#96 Verdade Lógica e Onipotência
August 3, 2014Tenho uma pergunta sobre a onipotência e necessidade. Em seus escritos, debates e ensinamentos, você segue a definição de onipotência de Flint e Freddoso. É uma questão chave para a definição deles que Deus não pode realizar situações logicamente impossíveis, assim como criar um quadrado redondo.
Quando usei esta definição de onipotência em uma discussão com um ateu, ele respondeu com um tipo de objeção de Eutífron. Ele disse que o teísta deve escolher entre duas opções. A primeira é que Deus decide as “leis” fundamentais da lógica e da matemática. Se isso é verdade, então, por Descartes, verdades fundamentais da lógica e matemática são contingentes. Isso quer dizer que elas poderiam ter sido diferentes. Portanto, 2+2 poderia ter sido igual a 3. Ou “A” poderia ter sido “não-A” na mesma hora e da mesma forma. A segunda opção é que as leis fundamentais da lógica e matemática não poderiam ter sido diferentes e, portanto, são verdadeiramente necessárias, porque elas não poderiam ser diferentes. Se isso é verdade, então as verdades fundamentais da matemática e da lógica existem de alguma forma (como objetos abstratos) e Deus é sujeito a elas.
Parece inconcebível para mim que a primeira opção seja verdade porque não consigo nem mesmo pensar em 2+2=3, e que a lei da não-contradição não seja verdade, porque eu tenho que presumir a lei da não-contradição a fim de negá-la. Então, a primeira opção parece que precisa ser rejeitada, porque leva a absurdos. Se a segunda opção é verdade, então a soberania de Deus parece contestada porque Deus é forçado a obedecer a algo externo a Si mesmo.
Porque esse dilema é tão parecido com o dilema de Eutífron, no contexto do argumento moral, minha intuição é de dividir as opções ao apelar para a possibilidade de uma terceira via tal como: “Deus deseja que a lei da não-contradição (etc.) seja obtida porque ela é consistente com Sua natureza.” Dessa forma, as leis não são contingentes ou externas a Deus. Mas essa terceira opção oferecida parece ser menos plausível para mim do que no contexto do argumento moral. Você poderia lançar luz nisso para mim? Obrigado.
Ryan
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Dr. craig’s response
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A fim de prover um pano de fundo para aqueles que não estão familiarizados com o assunto desta pergunta, o artigo por Thomas Flint e Alfred Freddoso chama-se "Maximal Power," [Poder Máximo] que está republicado em minha ontologia Philosophy of Religion: a Reader and Guide [Filosofia da Religião: um Livro de Leitura e Guia] (New Brunswick, N. J.: Rutgers University Press, 2002). É uma análise brilhante do conceito de onipotência. (Uma anedota interessante: quando eu estava visitando Notre Dame para uma conferência, há alguns anos, perguntei a Tom e Fred, no almoço, por que eles haviam chamado seu artigo “Poder Máximo” em vez de o termo mais familiar “onipotência.” Depois de eles me explicarem que eles estavam simplesmente querendo colocar algo variado, Fred então me perguntou o que eu achava do título “Grande Deus Todo-Poderoso.” Aparentemente esse era o título de sua predileção, mas Tom estava preocupado que fosse soar, como ele colocou, “irreverente”. Eu nunca havia escutado de alguém estar preocupado com algo soar irreverente antes, mas eu comecei a ver a então consciência cristã de Tom.)
A primeira opção do dilema do seu amigo tem sido chamada de “possibilismo universal”, por Alvin Plantinga. Ela afirma que não existem verdades necessárias. Apesar de defendida por Descartes, tem sido corretamente rejeitada por quase todos os outros filósofos cristãos. Pois simplesmente se pergunte: a proposição Não existem verdades necessárias, por si mesma, é uma verdade necessária ou não? Se sim, então a posição é auto-refutável. Se não, então aquela proposição é possivelmente falsa, o que quer dizer, Deus poderia ter feito com que houvesse verdades necessárias. Usando semântica de mundos possíveis, podemos dizer que existe, portanto, um mundo possível, em que Deus faz com que existam proposições que são verdade em todos os mundos possíveis. Mas se existem tais proposições, então não existe um mundo em que não existem proposições verdadeiras em todo mundo possível, isto é, não é possível que não haja verdades necessárias, o que contradiz o possibilismo universal.
Além do mais, a posição de Descartes é inacreditável. Ela pede que acreditemos, por exemplo, que Deus poderia ter criado todos nós sem que Ele tenha existido, isto é, existe um mundo possível em que Deus não existe e Ele criou todos nós. Isto é simplesmente absurdo.
Deve haver, portanto, verdades necessárias. Porém, isso não quer dizer que da necessidade de verdades da lógica e matemática que “as verdades fundamentais da matemática e lógica existem de alguma forma (como objetos abstratos) e Deus está sujeito a elas,” como seu amigo infere. Na verdade, como você colocou corretamente, o cristão deveria dizer que as verdades necessárias da lógica (e talvez da matemática) simplesmente são representações da forma como a mente de Deus pensa essencialmente. Teologicamente, tal doutrina se encaixa perfeitamente com o prólogo do Evangelho de João com Cristo sendo o Logos de Deus.
Porém, não há necessidade de introduzir considerações a respeito da vontade divina. Na teoria da ética isso é necessário porque o que constitui uma obrigação moral é um imperativo divino. Mas com respeito às leis da lógica, não existe um aspecto imperativo. Elas são simplesmente descrições de como Deus raciocina necessariamente.
- William Lane Craig