#204 Duas Perguntas sobre o Argumento Ontológico
October 28, 2014Pergunta #1:
Olá Sr. Craig! Meu nome é Jakob e eu sou um grande fã seu, da Suécia. Sou um estudante de filosofia de 22 anos que realmente tem sido incentivado por seu trabalho. Até mesmo comecei um blog de apologética para adolescentes suecos este outono, para espalhar muitos dos argumentos que você apresenta (temos muito pouco dessas coisas aqui).
Minha pergunta é sobre o argumento ontológico. Surgiu nas primeiras palestras no curso de filosofia. O professor meramente mencionou o argumento, mas um aluno perguntou se era um argumento sólido ou não. Ele respondeu:
"Bem, hm... Não, claro que não. Você não pode justificar a existência de algo, apenas por definições puras."
Ele não estava ridicularizando o argumento nem nada, genuinamente estava mencionando o que ele realmente parecia pensar (saber) sobre o assunto. Eu perguntei se ele sabia se alguém iria usar seriamente esse argumento hoje em dia, e ele duvidava muito disso. Fiquei surpreso porque o professor é muito experiente. Como muitos apologetas cristãos usam esse argumento seriamente, eu percebi que ele não presta muita atenção à filosofia religiosa (infelizmente não é muito sério aqui).
Como soaria uma resposta adequada a sua declaração? A representação de Alvin Plantinga do argumento é diferente da apresentação original do mesmo (talvez o professor não tenha ouvido a versão renovada)?
Jakob
Suécia
Pergunta #2:
Caro Dr. Craig,
Sou um estudante na Universidade de Edimburgo, na Escócia, e sou freqüentemente sujeito a muita ridicularização por ser cristão. Você sabe que por aqui é bastante acreditado que "Nenhuma pessoa racional poderia ser religiosa." Por isso, naturalmente, as pessoas sempre ficam chocadas quando eu trago os seus argumentos e trabalho na apologética cristã para realmente proporcionar uma defesa racional da minha fé! Seu site tem sido de grande ajuda para mim dessa maneira.
Minha pergunta para você não é necessariamente uma que eu encontro em minhas discussões com ateus e não-cristãos na universidade aqui no Reino Unido, mas, sim, é uma reserva particular que tenho com o Argumento Ontológico Modal em favor da existência de Deus.
Especificamente, minha objeção diz respeito a definição de "Grandeza Máxima" de Alvin Plantinga em sua versão do argumento:
P1 "Uma coisa tem grandeza máxima se, e somente se, ela tem excelência máxima em todos os mundos possíveis."
Será que eu estaria certo em dizer, aqui, que Plantinga considera a existência necessária uma propriedade? É racional falar de um ser que "tem a propriedade de existir em todos os mundos possíveis"? Eu nem acho que é racional falar de coisas que têm "a propriedade de existência" neste mundo!
Afinal de contas, a existência não precede a essência, como dizem? Existência, então, não é uma propriedade que é tida por coisas que as torna reais, mas é a coisa que tem as propriedades em questão. Não faria sentido pedir a alguém para imaginar uma maçã, dizendo-lhe que ela tem as propriedades de vermelhidão, circularidade, comestibilidade, e assim por diante, apenas para acrescentar: "Ah, a propósito, ela também tem a propriedade de existência". É simplesmente absurdo! Que outro tipo de maçã eles poderiam ter imaginado? Como é uma "maçã inexistente"? É claro que uma maçã inexistente não se parece com nada, estou certo?
Na verdade, se quiséssemos continuar descrevendo ainda mais absurdos gerados por essa ideia de existência sendo uma propriedade, poderíamos nos perguntar: "Quantos unicórnios não existem na frente da tela do meu computador?" Existe um unicórnio não existente lá?
