back
05 / 06
bird bird

#373 Autoria dos Evangelhos - Quem se Importa?

May 16, 2015
Q

Caro Dr. Craig,

Eu sou um ateu e considero você muito sincero e razoável em sua defesa da religião cristã. Você já abordou muitas das posições do Dr. Bart Ehrman sobre a crítica textual da Bíblia, mas eu não acho que você abordou a principal reivindicação do livro dele que lida com falsificações. Como sabemos que os evangelhos foram escritos pelos autores listados em nossas bíblias dos dias atuais? Os títulos foram adições posteriores, e após a leitura dos outros livros do Novo Testamento um tema comum é que há muitos falsos mestres espalhando falsas doutrinas. Em suma, há boa evidência apoiando as reivindicações à autoria dos evangelhos? E se assim for, qual é?

Sinceramente,

J.C.

Estados Unidos

  • United States

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Apesar de ter escolhido a sua pergunta esta semana, J.C., eu não vou realmente respondê-la. Às vezes é mais importante explicar para uma pessoa que ela está fazendo a pergunta errada do que responder a sua pergunta. Ajudando-o a ver quais são as perguntas cruciais, podemos evitar distrações e perseguir trilhas de coelho.

Sua pergunta é assim. A suposição por trás da pergunta parece ser de que a autoria dos documentos do Novo Testamento é, de alguma forma, crucial para considerá-los como fontes históricas críveis para a vida de Jesus. Tal suposição é completamente fora de contato com a crítica histórica contemporânea do Novo Testamento. Eu duvido que qualquer erudito do Jesus histórico pense que a identificação dos vários documentos colecionados no Novo Testamento com os autores seja crucial para eles sirvam como fontes históricas críveis para os eventos ou ditos de Jesus.

Por essa razão, eu acho que você seriamente interpretou mal Bart Ehrman em tomar seu argumento central, para dizer que os evangelhos não foram escritos pelos seus autores tradicionalmente reconhecidos. (J.C., caracterizar a incerteza sobre a autoria dos evangelhos como "falsificação" também mostra um mal-entendido. Se, como você aponta, os Evangelhos originais não carregavam o nome dos autores, então não podem ser falsificações, pois eles não fazem nenhuma reivindicação sobre os nomes de seus autores! Sua preocupação é, antes, que os Evangelhos são anônimos, e os nomes de Mateus, Marcos, e assim por diante foram posteriormente associados a eles.) Ehrman reconhece que podemos recolher muita informação histórica sobre Jesus dos quatro Evangelhos (para não mencionar as cartas de Paulo), mesmo que não saibamos quem os escreveu. De fato, até recentemente, apesar de sua incerteza sobre a autoria dos Evangelhos, Ehrman aceitou a historicidade dos fatos centrais sustentando a inferência da ressurreição de Jesus, ou seja, seu sepultamento por José de Arimatéia, a descoberta de seu túmulo vazio por um grupo de suas discípulas, suas aparições post-mortem [pós-morte], e os discípulos originais começando a acreditar que Deus o havia ressuscitado dos mortos. A recente meia-volta de Ehrman sobre alguns desses fatos não é devido à sua incerteza sobre a autoria dos Evangelhos, mas por outros fatores.

Agora eu acho que as perguntas relativas à data e autoria dos documentos do Novo Testamento extremamente interessantes, então eu me importo com essas perguntas. (Meu título para a Pergunta desta semana é deliberadamente provocador!) Mas responder a essas perguntas não é fundamental para a confiabilidade desses documentos. Isto, na verdade, tornou-se um ponto de discórdia para os editores da Crossway Books relativo à segunda edição do minho livro “Reasonable Faith”. Eles insistiram que eu acrescentasse um capítulo sobre a confiabilidade geral dos quatro Evangelhos. Eu protestei, explicando que o meu caso para a autocompreensão radical de Jesus e historicidade de sua ressurreição não dependia na confiabilidade geral dos referidos documentos. Eles foram inflexíveis, e então eu pedi que o acadêmico do Novo Testamento, Craig Blomberg, escrevesse tal capítulo para Reasonable Faith, apesar do fato de que ele interrompeu o fluxo do argumento. Você observará que eu eventualmente prevaleci e o capítulo estranho foi removido da terceira edição. Mas se você está realmente interessado em questões de autoria e confiabilidade geral, J.C., eu recomendo o capítulo de Blomberg a você.

