#100 Comentários Pré-Debate de Richard Carrier
August 3, 2014Querido Dr. Craig,
Espero que tudo esteja bem. Obrigado por tudo o que você faz por Cristo. Richard Carrier está dizendo algumas coisas negativas (que eu tenho certeza que você já está acostumado) a respeito de seu próximo debate com ele, dia 18 de março no site dele. Ele diz o seguinte.
Irei citar suas exatas palavras a respeito:
[Afirmação de Craig:] "Eu proponho a pergunta direta 'Jesus ressuscitou dos mortos?' A razão pela qual prefiro este tópico em vez da confiabilidade dos Evangelhos é porque (1) uma defesa para a historicidade da ressurreição de Jesus não depende da confiabilidade geral dos Evangelhos, e (2) sendo mais estreito em sua esfera, o tópico é mais manejável em um debate de uma hora e meia.”
Vejo (1) e (2) como evidentemente falsos, na verdade totalmente ilógicos. Mas se ele quer ser ilógico, isso funciona para mim. Também acho curioso seu uso da palavra “prefiro” para o que foi na verdade uma recusa. Entenda como você quiser.
Quanto à (2), defender a ressurreição requer o estabelecimento de numerosas premissas, incluindo a confiabilidade das narrativas dos Evangelhos, e a viabilidade de explicações miraculosas para evidências comuns, e a autenticidade, significado e confiabilidade de passagens nas epístolas, e assim por diante, e é, portanto, uma esfera maior, e não mais estreita. A confiabilidade histórica dos Evangelhos foca apenas nos Evangelhos e as evidências dentro deles (e da área histórica), quanto a se podemos confiar no que eles dizem, o que é necessariamente mais estreito em esfera do que qualquer argumento que requer primeiro o estabelecimento de que podemos confiar no que eles dizem. Quanto a (1), se os Evangelhos não são confiáveis de forma geral, então qualquer coisa que eles dizem sobre as alegações mais controversas, e a ressurreição é justamente uma destas, portanto não é logicamente possível fazer “uma defesa para a ressurreição de Jesus” sem uma defesa de que “os Evangelhos são confiáveis de forma geral” (a menos que ele pretende fazer uma defesa sem, em qualquer momento, apelar para os Evangelhos, o que parece improvável).
Eu digo isso aqui, pois eu posso não fazer caso de mencionar esses pontos no próprio debate, exceto ao simplesmente falar porque nós não podemos confiar no que os Evangelhos dizem. Também já tenho sido perguntado sobre isso muitas vezes, já que Craig aparentemente estava vazando detalhes da nossa negociação, então é melhor eu falar aqui o que eu já disse para muitas pessoas por e-mail.
Como você vê estas asserções? Obrigado
Jonathan
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Dr. craig’s response
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Eu já havia visto estes comentários, Jonathan, e acho que são devidos à má compreensão, somente isso. Quanto Landon Hedrick de Northwest Missouri State convidou-nos para participar em um debate, Richard colocou três tópicos que ele estava disposto a debater: (1) “Fatos Morais São Evidências Para Deus?”, (2) “Deus Se Importa Conosco?”, e (3) “Os Evangelhos São Historicamente Confiáveis?” Ele não queria debater a historicidade da ressurreição de Jesus sem antes discutir a última pergunta. Já que eu pensei, pelas duas razões colocadas acima, que a confiabilidade histórica dos Evangelhos era um tópico ruim para debate, escolhi o tópico dele sobre os fundamentos da moralidade. Depois de um tempo, porém, pessoas demonstraram tamanho desapontamento com esse tópico que Richard cedeu e concordou em debater a historicidade da ressurreição de Jesus com a condição que eu publicaria uma homologação que ele poderia citar do porquê eu havia declinado de debater a confiabilidade histórica dos Evangelhos. (Acho interessante a reclamação de Richard de que eu estava “vazando” detalhes das nossas negociações. Quando pessoas me perguntavam por que nós não estávamos debatendo a ressurreição, eu apenas contava, como eu imagino que Richard fez. Eu não estava ciente que nossas “negociações” eram segredo de estado!)
Então eu concordei em ir com o novo tópico e publiquei a homologação citada acima. Meu uso da palavra “prefiro” foi meramente para expressar minha preferência entre os tópicos oferecidos para mim para o debate. Foi dada uma escolha, e eu a fiz. Foi Richard que se recusou a debater a ressurreição, até que ele sentiu pressão o suficiente para fazê-lo.
