#256 O Problema do Mal Mais um Vez
January 15, 2015Olá Dr. Craig,
Eu sou um ex-Cristão determinado - que gastou incontáveis horas debatendo agnósticos e ateus usando muitos de seus argumentos, assim como muitos dos meus próprios. Recentemente, minha fé foi danificada para dizer o mínimo.
Mas eu queria dar seguimento a sua resposta para a Pergunta # 255 sobre o mal, dor e sofrimento.
Primeiro, você costumam dizer que não há nenhuma boa razão para acreditar que Deus não tem uma razão importante por permitir a dor e o sofrimento neste mundo. Mas o ônus da prova cabe a você para mostrar ou dar uma razão significativa por que um Deus todo amoroso e todo poderoso permitiria certas dores e sofrimentos desnecessários? Dizer que Deus "pode" ter uma razão significativa é meio que tirar o corpo fora, você não acha? Por exemplo, se Deus tinha uma boa razão significativa para permitir que Hitler e seus capangas construíssem fornos de eliminação humana, então devemos o quê; regozijar-se que eles foram construídos com o selo de aprovação de Deus? Por que devemos ver esse ato como sendo desumano ou necessariamente mal, se Deus tinha uma razão significativa para permitir que isso aconteça? Parece-me que se Deus tinha uma razão significativa para permitir que isso acontecesse, então devemos nos alegrar de que a vontade de Deus foi feita.
Outro exemplo: a minha própria mãe faleceu recentemente após uma longa jornada com demência, a tal ponto que até no final sua mente não podia mais receber sinais de seu corpo para lhe dizer que ela estava morrendo de fome. Todos os médicos disseram que um tubo de alimentação só iria estender seu sofrimento prolongado. Como um recém-convertido ao agnosticismo é difícil encontrar uma razão importante por que um Deus todo-poderoso e todo amoroso permitiria que uma morte prolongada assim. Por favor, ofereça uma hipotética boa razão significativa? Afinal, o ônus da prova cabe a você para dar um bom exemplo de uma boa razão significativa por que essas coisas aconteceriam se tal Deus onipotente e amoroso existisse. Mais uma vez, devemos nos alegrar que Deus permite tanta dor e sofrimento, se de fato ele tem uma boa razão significativa para a sua ocorrência.
Para mim, isso também faz com que todo o conceito de oração pareça simplesmente ridículo; porque é difícil imaginar que tal Deus todo-poderoso e onisciente iria olhar para tanta dor e sofrimento, mas optar por apenas intervir se alguém ora direito. Você pode realmente imaginar que tal Deus olharia para baixo e diria: "Eu vejo que Mary está em uma enorme quantidade de dor, mas eu não irei intervir a menos que alguém ore, ou faça a oração certa". Mesmo a partir de nossa perspectiva, a resposta tem pelo menos 50% de chance de ser não, e Deus em sua presciência já saberia a resposta; assim, não haveria possibilidade de um resultado diferente de um determinado evento, independentemente se o mundo inteiro orasse unido. Portanto, parece-me que todo o conceito de oração é um conceito ridículo, vendo que um Deus todo-poderoso e todo amoroso teria intervindo em vez de permitir que tal dor e sofrimento durasse por meses desnecessariamente, e se há uma razão significativa para Deus permitir tal dor e sofrimento, então, ao invés de sentir empatia ou entristecer devemos o quê, se alegrar sabendo que Deus lhe permitiu sofrer por tanto tempo porque, sem dúvida, teve uma boa e significativa razão para prolongar o seu sofrimento? Desculpe, mas isso simplesmente não faz sentido!
Isso me leva ao meu último ponto: Por que um cristão perderia suas faculdades mentais só para tê-las revividas em um mundo futuro? Se o nosso espírito e consciência passam para este grande além, certamente, seria a própria mente que nós entretemos agora, caso contrário, se não há memória consciente deste mundo no futuro, então não temos nenhuma boa razão real para querer uma bem-aventurança celestial mais do que uma visão atéia do nada, pelo menos da nossa perspectiva atual da realidade; é isto! Por que eu deveria preferir o céu, se a mente que eu vou ter lá não será a mesma mente que eu tenho neste mundo? E se aquela mente pode ser iludida ou danificada além do pensamento racional e de consciência neste mundo, que esperança há de que existe um rejuvenescimento que nos espera no futuro? Eu acredito que o fato de que os circuitos da "consciência" do cérebro de alguém podem ser mexidos ou iludidos e danificados além de reparo, apesar da fé ou a falta dela é prova suficiente de que a mente ou a consciência não é eterna.
