eu tentei ao máximo evitar apelar para argumentos filosóficos, de modo a permanecer diretamente no campo de especialização de Carroll. Mas agora, uma questão filosófica enorme que tinha se escondido sob a superfície, surge finalmente à vista, em resposta à pergunta 8. Pegando carona sobre a queixa de Carroll sobre a locução de "surgir à existência", eu explico,

Quero aproveitar esta oportunidade para destacar para você uma diferença muito significativa entre Sean e eu, que é uma diferença filosófica que tem um tremendo impacto sobre todo este debate. E isso tem a ver com essa ideia de "surgir à existência." Se eu não me engano, o Dr. Carroll sustenta o que é chamado de teoria aflexiva ou atemporal (tenseless) do tempo. Isso quer dizer que eventos passados, presentes e futuros são todos igualmente reais. Tornar-se temporal é meramente uma ilusão subjetiva da consciência humana. Não há nada privilegiado sobre o presente, ontologicamente falando. Eu mantenho uma visão bastante diferente do tempo. Eu acho que se tornar temporal é uma característica real e objetiva do universo. O futuro não existe em qualquer sentido; as coisas realmente entram e saem de existência. E é por isso que eu uso a linguagem de surgir à existência. Não porque eu ilicitamente pressuponha tempo antes da origem do universo, mas porque eu acredito em uma teoria temporal de tempo, que afirma a objetividade de tornar-se temporal. E nesse ponto de vista o começo do universo não existe apenas atemporalmente. O universo vem a existir, e certamente isso exige uma causa. Agora, isso não é apenas uma suposição metafísica infundada da minha parte. Eu escrevi dois livros sobre isto em que eu defendo a teoria flexiva (tensed) do tempo, dando argumentos para ela e respondendo a acusações contra ela, e então eu ataco a teoria atemporal do tempo, dando argumentos contra ela e respondendo a argumentos para ela. Mas esta é uma enorme suposição metafísica que subjaz a este debate e nos divide.[4]

Esta questão filosófica é de vital importância para o debate sobre a premissa causal. Na visão de Carroll o universo começa a existir no Big Bang apenas no sentido de que uma vara de medida começa a existir na primeira polegada. Ou seja, ela tem uma borda frontal, por assim dizer, mas ela não começa a existir realmente. Mas, na minha visão, o universo passa a existir no primeiro momento da sua existência. A teoria flexiva (tensed) do tempo é o meu grande trunfo para a defesa do princípio de causalidade. Se a negação do princípio da causalidade de Carroll deve ter qualquer credibilidade, ele deve defender uma teoria atemporal do tempo. Esse é um debate filosófico em que eu teria prazer de participar, mas também um debate para outro dia.

Sumarizando

Vamos resumir essa parte do debate. A premissa causal

1. Se o universo começou a existir, então existe uma causa transcendente que trouxe o universo à existência.

não pressupõe qualquer análise particular da relação causal, mas foi deliberadamente formulada para ser a mais neutra possível a esse respeito. Assim, a acusação de Carroll, de que ela assume um conceito aristotélico de causalidade, (o carácter sustentável da qual permanece discutível) é vazia.

(1) também é consistente, como Carroll vem a admitir, com o universo sendo autossuficiente no sentido de que a descrição física completa do universo pode ser dada em qualquer momento t. Então o repúdio de Carroll de uma causa transcendente na base da completude da física é gratuita.

Eu ofereci três argumentos a favor de (1). Em primeiro lugar, é fundamentada por um primeiro princípio metafísico óbvio de que algo não pode vir a ser a partir do nada. Se o naturalismo de Carroll exige que ele desrespeite esse princípio, então seu ponto de vista, sendo pior do que mágica, de coração, merece o olhar incrédulo. No final, no entanto, Carroll, ao adotar uma teoria aflexiva ou atemporal (tenseless) do tempo segundo a qual começar-a-existir não implica vir-a-ser, na verdade não despreza o primeiro princípio. Dado este primeiro princípio, uma teoria flexiva (tensed) do tempo é suficiente para (1). A pergunta para Carroll então se torna duas vertentes: (1) que justificativa ele pode oferecer para uma teoria flexiva (tensed) do tempo, e (2) a premissa (1) é verdade mesmo em uma teoria aflexiva, ou seja, uma teoria flexiva do tempo é meramente uma condição suficiente, mas não necessária, para (1)? Estas perguntas continuam por ser abordadas.

