#78 Testemunho Pessoal de Fé
January 15, 2015Prezado Dr. Craig
Eu estava escutando recentemente o seu podcast Defenders e nele você encorajou fortemente sua classe a desenvolver um testemunho pessoal como uma ferramenta apologética quando testemunhando a não crentes.
Tenho observado nos meus 10 anos como seguidor de Jesus Cristo que muitos desses “testemunhos pessoais”, que são passatempos tão apreciados por Evangélicos, são contraproducentes para a disseminação do Evangelho.
Estes testemunhos quase sempre se tornam discussões onde todos querem falar sobre tudo.
Eu escuto coisas perturbadoras nesses testemunhos como, por exemplo, “Deus me disse isso ou Deus me disse aquilo”. Outras vezes escuto “Eu era uma pessoa tão problemática até que Deus me disse para fazer isso e isso e agora minha vida está ótima. Ele tem um plano maravilhoso para sua vida também. Recite essa oração dos pecadores e você estará salvo”.
Freqüentemente estes testemunhos são o começo e o fim do testemunho de muitos Cristãos para descrentes, sem qualquer menção da vida, morte, sepultamente e ressurreição de Jesus Cristo.
Eu sei que estou exagerando um pouco, mas em minha opinião existe muita tolice na maioria dos “testemunhos pessoais”, que ocorrem de forma desenfreada no Word of Faith [Palavra de Fé] e em outros movimentos chamados cristãos.
Assim, aqui estão algumas perguntas que tenho:
- De acordo com as Escrituras, somos obrigados a dar um testemunho pessoal?
- Qual é então o propósito dele?
- Qual modelo o testemunho deveria seguir?
- Você compartilha uma frustração parecida com a minha pelos Evangélicos modernos que participam nesses testemunhos contra produtivos anteriormente mencionados?
Obrigado por considerar minha pergunta.
Seu ministério e trabalho tem sido uma grande bênção na minha caminhada como embaixador de Cristo.
Nele,
Ryan
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Dr. craig’s response
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Testemunho pessoal de fé
Acredito que não tive as experiências negativas com o testemunho pessoal das pessoas que você teve, Eric. Talvez isso seja porque eu os tenho ouvido principalmente no contexto de atividades patrocinadas pelo Campus Crusade for Christ, que oferece orientações sobre como preparar seu testemunho pessoal de fé. De forma similar, na nossa aula do Defenders nós demos algumas diretrizes que podiam ser seguidas para preparar os testemunhos de como eles vieram a conhecer Cristo e, depois, oferecemos um feedback para aqueles que compartilharam seu testemunho na sala de aula. Devo dizer que ouvir as histórias pessoais das pessoas contando como elas vieram para a fé em Cristo tem sido fascinante. A diversidade de formas pelas quais as pessoas vêm à fé é incrível. Fico freqüentemente maravilhado em saber como pessoas que aparentemente são resolvidas com elas mesmas tiveram histórias e experiências incríveis que as levaram a Cristo. Isso faz meu coração se regozijar ao ver a variedade no corpo de Cristo e todas as formas maravilhosas em que o Senhor trabalha para atrair pessoas para Ele.
Eu não sei se as Escrituras exigem que preparemos um testemunho de fé pessoal. Mas vemos Paulo, por exemplo, compartilhando, repetidamente, seu testemunho de como ele veio à fé na estrada de Damasco. Mesmo anos depois do ocorrido ele ainda estava recontando aquela experiência para as pessoas.
Quanto ao propósito de compartilhar seu testemunho, nós somos chamados a ser o sal e a luz em um mundo escuro, e uma das formas mais interessantes de fazer isso é compartilhar sua vida pessoal com as pessoas. Eu percebo que as pessoas se conectam mais com uma história pessoal de alguém do que com argumentos. Eles querem saber como aquilo em você acredita tem afetado sua vida, que diferença aquilo faz para você. Uma das vantagens de compartilhar sua história pessoal é que você freqüentemente encontrará pessoas que se identificarão com algum elemento da sua vida, o que a atrairá para dentro da sua narrativa. Assim, eu vejo o compartilhamento de seu testemunho pessoal como um elemento chave no evangelismo. Ele ajuda as pessoas a se conectarem pessoalmente com a mensagem do Evangelho.