David
Estados Unidos
<ul><li>United States</li></ul>
Dr. craig’s response
A [
Meus pêsames, David, pela recente morte de sua mãe. Meu próprio pai faleceu de forma semelhante depois de ser reduzido a uma mera sombra de si mesmo pela doença de Parkinson (ou mal de Parkinson), e foi doloroso para mim assistir.
Mas, em meu trabalho sobre o problema do mal, eu achei muito útil distinguir entre o que eu chamo de problema emocional do mal e o problema intelectual do mal (Filosofia e Cosmovisão Cristã, capítulo 27). Não posso deixar de me perguntar se você não está lutando com o problema emocional do mal, David, uma vez que suas objeções, consideradas de forma puramente intelectual, não são muito substantivas, mas parecem ser baseadas em alguns mal-entendidos básicos.
Primeiro, e mais importante, você tem uma ideia errada do papel dialético do problema do mal no diálogo entre teísmo e ateísmo e, consequentemente, do ônus da prova. O problema do mal ou sofrimento é um argumento a favor do ateísmo que é oferecido como um obstáculo da alegação teísta que "Deus existe." O ateu quer provar que a declaração é falsa sob a base do mal no mundo. Portanto, cabe a ele apresentar um argumento que o mal no mundo é de alguma forma incompatível com a verdade de "Deus existe".
Ateus filosóficos tem entendido isso e por isso têm tradicionalmente oferecido argumentos no sentido de que o mal no mundo faz com que seja ou logicamente impossível ou improvável que Deus existe e que, portanto, Deus não existe. Como a pessoa que oferece o argumento, o ateu tem a obrigação de apoiar as premissas de seu argumento. Ele não pode simplesmente afirmá-las e, em seguida, exigir que o teísta refute-as, mais do que o teísta, quando ele oferece argumentos para a existência de Deus, pode apenas afirmá-las e exigir que o ateu as refute. Agora é a vez do ateu, e por isso, é ele quem tem que arcar com o ônus da prova. O teísta pode responder ao argumento do ateu quer tentando mostrar que as premissas dos ateus são falsas (um derrotador de derrotador da refutação (rebutting defeater-defeater)) ou então, tentando mostrar que as premissas do ateu não foram demonstrado como verdade (um derrotador de derrotador da subcotação (undercutting defeater-defeater)). Neste último caso, o teísta não precisa explicar por que Deus permite o mal, na verdade, (por que ele saberia disso?); ele vai simplesmente mostrar que o ateu não tem sido capaz de excluir que Deus tem razões moralmente suficientes para permitir que o mal ocorra.
Agora parte da minha resposta ao argumento do mal, defendida em minhas obras publicadas, é que o ateu faz julgamentos de probabilidade que são simplesmente além da nossa capacidade de fazer com qualquer tipo de confiança. Assim, por exemplo, se Deus tivesse evitado que Hitler chegasse ao poder, não temos ideia de como o curso da história mundial subsequente poderia ter sido. Talvez um habilitado e encorajado Josef Stalin teria forjado piores atrocidades (ele matou 11 milhões de ucranianos de fome para financiar seu estado marxista) e, eventualmente, mergulhado o mundo em guerra de qualquer maneira. Talvez haveria uma guerra nuclear por agora. Quem sabe? Da mesma forma, ninguém está em condições de saber como as mortes agonizantes da sua mãe ou como do meu pai podem afetar o curso da história mundial. Talvez Deus quer que o homem encontre a cura para as doenças e enfermidades que nos afligem, em vez de mexer constantemente com o mundo com intervenções milagrosas para curar as pessoas, assim como Ele quer que desenvolvamos encanadores e eletricistas e cientistas da computação, em vez de resolver os nossos problemas magicamente pelas constantes intervenções milagrosas no mundo, o que nos deixaria como crianças imaturas, em vez de agentes morais maduros. Mais especificamente, Deus poderia ter alguma razão providencial para o declínio lento da sua mãe. Talvez Ele sabia que iria causar-lhe a lutar com a sua fé e a emergir disto um cristão reforçado e mais maduro. Você não tem ideia do que Deus pode realizar através da morte de sua mãe. Seria presunção você pensar que foi em vão.