Então, se os eruditos do Jesus histórico não estão indevidamente preocupados com as questões de autoria, como é que eles identificam elementos históricos nos Evangelhos? Uma maneira é através da aplicação dos chamados "critérios de autenticidade." Esses "critérios" na verdade são declarações sobre o efeito de certos tipos de evidências sobre a probabilidade de vários provérbios ou eventos na vida de Jesus. Para algum dito ou evento registrado S, evidência de um certo tipo E, e nossa informação de fundo B, os "critérios" afirmariam que, todas as coisas sendo iguais, Pr (S|E&B)> Pr (S|B). Em outras palavras, todo o resto sendo igual, a probabilidade de algum evento ou dizer é maior, dado, por exemplo, a sua múltipla atestação do que seria sem ele.

Quais são alguns dos fatores que podem servir o papel de E para aumentar a probabilidade de algum provérbio ou evento S? A seguir estão alguns dos mais importantes:

(1) Congruência Histórica: S se encaixa nos fatos históricos conhecidos sobre o contexto em que S é dito ter ocorrido.

(2) Atestação independente e antiga: S aparece em várias fontes que estão perto do tempo em que S supostamente ocorreu e que não dependem nem um do outro nem de uma fonte comum.

(3) Constrangimento: S é estranho ou contra-produtivo para as pessoas que servem como fonte de informação para S.

(4) Dissimilaridade: S é diferente de formas de pensamento antecedentes judaicos e/ou diferente de formas de pensamento cristãos posteriores.

(5) Semitismos: Traços das formas lingüísticas aramaicas ou hebraicas aparecem no relato.

(6) Coerência: S é consistente com os fatos já estabelecidos sobre Jesus.

Observe que esses "critérios" não pressupõem a autoria tradicional ou até mesmo a confiabilidade geral dos Evangelhos. Ao contrário, eles se focam em um provérbio ou evento particular e dão evidência para pensar que um elemento específico da vida de Jesus é histórico, independentemente da confiabilidade geral do documento no qual este provérbio ou evento em particular é relatado. Esses mesmos "critérios" são, portanto, aplicáveis a relatos de Jesus encontrados nos evangelhos apócrifos, ou escritos rabínicos, ou mesmo o Alcorão. Claro que, se pode ser mostrado que os Evangelhos vieram de seus autores reconhecidos ou que são documentos confiáveis no geral, tanto melhor! Mas os "critérios" não dependem de tal pressuposto. Eles servem para ajudar a detectar grãos de milho históricos, mesmo no meio do joio histórico.

Além disso, um dos mais importantes desenvolvimentos em estudos do Novo Testamento tem sido a identificação das fontes históricas por trás dos documentos do Novo Testamento. Um dos exemplos mais dramáticos é a fórmula de tradição de quatro linhas sobre os eventos centrais da paixão e ressurreição de Jesus que Paulo repassou ​​para a igreja que ele havia fundado em Corinto, na Grécia. Paulo escreveu aos Coríntios:

Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, 4 e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, 5 e que foi visto por Cefas e depois pelos doze (I Cor. 15:3-5).

Estas linhas estão repletas de semitismos e características não-paulinas que têm convencido eruditos de que Paulo não está aqui escrevendo livremente, mas, como ele diz, entregando uma tradição que ele mesmo tinha recebido, uma tradição que quase todos os eruditos datam para os primeiros anos após a crucificação de Jesus. Assim, a autoria e a data da carta de Paulo (que é indiscutível de qualquer forma) tornaram-se bastante secundárias; o que é fundamental é que nós temos aqui uma fonte extraordinariamente antiga descrevendo os eventos centrais da paixão e ressurreição de Jesus.

Os leigos que não entendem o método histórico, por vezes, exigem fontes para a vida de Jesus fora do Novo Testamento - como se um documento sendo posteriormente recolhido em uma antologia de alguma forma impugna sua credibilidade histórica! Não importa; o que vemos agora é que existem tais fontes, mas que os mais importantes não são aqueles que vieram depois dos documentos do Novo Testamento, como os testemunhos de Josefo ou Tácito, mas sim aqueles que vieram antes dos documentos do Novo Testamento serem escritos e foram usados ​​pelos autores do Novo Testamento.

Finalmente, quando você pensa sobre isso, os nomes dos autores dos Evangelhos são bastante insignificantes. No máximo, o que importa é que o autor, seja chamado Lucas ou José ou Herkimer ou o que você quiser, estava em uma posição para fornecer informações historicamente confiáveis ​​sobre o Jesus histórico. Por isso, considere Lucas. Lucas é o autor reconhecido de uma obra em duas partes: o Evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos. Estas são na verdade uma obra e são separadas em nossas Bíblias somente porque a igreja depois agrupou os Evangelhos juntos no Novo Testamento. Lucas é o evangelista que escreve mais conscientemente como um historiador. No prefácio de sua obra, ele escreve:

Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelentíssimo Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio, para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado (Lucas 1:1-4).

