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#364 Um Ser Atemporal Pode ser Pessoal?

May 16, 2015
Q

Caro Dr. Craig,

Eu sou um estudante cristão da Noruega. Durante um debate sobre se Deus existe ou não, (em um grupo no Facebook chamado juventude política) eu defendi sua existência, com o melhor de minha capacidade, usando o argumento cosmológico Kalam. Eu tinha visto em seus vídeos do youtube, e em seus artigos aqui na RF. No entanto, eu encontrei um problema. Alguém tentou minar o argumento usando o problema da existência de uma mente sem corpo além do tempo e espaço. Eu temo que não posso contrariar esta situação, e eu lutei para encontrar uma explicação para isso em suas páginas.

O argumento que ele usou é o seguinte:

"Uma criatura pensamento tem vontade, razão e faz escolhas com base em raciocínio. Uma criatura além do tempo e espaço, portanto, não pode fazer escolhas, uma vez que ele não está limitado pelo tempo e seu raciocínio não pode trabalhar em uma ordem particular. Para agir como causa externa por trás da existência do universo, portanto, o criador não poderia ser um ser pensante ("uma mente") e, portanto, não teria as mesmas propriedades do Deus cristão ou quaisquer outros deuses. Em segundo lugar a "existência além do tempo e espaço" é um conceito não-falsificável e, portanto, não têm lugar dentro da lógica".

Eu acredito que ele estava preocupado com a ordem das operações que uma mente usa, e sua incapacidade de funcionar quando não limitado pelo tempo e espaço. Ele especificamente fez referência aos seus argumentos. Então, basicamente devido à forma como a mente funciona, ela precisa de tempo para fazê-lo.

Você tem respostas para isso? Qualquer ajuda seria muito apreciada.

Håvard

Noruega

  • Norway

Dr. craig’s response


A [

Receber a sua pergunta, Håvard, trouxe de volta memórias de nossa visita encantadora a Bergen há dois anos! É bom saber que as pessoas na Noruega estão utilizando os recursos da Reasonable Faith.

Na verdade, eu abordei a sua pergunta em diversos lugares, então deixe-me dar-lhe as referências e manter a minha resposta breve:

“Divine Timelessness and Personhood.” [Atemporalidade Divina e Pessoalidade] International Journal for Philosophy of Religion 43 (1998): 109-124.

God, Time, and Eternity [Deus, Tempo e Eternidade] (Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2001), capítulo 2.

Time and Eternity: Exploring God’s Relationship to Time [Tempo e Eternidade: Explorando o Relacionamento de Deus com o Tempo] (Wheaton, Ill.: Crossway, 2001), capítulo 3.1.

A primeira delas está disponível neste site. A segunda é basicamente a mesma que a primeira. A terceira é uma versão no nível mais popular para o não-filósofo. Está disponível através do seu serviço de empréstimo entre bibliotecas.

Vamos examinar brevemente os argumentos do seu amigo. No segundo não precisamos nos deter, pois é terrivelmente confuso. O que ele quer dizer quando afirma: "a existência além do tempo e espaço é um conceito não-falsificável e, portanto, não tem lugar dentro da lógica"? Esta declaração é uma bagunça.Conceitos não são nem falsificáveis, nem não falsificáveis; proposições sim. Assim, presumivelmente, ele está reclamando que a proposição "Deus existe além do tempo e espaço" não é falsificável e por isso não tem lugar na lógica. Mas o que isso significa? Ninguém está afirmando que tal proposição é uma verdade lógica, como a lei da contradição ou as regras de inferência como modus ponens, modus tollens, etc. Eu suspeito que o que o seu amigo está expressando é o antigo princípio de falsificação de significado, ou seja, que uma proposição é significativa somente se ela é, em princípio, capaz de ser empiricamente falsificada.