Será que as minhas razões para preferir o tópico da ressurreição ao tópico da confiabilidade histórica dos Evangelhos foram ilógicas? Eu acho que não. Com respeito a (1), quando Richard diz, “defender a ressurreição requer o estabelecimento de numerosas premissas, incluindo a confiabilidade das narrativas dos Evangelhos,” ele precisa acrescentar, “com respeito a eventos específicos” (a menos que, como ele diz, alguém planeje fazer uma defesa para a ressurreição de Jesus sem apelar para os Evangelhos, como meu mentor doutoral, Wolfhart Pannenberg, de fato faz[1]). Se você vai apelar para os Evangelhos para construir o seu caso, então obviamente você precisa mostrar que os Evangelhos são confiáveis com respeito a eventos específicos que você está dizendo que são históricos. Mas uma defesa para a historicidade de eventos específicos subjacentes à inferência da ressurreição de Jesus não depende de estabelecer a confiabilidade histórica dos Evangelhos em geral. Esta verdade é o fundamento do método crítico-histórico. A tarefa do historiador crítico é a de peneirar o trigo do joio a fim de descobrir o cerne da verdade histórica contida em um documento.
Richard sabe disso. Ele escreve, “Não há história antiga que seja completamente acurada sem mentiras, distorções, ou erros. Qualquer historiador qualificado hoje concorda com isso. É um princípio universal aceito pela comunidade profissional que nenhuma obra antiga é infalível” ("Was Christianity Too Improbable to Be False?" [“O Cristianismo Era Improvável Demais para Ser Falso?”]). Infelizmente, muitos cristãos e “infiéis” também estão com a impressão errada de que demonstrar um erro nos Evangelhos invalida todo seu testemunho, o que é um absurdo. Como Richard coloca, até mesmo os melhores historiadores antigos, como Tácito, Políbios e Ariano, colocam informação falsa, e até mesmo obras de historiadores como Heródoto e Suetônio, que não estão no alto nível daqueles autores, ainda proveem informação histórica valiosa com respeito a eventos específicos.
Uma ilustração com respeito a Jesus são os Evangelhos apócrifos. Esses documentos, geralmente não confiáveis, incorporam muitas lendas e fabricações fantasiosas. Apesar disso, eles também contêm partes históricas, por exemplo, que Jesus de Nazaré morreu por crucifixão romana. Em sua época menos radical (antes de ele pensar que Jesus de Nazaré nunca existiu), Richard escreveu com respeito aos Evangelhos, “Poucos duvidam que Jesus, outros personagens e outros detalhes culturais, geográficos do texto formam um “núcleo histórico” genuíno digno de exploração para encontrar dados. Essa geralmente não é a pergunta.”("William Craig, Herodotus, and Myth Formation" [“William Lane Craig, Heródoto e Formação de Mitos”]). De fato, até mesmo o Richard de hoje em dia, provavelmente, concordaria com essa afirmação - somente agora ele se encontra entre aqueles poucos extremistas. A existência daquele núcleo histórico não depende da confiabilidade geral dos Evangelhos.
Na verdade, quando você pensa a respeito, é viciosamente circular e, portanto, ilógico requerer o estabelecimento da confiabilidade geral de um documento a fim de estabelecer sua confiabilidade com respeito a um evento específico. Pois, como alguém poderia demonstrar a confiabilidade geral de um documento, exceto demonstrando sua confiabilidade em um bom número de eventos específicos? Suponha que nós descobríssemos um documento histórico antigo anteriormente desconhecido, e nós queremos saber se é confiável nos eventos que descreve. A fim de estabelecer a confiabilidade histórica geral nós teríamos que mostrar que é confiável nas várias especificações que ele descreve. Requerer que nós primeiro estabeleçamos sua confiabilidade geral nos levaria ao cenário “Qual veio primeiro? A galinha ou o ovo?” Claramente, o específico vem primeiro, de onde a confiabilidade geral é inferida.
Então quando Richard alerta, “se os Evangelhos não são confiáveis de forma geral, então qualquer coisa que eles dizem sobre as alegações mais controversas, e a ressurreição é justamente uma delas,” vejoalgumas confusões aqui.
Primeiro, dizer que uma defesa da ressurreição de Jesus não depende em primeiro estabelecer a confiabilidade geral dos Evangelhos, não é dizer que os Evangelhos são, de fato, geralmente não confiáveis! Isto é um non sequitur óbvio. É simplesmente dizer que não precisamos estabelecer a confiabilidade geral de um documento antes de estabelecer que aquele documento relata, de forma confiável, um evento específico.