Eu considero a ideia da existência ou existência necessária como uma propriedade absurda em muitos níveis, e, portanto, considero um ser de Grandeza Máxima como um conceito incoerente. Portanto, isso contradiz a primeira ou a segunda premissa (eu acho, dependendo da versão) do Argumento Ontológico Modal que afirma que "é possível que um ser de Grandeza Máxima exista."
Obrigado por considerar a minha pergunta, pois os argumentos ontológicos, eu acho, são os argumentos teístas mais interessantes por aí. Aguardo a sua resposta!
Os melhores cumprimentos,
Payton
<ul><li>United Kingdom</li></ul>
Dr. craig’s response
A [
É muito bom ouvir de vocês dois! Jakob, eu pretendo estar na Suécia em uma turnê de palestras em universidade no próximo ano, então talvez eu vá ver você lá. Payton, eu vou estar no Reino Unido neste outono, embora não tão ao norte onde você está. Ambos estão em ambientes altamente secularizados, o que torna difícil ser cristão. Lembro-me que a última vez que estive na Suécia um dos meus adversários no debate, um proeminente filósofo sueco, informou-me de que não há filósofos cristãos que ensinam em qualquer universidade na Suécia! Isso pode fazer você se sentir muito isolado.
Então deixe-me tirar suas dúvidas em ordem. Eu acho que você provavelmente está correto, Jakob, em presumir que seu professor não está familiarizado com a literatura atual sobre o argumento ontológico. Pois obviamente há filósofos que defendem o argumento hoje. Em resposta a sua objeção que não se pode inferir a existência de algo por definições puras, tudo o que você precisa fazer é apresentar a versão atual do argumento ontológico de Plantinga:
1. É possível que um ser (Deus) de grandeza máxima exista.
2. Se é possível que um ser de grandeza máxima exista, então um ser de grandeza máxima existe em algum mundo possível.
3. Se um ser de grandeza máxima existe em algum mundo possível, então ele existe em todos os mundos possíveis.
4. Se um ser de grandeza máxima existe em todos os mundos possíveis, então ele existe no mundo real.
5. Portanto, um ser de grandeza máxima existe no mundo real.
6. Portanto, um ser de grandeza máxima existe.
7. Portanto, Deus existe.
Observe que o argumento de Plantinga não faz o que o seu professor alega: inferir a existência de algo a partir de sua definição. Pelo contrário, é baseado em uma premissa modal crucial de que é possível que um ser de grandeza máxima exista. Não se infere simplesmente a existência de tal ser de sua definição. Infere-se a sua existência a partir da possibilidade de que tal ser exista.
A objeção de seu professor pode ter sido relevante para versões mais antigas do argumento, mas a versão de Plantinga apropria o entendimento de G. W. F. Leibniz de que o argumento ontológico pressupõe que o conceito de Deus é possível, ou seja, coerente. As críticas de uma versão do argumento podem ser bastante inaplicáveis a outra versão.
Este mesmo ponto se aplica à sua apreensão, Payton. Algumas versões anteriores podem ter assumido que a existência é uma propriedade e assim estaria sujeita à crítica de Immanuel Kant de que existência não é uma propriedade, como você nos lembra. (Para ver minha própria concordância com você sobre isso, ver o meu artigo na American Philosophical Quarterly 34 [1997]: 27-40 "Estar presente é uma propriedade?".) Mas disso não segue que a existência necessária não é uma propriedade. Em qualquer caso, a versão de Plantinga não supõe que mesmo a existência necessária é uma propriedade. Ela supõe apenas que um ser é maior se ele existe necessariamente, ao invés de contingentemente. Isso me parece muito evidentemente verdadeiro. A ideia de um ser que é onisciente, onipotente e moralmente perfeito em todos os mundos possíveis parece perfeitamente coerente.
Por outro lado, se você estava certo de que é impossível que qualquer coisa exista necessariamente, então você teria uma refutação ontológica de números, conjuntos, proposições, propriedades e assim por diante, o que certamente é tão impressionante resultado quanto o argumento ontológico.
- William Lane Craig