Agora, a sua resposta a isto não é negar o ponto - você tacitamente admite que Deus pode muito bem ter razões providenciais para permitir os terríveis males do mundo-, mas a sua resposta a isso, então, é dizer que devemos nos alegrar que estas coisas aconteçam que, à luz de sua dor pela morte de sua mãe parece, é claro, um absurdo. Mas a sua conclusão não procede, David. Como você sabe, as Escrituras ensinam que devemos dar graças em todas as circunstâncias, mas não necessariamente por todas as circunstâncias. Em particular, nós não agradecemos a Deus (por) e regozijamo-nos no pecado. Estamos contentes que, em Sua providência, Deus pode trazer algo de bom dos atos pecaminosos de Hitler, mas nem nós nem Deus se alegra da maldade de Hitler. No caso do mal natural, como as doenças de nossos pais, podemos ficar aliviados que Deus pode trazer algo de bom a partir do que eles sofreram, mas isso não quer dizer que nós estamos contentes que eles sofreram.
David, a sua visão de oração e providência são ingênuas e com base em raciocínio falacioso. Se Deus tem conhecimento médio, então Sua providência sobre um mundo já leva em conta quais orações seriam oferecidas em diversas circunstâncias. Sua divindade antropomórfica olhando para baixo e tomando decisões de última hora é uma caricatura. Ao afirmar que "Deus em sua presciência já saberia a resposta; assim, não haveria possibilidade de um resultado diferente de um determinado evento, independentemente se o mundo inteiro orasse em unidade ", você caiu no raciocínio falacioso do fatalismo! É logicamente falacioso inferir que, porque Deus conhece de antemão que algum evento ocorrerá, portanto, não há possibilidade de o evento não ocorrer. Tudo o que se segue é que o evento irá ocorrer, não que deva ocorrer, e se fosse deixar de ocorrer, então Deus teria conhecido de antemão de forma diferente. (Veja o meu The Only Wise God [O único Deus Sábio], para saber mais sobre fatalismo e presciência.) Este é um daqueles casos em que se vê o valor real da filosofia para a vida cristã. Por causa de seus erros filosóficos você é levado a colocar a oração como "ridícula", cortando-se, assim, fora da própria fonte de esperança e de conforto que você tanto precisa. É claro que você deve sentir empatia e tristeza por aqueles que sofrem, e você se alegra nesse sofrimento não ser o produto não redimido do mero acaso, mas permitido por um Deus amoroso e providente que pode trazer algo de bom de tudo isso.
Seu ponto final, David, me parece muito confuso. Certamente há identidade pessoal da pessoa que vive na vida após a morte e a pessoa nesta vida. Mas por que a condição mental delas deve ser a mesma? O falecido neurologista vencedor do Prêmio Nobel Sir John Eckles uma vez explicou a relação da mente com o cérebro assim: a mente utiliza o cérebro como um instrumento para o pensamento. Assim como um pianista não pode produzir uma bela música se seu piano está quebrado e fora de sintonia, embora ele mesmo tenha a capacidade inata de produzir tal música, assim a mente não pode pensar corretamente quando o cérebro é prejudicada por uma doença ou drogas. Mas, na vida após a morte e, especialmente na ressurreição, somos libertos de tais enfermidades. A maravilhosa esperança da vida eterna pode nos dar coragem para suportar o breve sofrimento desta vida terrena. Você pergunta: "Que esperança existe que existe um rejuvenescimento que nos espera no futuro?" Ora, a ressurreição de Jesus, é claro! Sua ressurreição com antecedência do nosso é o fundamento de não só a nossa, mas a esperança para a sua mãe e meu pai de cura e restauração.
David, lendo sua carta, eu não fiquei com a impressão de que você está muito familiarizado com qualquer teologia natural ou evidências históricas para a ressurreição de Jesus, apesar da sua caracterização de si mesmo como um cristão "determinado." Pois o movimento defensivo que eu faço acima contra o argumento do mal é apenas o lado reverso da moeda do caso ofensivo poderoso para a existência de Deus e da ressurreição de Jesus. Mesmo que nós não tivéssemos nenhuma resposta ao argumento ateísta do mal, eu acho que esses argumentos e evidências positivos simplesmente superam o argumento do mal. No entanto, você parece não ter conhecimento do caso positivo para o teísmo cristão.
Então, esses argumentos que você dá para rejeitar a fé em Deus não são realmente muito bons, David. Eu o incentivo a trabalhar com a dor e com o tempo começar a estudar mais a sério, não só o problema do mal, mas também a evidência positiva em apoio a nossa esperança.
- William Lane Craig