#219 Crenças dos Budistas
October 28, 2014Prezado Dr. Craig,
Eu tenho sido um ávido seguidor do seu trabalho por alguns anos e fui completamente convencido por seus argumentos apoiando o teísmo cristão. Eu vi você defender quase todos os argumentos contra o teísmo que valem a pena defender e estou interessado em ver você responder às perguntas abaixo. Recentemente concluí a leitura do livro "O Quantum e o Lotus" por Matthieu Ricard e Trinh Xuan Thuan. O livro oferece uma visão de mundo e explicações cosmológicas baseada no budismo e os paralelos com a ciência que o budismo apresenta. No quarto capítulo do livro, que começa na página 37 intitulado "Em Busca do Grande Relojoeiro" os autores fornecem um argumento sólido, pelo menos no papel, que o universo nunca teve um começo e sempre existiu, não necessariamente como um universo de estado constante, mas como um universo cíclico que vem a ser e morre, e faz isso diversas vezes, por toda a eternidade. Neste capítulo, os autores apresentam alguns argumentos principais contra a existência de DEUS. Para que você identifique alguns argumentos eu os escrevi em forma de itens e estou citando diretamente do livro.
1) O fato de que nossa existência parece ser codificada em cada parte do universo só mostra o quão compatível somos com o mundo físico. Mas isso não significa que você pode dizer que isso é verdade porque havia alguma intenção para estarmos aqui.
2) O ajuste fino aparentemente surpreendente é explicado simplesmente pelo fato de que as constantes físicas e consciência sempre coexistiram em um universo que não tem começo nem fim.
2.1) As condições de nosso universo atual harmonizam-se com as dos anteriores e posteriores, porque o processo de casualidade é ininterrupta e implica uma compatibilidade entre a natureza da causa e do efeito.
2.2) O problema com o Princípio Antrópico, ou qualquer outra teoria teleológica, é que ele coloca as constantes antes da consciência e, assim, afirma que as constantes existem apenas para que elas possam criar consciência. O princípio antrópico se resume a pegar duas metades de uma noz e dizer: "É incrível, parece que estas duas peças foram desenhadas para se encaixar perfeitamente juntos"
3) Mas quem é este criador? De onde ele vem? A partir de um criador de Criadores? Se não, então ele deve ser sua própria causa. Um efeito, ou um resultado, não pode ser a sua própria causa.
4) Por que uma cadeia de causas não poderia ser infinita no tempo e complexidade? Que lei da natureza isso contradiz?
5) Deus deve ser ou imutável, e, portanto, incapaz de criar, ou então ele está dentro do tempo e, portanto, não é imutável. Esta é uma das contradições a que a noção de uma causa primária leva.
5.1) Em primeiro lugar, uma causa principal deve ser imutável. Por quê? Porque, por definição, não tem outra causa a não ser ela mesma, por isso não tem motivos para se tornar diferente. Mudança implica a intervenção de uma outra causa que não fazia parte da causa principal.
5.2) Como uma entidade imutável poderia criar algo? Se há um ato de criação, o criador está envolvido ou não? Se ele não está, por que o chamam de "Criador"? Se ele está envolvido, então porque a criação inevitavelmente ocorre em etapas, o algo ou alguém envolvido nessas etapas não é imutável.
6) Se o princípio decidiu criar, então temos de reconhecer que não pode ser todo-poderoso, porque ele foi influenciado pelo desejo de criar. Se você então discutir de outra forma e disser que o princípio não chegou a decidir criar, então você deve admitir que o princípio não é todo-poderoso porque criou sem decidir criar. Portanto, não era livre para criar ou não criar.
6.1) Este princípio também não pode ser atemporal, ou imutável, porque, como vimos, no processo de criar irá, necessariamente, se alterar. Passou de ter o desejo de criar e de ter feito isso, e, portanto, não teria mais o desejo da mesma forma. Criação implica mudança - há um ato criativo. depois de criar o princípio não seria mais o mesmo de antes quando não era um criador e depois era. O princípio, assim, perdeu a sua imutabilidade.
E o resto dos argumentos são apresentados nas páginas 56 e 57 do livro.
Tenho a certeza, você vai ter as respostas e explicações para os argumentos acima e eu estou interessado em ouvi-los. Antes de concluir peço desculpas pela extensão da pergunta, mas realmente estou precisando de respostas. Muitos do Sri Lanka e eu estamos aguardando sua resposta.
Obrigado,
Dinuka
<ul><li>Sri Lanka</li></ul>
Dr. craig’s response
A [
Dr. Craig responde:
Crenças dos Budistas
Estou contente por ter uma pergunta do Sri Lanka sobre uma crítica budista do teísmo. Mas eu tenho que confessar que estou bastante preocupado, Dinuka, pelo fato de que você descreve a si mesmo como um "ávido seguidor do [meu] trabalho por alguns anos", que "foi completamente convencido por [meus] argumentos de apoio ao teísmo cristão" e "[me] viu defender quase todos os argumentos contra o teísmo que valem a pena defender"- e ainda assim, aparentemente, não se sente preparado para responder a essas acusações! Já que eu já respondi a maioria dessas acusações no meu trabalho publicado e você menciona tantas objeções, eu vou dar respostas muito breves juntamente com referências onde as respostas mais completas podem ser encontradas. (Se esta literatura não está disponível para você, a maioria das respostas estão no meu livro Reasonable Faith, 3a ed. Rev. (Wheaton, Illinois: Crossway, 2008).