Este prefácio é escrito no estilo do grego clássico, tal como foi usado por historiadores gregos; depois disso Lucas muda para um grego mais comum. Mas ele colocou o seu leitor em estado de alerta que ele pode escrever, se ele quiser, como o douto historiador. Ele fala de sua longa investigação da história que ele está prestes a contar e assegura-nos que é baseada em informações de testemunhas oculares e que, portanto, é confiável.

Agora, quem foi o autor a quem chamamos de Lucas? A partir do que ele diz, ele claramente não foi uma testemunha ocular da vida de Jesus. Mas descobrimos um fato importante sobre ele a partir do livro de Atos. A partir do capítulo 16 de Atos, quando Paulo chega a Trôade, na atual Turquia, o autor de repente começa a usar a primeira pessoa do plural: "nós partimos de Trôade para a Samotrácia", "nós permanecemos em Filipos alguns dias", "ao irmos para o lugar de oração ", etc. A explicação mais óbvia é que o autor havia se juntado à comitiva de Paulo em sua turnê evangelística nas cidades do Mediterrâneo. No capítulo 21, ele acompanha Paulo de volta à Palestina e, finalmente, a Jerusalém. O que isto significa que o autor de Lucas-Atos estava, de fato, em contato em primeira mão com as testemunhas oculares da vida e ministério de Jesus em Jerusalém.

Críticos céticos têm dado voltas para tentar evitar esta conclusão. Eles já disseram, por exemplo, que o uso da primeira pessoa do plural em Atos não deve ser tomado literalmente; é apenas um artifício literário que era comum em histórias antigas de viagem marítima. Não importa que muitas das passagens em Atos não são sobre a viagem marítima de Paulo, mas ocorram em terra! O ponto mais importante é que essa afirmação, ao você checar, acaba sendo pura fantasia. Simplesmente não há um antigo artifício literário de viagens marítimas em primeira pessoa do plural - a coisa toda foi demostrada ser uma ficção científica. Não há nenhuma razão para negar que Lucas-Atos foi escrito por um companheiro de viagem de Paulo, que teve a oportunidade de entrevistar testemunhas oculares da vida de Jesus enquanto em Jerusalém.

Quem eram algumas dessas testemunhas oculares? Talvez possamos obter alguma pista subtraindo do Evangelho de Lucas tudo o que é encontrado nos outros evangelhos e vendo o que é peculiar a Lucas. O que você descobre é que muitas das narrativas peculiares de Lucas estão ligadas a mulheres que seguiam Jesus: pessoas como Joana e Suzana e significativamente Maria, a mãe de Jesus.

O autor era confiável em conseguir a verdade dos fatos? O livro de Atos nos permite responder a essa pergunta de forma decisiva. Pois Atos sobrepõe-se significativamente com a história secular do mundo antigo e a exatidão histórica de Atos é indiscutível. Isto tem sido demonstrado novamente por Colin Hemer, um erudito que se voltou para estudos do Novo Testamento, em seu livro The Book of Acts in the Setting of Hellenistic History [O livro de Atos no Ambiente da História Helenística] (Tübingen: JCB Mohr, 1989). Hemer atravessa o livro de Atos com um pente fino, puxando uma riqueza de detalhes históricos, que vão desde o que teria sido de conhecimento comum até detalhes que só uma pessoa local saberia. Repetidas vezes a precisão de Lucas é demonstrada: desde as navegações da frota de milho alexandrina até o terreno costeiro das ilhas para os títulos peculiares e modificados dos oficiais locais, Lucas acerta.

De acordo com o historiador clássico A.N. Sherwin-White "Para Atos a confirmação da historicidade é esmagadora. Qualquer tentativa de rejeitar a sua historicidade básica, mesmo em questões de pormenores deve agora parecer absurdo."1 O julgamento de Sir William Ramsay, um arqueólogo mundialmente famoso, ainda permanece: "Lucas é um historiador de primeira categoria [...] Este autor deve ser colocado juntamente com os melhores dos historiadores."2 Dado o cuidado do autor e confiabilidade demonstrada, bem como seu contato com testemunhas oculares dentro da primeira geração após os eventos, este homem pode ser confiável quando se trata de questões na vida de Jesus que não gozam de confirmação independente.

Este último ponto demonstra que ter algum conhecimento de autores dos Evangelhos pode, na verdade, ser útil. Mas a questão permanece: não é crucial.



Notas:

1 A. N. Sherwin-White, Roman Society and Roman Law in the New Testament (Oxford: Clarendon Press, 1963), p. 189.

2 William M. Ramsay, The Bearing of Recent Discovery on the Trust worthiness of the New Testament (London: Hodder & Stoughton, 1915), p. 222.

- William Lane Craig