Dessa forma, aqui está um modelo a seguir: Escreva um relato de como você veio para Cristo de forma que você possa contá-lo em aproximadamente três minutos. Seu relato deve incluir, basicamente, três partes: primeiro, como era sua vida antes de você vir à fé em Cristo. Obviamente, se você veio a Cristo quando era criança, esta parte da sua história será menos significativa do que se você veio ao Senhor quando já era mais velho. Mas muitas pessoas que foram criadas em lares cristãos podem se identificar com seu esforço de tornar sua fé algo pessoal e não apenas algo que você herdou dos seus pais. Segundo, diga como você se tornou um cristão. Seja específico. O que você fez? Uma pessoa que esteja escutando seu testemunho deve saber depois o que ele deverá fazer se ela quiser entregar a vida dela à Cristo. Ao compartilhar essa parte da minha história, eu normalmente tento incluir o conteúdo da mensagem do Evangelho que foi compartilhada comigo e para a qual eu respondi. Assim, a mensagem da morte e ressurreição de Cristo pode ser incluída no seu testemunho. Finalmente, descreva um pouco como sua vida mudou desde que você se tornou um Cristão. O que Cristo significa pra você hoje? Que diferença faz ser um Cristão se comparado com como você era antes? Depois de você ter escrito seu testemunho, memorize-o para que você possa contar a alguém sua história sem dificuldades sempre que alguém perguntar.
Testemunho Pessoal de fé - Como desenvolver seu testemunho
Para te dar um exemplo do que estou falando, deixe-me compartilhar com você agora minha própria história de como vim à fé em Cristo:
Não fui criado em uma família que ia à igreja, muito menos uma família Cristã - apesar de ser um lar bom e amoroso. Mas quando me tornei um adolescente, comecei a fazer as grandes perguntas da vida: “Quem sou eu?” “Por que estou aqui?” “Para onde estou indo?”. Na busca pelas respostas eu comecei a freqüentar, sozinho, uma grande igreja em nossa comunidade. Mas em vez de respostas, tudo o que encontrei foi um clube social onde o valor para participar era um dólar por semana no prato de ofertas. Os outros alunos de ensino médio que estavam envolvidos nos grupos de jovens e que diziam ser cristãos no domingo viviam para seu verdadeiro deus durante o restante da semana, que era a popularidade. Eles pareciam estar dispostos a fazer o que fosse necessário para serem populares.
Isso realmente me incomodava. “Eles dizem que são Cristãos, mas eu estou vivendo uma vida melhor do que eles!” eu pensava. “Porém me sinto tão vazio por dentro. Eles devem estar tão vazios quanto eu, mas eles estão somente fazendo de conta que são algo que na verdade não são. São apenas um bando de hipócritas.” Então eu comecei a me tornar muito rancoroso com a igreja institucional e as pessoas que participavam dela.
Depois de um tempo essa atitude começou a se direcionar também para outras pessoas. “Ninguém é de fato genuíno,” eu pensava. “Eles são todos um bando de mentirosos, usando uma máscara plástica para o mundo, enquanto a pessoa real está se escondendo dentro de si, com medo de sair e ser real.” Então a minha raiva e rancor começou a ser direcionada para pessoas em geral. Comecei a desprezar as pessoas, não queria nada com elas. “Não preciso de outras pessoas,” eu pensava, e me enfiei nos estudos. Francamente, eu estava a caminho de me tornar um jovem muito alienado.
Mesmo assim - em momentos de introspecção e honestidade, eu sabia que, lá no fundo, o que eu realmente queria era amar e ser amado pelas pessoas. Entendi naquele momento que eu era um mentiroso tanto quanto eles eram. Pois aqui estava eu, fazendo de conta que não precisava de pessoas, quando lá no fundo eu sabia que, de fato, eu precisava. Então aquela raiva e rancor passaram a ser contra mim mesmo pela minha própria hipocrisia e falsidade.
Eu não sei se você entende como é isso, mas esse tipo de raiva e desespero interno simplesmente te consome por dentro, fazendo cada dia miserável, outro dia para aguentar. Eu não podia ver um propósito para a vida; nada realmente importava.
Um dia quando eu estava me sentido particularmente mal, entrei na minha aula de alemão do ensino médio e sentei atrás de uma menina que era um daqueles tipos que estava sempre tão feliz que te faz passar mal! Bati levemente em seu ombro, ela se virou, e eu rosnei, “Sandy, por que você está sempre tão feliz?”.
“Ora, Bill,” ela disse, “é porque eu estou salva!”.
Eu fiquei chocado. Eu nunca havia escutado esse tipo de linguagem antes.
“Você está o que?”, eu disse exigindo uma resposta.
“Eu conheço Jesus Cristo como meu Salvador pessoal”, ela explicou.
“Eu vou à igreja”, eu disse desajeitadamente.
“Isso não é suficiente, Bill”, ela disse. “Você precisa tê-Lo realmente vivendo em seu coração”.
Isso foi o limite! “Por que ele iria querer fazer algo assim?”, eu disse.
“Porque Ele te ama, Bill.”
Isso me atingiu como um monte de tijolos. Aqui estava eu, tão cheio de raiva e rancor, e ela disse que havia alguém que realmente me amava. E quem era essa pessoa, se não o próprio Deus do universo! Esse pensamento simplesmente me chocou. Pensar que o Deus do universo amaria a mim, Bill Craig, aquele verme naquela poeira de planeta chamado Terra! Eu simplesmente não podia entender.