Mas se é isso que ele quer dizer, você precisa informar-lhe que, como o princípio de verificação de sentido, o princípio da falsificação é um princípio arbitrário e totalmente implausível em que praticamente nenhum filósofo contemporâneo acredita. De qualquer forma, a proposição "Deus existe além do tempo e do espaço" é falsificável, e eu afirmo tê-la falsificado! Nos livros acima citados, eu ofereço dois argumentos contra a atemporalidade divina que me parecem argumentos sólidos e convincentes. Pior, o seu próprio amigo afirma tê-la falsificado! Pois o seu primeiro argumento é que não pode existir um Deus além do tempo e espaço. Assim, o seu segundo argumento (a medida que eu posso fazer sentido dele) está em contradição com o seu primeiro.

Assim, o argumento realmente interessante é o primeiro. É um argumento antigo que tem sido pressionado contra a atemporalidade divina. O detrator de atemporalidade divina argumenta que as declarações

1. Deus é atemporal.

e

2. Deus é pessoal.

são, em geral, logicamente incompatíveis com base nas seguintes premissas necessariamente verdadeiras:

3. Se Deus é atemporal, Ele não exemplifica propriedades x, y, z.

4. Se Deus não exemplifica propriedades x, y, z, Ele não é pessoal.

Em que x, y, z são substituídos por certas propriedades especificadas. As propriedades que seu amigo tem em mente são a razão e vontade racional. Ele tem que mostrar tanto (1) que estas propriedades são essenciais para a pessoalidade e (2) que elas não podem ser exemplificadas atemporalmente.

Concordo que essas propriedades são essenciais para a pessoalidade. Mas não vejo nenhuma razão para pensar que elas não podem ser exemplificadas atemporalmente. Considere a razão. Seu amigo parece confundir a razão com raciocínio discursivo, que é um processo alongado de chegar à conclusões por inferência a partir de premissas. Raciocínio discursivo da parte de Deus está descartado, não tanto pela atemporalidade de Deus como por sua onisciência. Um ser onisciente não pode raciocinar discursivamente porque Ele já sabe as conclusões a que chegará! Mesmo que Deus esteja no tempo, Ele não se envolve em raciocínio discursivo. Mas, obviamente, Ele não é impessoal como resultado.

Defensores da atemporalidade divina tem destacado constantemente que o ato de conhecer algo não precisa tomar qualquer tempo.1 Sem entrar no debate sobre o que significa ser racional, podemos dizer com confiança que, Deus sendo atemporal não prejudica nem a estrutura noética de Deus (Seu sistema de crenças), nem Sua capacidade de cumprir todas as funções intelectuais que se pode pensar que Ele tenha. Uma vez que Ele é onisciente, é muito bobo pensar que Deus poderia ser indiciado por irracionalidade!

E quanto à vontade? Eu não vejo nenhuma razão para pensar que a livre vontade não possa ser exemplificada por um Deus atemporal. Mais uma vez, a onisciência sozinha impede Deus de decidir no sentido de escolher após um período de indecisão. Mesmo um Deus temporal não se decide nesse sentido. Mas Deus decide no sentido de que Sua vontade se propõe a uma alternativa em vez de outra e o faz livremente. Cabe a Deus o que Ele faz; Ele poderia ter desejado de outra maneira. Este é o sentido mais forte da liberdade libertária da vontade. No caso de Deus, porque Ele é onisciente, Suas decisões livres são ou eternas ou atemporais, em vez de precedidas por um período de ignorância e indecisão.

Então, eu ainda tenho que ver um argumento sólido contra a coerência de um ser pessoal e atemporal.

A minha opinião é que Deus é atemporal sem a criação e dentro do tempo desde o momento da criação.



Notas:

1 Nelson Pike, God and Timelessness [Deus e Atemporalidade], Studies in Ethics and the Philosophy of Religion (New York: Schocken Books, 1970), p. 124; William Mann, “Simplicity and Immutability in God [Simplicidade e Imutabilidade em Deus],” International Philosophical Quarterly 23 (1983): 270; Paul Helm, Eternal God [Deus Eterno] (Oxford: Clarendon Press, 1988), pp. 64-5; John C. Yates, The Timelessness of God [A Atemporalidade de Deus](Lanham, Md.: University Press of America, 1990), pp. 173-4; Brian Leftow, Time and Eternity [Tempo e Eternidade], Cornell Studies in Philosophy of Religion (Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 1991), pp. 285-90

- William Lane Craig