Indo simplesmente com base em seus resumos, eu deveria dizer:
1. Considero esta uma objeção ao argumento do ajuste fino por um Designer Cósmico. A pergunta, porém, é a melhor explicação para a compatibilidade do universo com a nossa existência. Design é uma explicação melhor do que necessidade física ou acaso. Veja Robin Collins, “The Teleological Argument: An Exploration of the Fine-Tuning of the Universe,” [O argumento teleológico: Uma Exploração do ajuste fino do Universo], em The Blackwell Companion to Natural Theology, ed. Wm. L. Craig e J. P. Moreland (Oxford: Wiley-Blackwell, 2009), pp 202-281.
Crenças dos Budistas - Os problemas com um modelo de universo oscilante
2. Meramente estender a consciência e as constantes físicas de volta ao passado infinito não faz absolutamente nada para explicar a sua existência ou harmonia. De qualquer forma, a evidência indica que a consciência nem sempre existiu no universo; as evidências também não indicam que o universo existe sem começo, não obstante os modelos cíclicos. Veja William Lane Craig e James Sinclair, “The Kalam Cosmological Argument,” [O Argumento Cosmológico Kalam], em The Blackwell Companion to Natural Theology, ed. Wm. L. Craig e J. P. Moreland (Oxford: Wiley-Blackwell, 2009), pp 101-201.
2.1 Curiosamente, essa continuidade é negada por aqueles que postulam transições físicas quânticas entre os ciclos.
2.2 O Princípio Antrópico é uma negação da teleologia, não uma expressão dela! Em todo o caso, por que é um "problema" dizer que as constantes foram projetadas assim de forma que a consciência pudesse surgir no universo? Eu não entendo a analogia da noz de jeito nenhum. Presumivelmente, a pergunta no caso da noz é inapta, porque as duas metades não são independentes, mas têm uma origem causal comum. Mas, no caso de ajuste fino, eu não vejo o que é supostamente análogo às duas metades. As constantes e consciência? Isso não faz sentido, uma vez que a questão não é por que temos consciência correlacionada com estes valores das constantes, mas por que as constantes têm valores que permitem a vida em primeiro lugar.
Crenças dos Budistas - A natureza de Deus
3. O Criador é sem começo, não causado, imaterial, sem espaço, atemporal, extremamente poderoso, incompreensivelmente inteligente, Criador pessoal e Designer do universo. Ele não veio de nenhum lugar. Isso não quer dizer que ele é auto-causado, mas que ele é desprovido de causa (e, de forma plausível, metafisicamente necessário).
4. Ver meus argumentos filosóficos contra uma regressão infinita de eventos no artigo Blackwell Companion. A lei da natureza contrariada por um universo eterno no passado é a Teoria da Relatividade Geral (gravidade). Mesmo uma teoria da gravitação quântica parece implicar um começo do universo. Veja novamente o Blackwell Companion.
5. Este é um falso dilema. Deus existindo só sem o universo pode ser sem mudança, mas não imutável. (Imutabilidade é a propriedade modal de ser incapaz de mudar; sem mudança é uma mera propriedade de fato.) Ele começa a mudar no momento da criação. Alternativamente, Deus poderia existir sem mudança antes da criação em uma espécie de tempo não-métrica amorfa, em que intervalos temporais não poderiam ser distinguidos. Ver o meu Time and Eternity: Exploring God’s Relationship to Time[Tempo e Eternidade: Explorando o Relacionamento de Deus com o Tempo] (Wheaton, Illinois: Crossway, 2001).
5.1 Um ser sem causa pode ter uma razão para mudar. Se é um agente libertário, ele pode mudar livremente sem ser causado por algo externo para o fazer. Essa é a essência do livre arbítrio.
5.2 Eu concordo com este argumento. Mas eu não acho que Deus é imutável. Ele é meramente sem mudança, sem criação. Veja mais em meu Time and Eternity.
Crenças dos Budistas - Deus pode exercer livre arbítrio
6. Deus decidiu criar livremente. Em qualquer explicação plausível de onipotência, a capacidade de agir sobre seus próprios desejos dificilmente é uma indicação de impotência! Ver Thomas P. Flint e Alfred J. Freddoso, "Maximal Poder" [Poder Máximo], The Existence and Nature of God [A existência e Natureza de Deus], ed. Alfred J. Freddoso (Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1983), pp 81-113.
6.1 Concordo que a causa do universo não pode ser imutável. Mas atemporalidade requer mera falta de mudança, não imutabilidade. Deus é essencialmente eterno (ou seja, permanente, sem começo nem fim), mas se Ele é temporal ou atemporal é uma propriedade contingente de Deus, dependente de se Ele cria um universo temporal ou não. Concordo plenamente que criar é um ato e que, no momento da criação Deus está em uma relação na qual Ele nunca esteve antes (não havendo "antes"!), ou seja, ser o criador do universo. Ele, portanto, não é sem mudança desde o momento da criação. Todos esses pontos eu já defendi, e são plenamente compatíveis com o teísmo bíblico. Nenhum desses suporta uma visão panteísta ou panpsíquico da realidade, como os seus autores parecem supor.
- William Lane Craig