Assim começou para mim o período de exame de consciência mais agonizante pelo qual já passei. Peguei um Novo Testamento e o li de capa a capa. E, ao fazer isso, fiquei absolutamente cativado pela pessoa de Jesus de Nazaré. Havia uma sabedoria em seus ensinos que eu nunca havia encontrado antes e uma autenticidade em sua vida que não era característica daquelas pessoas que diziam ser seus seguidores na igreja local em que eu estava indo. Eu sabia que não podia jogar o bebê fora junto com a água do banho.
Depois de ler o Novo Testamento, descobri qual era meu problema. Minhas próprias falhas morais - em pensamento, palavra e ação - tinham me feito moralmente culpado diante de Deus e, portanto, espiritualmente separado dele. Era por isso que Deus parecia tão irreal pra mim. Mas as Boas Novas eram que Deus havia enviado Seu Filho Jesus Cristo para o mundo para pagar a penalidade de morte pelo meu pecado, libertando assim o amor e o perdão de Deus para me perdoar e purificar e me restaurar para o relacionamento com Deus que eu fui criado para ter.
Ao mesmo tempo, Sandy me apresentou para outros alunos cristãos do ensino médio. Eu nunca havia conhecido pessoas assim! Seja o que fosse que eles falavam sobre Jesus, o que era inegável era que eles estavam vivendo a vida em um plano de realidade que eu nem sonhava que existia, e isso dava um profundo significado e alegria para suas vidas, que era o que eu almejava.
Para encurtar a história, minha busca espiritual continuou pelos próximos seis meses. Assisti a reuniões cristãs; eu li livros Cristãos; procurei Deus em oração. Finalmente, uma noite eu cheguei ao fim das minhas forças e clamei a Deus. Eu clamei toda a raiva e rancor que tinha se acumulado dentro de mim, e ao mesmo tempo senti essa tremenda infusão de alegria, como um balão que enche cada vez mais até estar a ponto de estourar! Eu lembro que eu corri para fora - estava uma noite clara de verão do centro-oeste, e dava para ver a Via Láctea se estendendo de horizonte a horizonte. Ao olhar para as estrelas, eu pensei: “Deus! Eu conheci Deus!”.
Aquele momento mudou toda minha vida. Eu havia pensado o suficiente sobre essa mensagem durante aqueles seis meses para entender que se isso realmente fosse a verdade - realmente a verdade - então não poderia fazer nada menos do que gastar toda minha vida proclamando essa maravilhosa mensagem entre os homens.
Para muitos cristãos, a diferença principal que eles encontram ao vir a conhecer a Cristo é o amor e a alegria ou a paz que isso traz. Todas estas coisas foram ótimas para mim também. Mas se você me perguntasse qual a maior diferença que Cristo fez em minha vida, eu diria sem hesitação: “Significado!”. Eu conhecia a escuridão, o desespero, de uma vida longe de Deus. Conhecer Deus de repente trouxe significado eterno para minha vida. Agora as coisas que eu faço são cheias de significado eterno. Agora a vida importa. Agora todos os dias eu acordo para um novo dia de caminhada com Ele.
Testemunho pessoal de fé - o impacto do testemunho de alguém
O impacto de compartilhar esse testemunho tem sido impressionante. Mais ou menos um ano atrás estávamos em uma conferência de filosofia na Fudan University em Shanghai juntamente com diversos outros filósofos cristãos. No último dia da conferência, o moderador inesperadamente pediu que eu compartilhasse como eu havia me tornado cristão. Era uma porta aberta! Então imediatamente compartilhei meu testemunho pessoal de fé. Quando terminei, dava para perceber que os alunos haviam sido tocados. Apenas há alguns meses atrás recebi o seguinte e-mail:
Cumprimentos de Shanghai! Nós nos conhecemos ano passado quando você esteve falando na Fundan University. Algumas histórias incríveis aconteceram aqui depois do simpósio do ano passado. Pudemos acompanhar alguns dos alunos que ficaram interessados após as palestras. Diversas pessoas que foram à sua última palestra vieram à fé em seguida. Espero que Deus use você e seus companheiros de formas grandiosas para fortalecer o trabalho dele aqui na China.
Compartilhar o testemunho pessoal é contra produtivo? Não na sua vida! Certamente podem existir testemunhos contra produtivos, testemunhos que são desconexos e longos demais, vagos ou incompletos, ou simplesmente excêntricos (o corpo de Cristo realmente contêm todos os tipos!). Mas não permita que esses abusos te desanimem de fazer a coisa certa de forma bem feita: compartilhar a história de como Deus atuou para atraí-lo para a fé Nele. Um bom testemunho glorifica a Deus e aponta àquele que escuta para Cristo, que é exaltado em vez do próprio eu. Eu percebi que compartilhar meu testemunho de fé com outros, junto com compartilhar a mensagem do Evangelho e as evidências para sua veracidade, é um testemunho poderoso da realidade de Cristo e faz com que o Evangelho seja muito atraente para pessoas que estão buscando hoje.
- William Lane Craig