Em segundo lugar, se algo pode vir a existir sem uma causa, então torna-se inexplicável por que qualquer coisa e tudo não pode fazê-lo. Carroll pode tentar evitar este argumento, apelando mais uma vez para uma teoria afleva ou atemporal do tempo. Mas não é evidente que este argumento também não funcione mesmo em uma teoria aflexiva. Pode-se simplesmente refraseá-lo para remover qualquer referência a tornar-se temporal: se algo pode começar a existir sem uma causa, então torna-se inexplicável por que qualquer coisa e tudo não pode fazê-lo.

Em terceiro lugar, temos evidência indutivas esmagadoras em apoio a (1). A tentativa de Carroll para subverter esta inferência indutiva, salientando que duas características de eventos imanentes, isto é, serem temporalmente incorporados e explicáveis ​​em termos de leis naturais, não se aplicam no caso do início da existência do universo, falha em mostrar que essas características são condições necessárias da exigência de explicação causal. Com efeito, é ininteligível por que estar localizado num primeiro instante de tempo e ser naturalmente inexplicável permitiria que um evento ocorra sem uma causa. Uma condição comum para ambos os eventos imanentes e um evento cósmico inicial é começar a existir, e é esta condição comumente compartilhada, que é plausivelmente suficiente para a necessidade de explicação causal. Assim, a inferência indutiva passa.

Portanto, temos boas razões para afirmar (1), ao passo que os invalidadores proferidos de Carroll de (1) ou são inconclusivos ou definitivamente falhos.

Próxima parada: premissa (2)!

 


[1]Notas:

1 Veja, por exemplo, a defesa de concepções medievais de causalidade de Francisco Suarez em sua Introdução a Francisco Suarez, On Creation, Conservation, and Concurrence [Sobre a Criação, Conservação e Concorrência], traduzido por Alfred J. Freddoso (South Bend, Ind.: St. Augustine's Press, 2002). Freddoso argumenta convincentemente que a análise de Suarez da causalidade compara muito favoravelmente com teorias contemporâneas.

[2] Na verdade, eu apelo para a impotência da física a este respeito como um argumento para a pessoalidade da causa do universo. Como eu explico em Reasonable Faith,

"Em primeiro lugar, como Richard Swinburne aponta, existem dois tipos de explicação causal: explicações científicas em termos de leis e condições iniciais e explicações pessoais em termos de agentes e de suas volições (The Existence of God, ed. rev. [Oxford: Clarendon Press, 1991], pp. 32-48). Por exemplo, se eu entrar na cozinha e encontrar a chaleira fervendo e perguntar à Jan, "Porque é que a chaleira está fervendo?", ela pode responder: "O calor da chama está sendo conduzido através do fundo de cobre da chaleira para a água, aumentando a energia cinética das moléculas de água, de modo que elas vibrem com tanta violência que quebrem a tensão superficial da água e são jogados fora na forma de vapor."Ou ela pode dizer: "Eu a coloquei para fazer uma xícara de chá. Gostaria de beber um pouco?"A primeira fornece uma explicação científica, a segunda uma explicação pessoal. Cada uma é uma forma perfeitamente legítima de explicação; de fato, em certos contextos, seria totalmente inadequado dar uma em vez da outra. Agora, um primeiro estado do universo não pode ter uma explicação científica, uma vez que não há nada antes dele, e, portanto, ele não pode ser contabilizado em termos de leis que operam em condições iniciais. Ele só pode ser explicado em termos de um agente e suas volições, uma explicação pessoal".

[3] Veja William Lane Craig e Alex Rosenberg, Is Faith in God Reasonable? Debates in Philosophy, Science, and Rhetoric, [A Fé em Deus é Razoável? Debates em Filosofia, Ciência e Retórica] ed. Paul Gould e Corey Miller, com respostas por Robert Kaita, Victor Stenger, Paul Moser, Theodore Drange, Timothy McGrew, Michael Ruse, Martin Medhurst, e Clarke Rountree, Routledge Studies in the Philosophy of Religion (London: Routledge, 2014).

[4] Veja William Lane Craig, The Tensed Theory of Time: A Critical Examination [A Teoria Temporal do Tempo: Um Exame Crítico], Synthese Library 293 (Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2000) e William Lane Craig, The Tenseless Theory of Time: A Critical Examination[A Teoria Atemporal do Tempo: Um Exame Crítico], Synthese Library 294 (Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2000).

- William Lane Craig