Segundo, mesmo que falte confiabilidade geral em um documento, isso não implica que não possamos confiar no que diz sobre algum evento específico, a menos que seja por “confiança”. Richard está implicando algum tipo de aceitação sem critério das afirmações de um documento. Esse tipo de confiança não é um problema aqui. Historiadores do Novo Testamento têm desenvolvido um bom número de critérios de autenticidade para discernir o que é histórico sobre Jesus, tais como os múltiplos testemunhos, dissimilaridade com ensinamentos cristãos, semitismos linguísticos, traços de pano de fundo Palestino, retenção de material embaraçoso, coerência com outros materiais autênticos e assim por diante.[2] Esses critérios não pressupõem a confiabilidade geral dos Evangelhos. Eles focam em um evento particular ou dito de Jesus e proveem evidência para pensar que aquele elemento específico da vida de Jesus é histórico, independente da confiabilidade geral do documento em que um dito ou evento particular está relatado. Esses mesmos critérios são, portanto, aplicáveis aos relatos de Jesus encontrados nos Evangelhos apócrifos, ou escritos rabínicos, ou até mesmo no Qur'an. É claro, se os Evangelhos conseguem ser provados por documentos confiáveis no geral, melhor ainda! Mas o critério não depende de tal pressuposição. Richard pode defender sua afirmação acima ao enfatizar a palavra “controverso.” Mas, então, a afirmação dele torna-se trivial. Obviamente, falando historicamente, não podemos confiar em asserções em um documento não confiável de forma geral se eles falham nos critérios. A pergunta é, asserções específicas se apropriam dos critérios?
Pegue, por exemplo, a crucifixão de Jesus. Totalmente à parte da confiabilidade histórica geral dos Evangelhos, esse fato específico sobre Jesus de Nazaré é reconhecido como tão firmemente estabelecido até o ponto de ser indisputado. De fato, o acadêmico eminente do Jesus histórico John Meier considera-o tão certo que se torna, por si só, um dos critérios de autenticidade para julgar a historicidade de outros eventos da vida de Jesus. A confiança de Meier na historicidade da crucifixão de Jesus não tem nada a ver com a confiabilidade histórica geral dos Evangelhos. Ele explica:
Por dois motivos óbvios praticamente ninguém negaria o fato de que Jesus foi executado por crucifixão: (1) Esse evento central é reportado ou mencionado não somente pela maioria dos autores do Novo Testamento, mas também por Josefo e Tácito.... (2) Tal evento embaraçoso criou um grande obstáculo para converter judeus e gentios... que a igreja se esforçou para superar....[3]
O primeiro ponto é uma aplicação do critério de múltiplos testemunhos e o segundo do critério do embaraçamento. É claro que Meier não aceita a crucifixão porque os Evangelhos têm sido provados como historicamente confiáveis de forma geral. Qualquer um que pensa que os historiadores do Novo Testamento pressupõem a confiabilidade geral dos Evangelhos somente revela sua ingenuidade sobre como a crítica do Novo Testamento funciona.
Terceiro, Richard engana-se quando ele diz que a ressurreição é um daqueles eventos controversos. Pois, como tenho enfatizado (veja Pergunta da Semana #98), os fatos fundamentando a inferência da ressurreição de Jesus, tal como a tumba vazia e as aparições pós-morte, não são controversos, mas fazem parte de um núcleo histórico reconhecido pela grande maioria dos historiadores de Novo Testamento, hoje. Eu entendo que isso é difícil para aqueles de vocês do público “infiel” sondar, mas é verdade. São vocês que estão nadando contra a correnteza do academicismo; eu estou confortavelmente a favor da correnteza. Se alguém está disposto a afirmar a ressurreição de Jesus como a melhor explicação dos fatos depende mais na disposição em ter a cosmovisão sobrenatural do que em considerações históricas.
Quanto ao ponto (2), uma discussão da confiabilidade geral dos Evangelhos, em vez de alguns eventos específicos relatados neles, é, obviamente, mais abrangente em escopo. Por que deveríamos ficar atolados em um debate sobre a historicidade das narrativas do nascimento ou da data da Última Ceia e assim por diante, quando nada sobre a ressurreição está preso à confiabilidade desses relatos? Como tópico para debate, a confiabilidade geral dos Evangelhos seria tão abrangente até ser intratável. Imagine ter que discutir a confiabilidade geral não só de um dos Evangelhos, ou mesmo dos Sinóticos, mas de todos os quatro! É muito melhor focar na confiabilidade histórica dos Evangelhos com respeito a um evento específico relativo à ressurreição de Jesus.
[1] Wolfhart Pannenberg, Jesus: God and Man , trad. L. L. Wilkins e D. Priebe, (London: SCM Press, 1968), pp. 88-106.
[2] Para discussões úteis, veja Robert H. Stein, "The Criteria for Authenticity," em Gospel Perspectives I, ed. R.T. France e David Wenham (Sheffield, England: JSOT Press, 1980), pp. 225-63; Craig A. Evans, "Authenticity Criteria in Life of Jesus Research," Christian Scholar's Review 19 (1989): 6-31.
[3] John Meier, "The Circle of the Twelve: Did It Exist during Jesus' Public Ministry?" Journal of Biblical Literature 116/4 (1997): 664-5.
- William Lane Craig