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#196 O Problema do Mal sem Valores Morais Objetivos

October 28, 2014
Q

Dr. Craig,

Olá, eu sou um estudante de pós-graduação estudando a filosofia da religião (particularmente teologia natural), e estou bem familiarizado com o seu trabalho. Na verdade, a sua defesa do argumento Kalam foi um dos principais motivos que me levou a acreditar em Deus e me inspirou a perseguir uma licenciatura em filosofia. Então, primeiro, eu tenho que te agradecer por me mostrar que há boas razões para aceitar o teísmo. Se eu nunca tivesse encontrado o seu trabalho, seria um ateu hoje.

Vou agora para a minha pergunta que lida com o argumento moral a favor da existência de Deus. Especificamente a minha preocupação é a aplicação do argumento moral como uma resposta ao problema do mal: em muitos de seus debates (e também brevemente no Reasonable Faith, terceira edição, p. 195), você argumentou, grosso modo, que não se pode recorrer ou apelar para o mal como a base para um argumento ateológico sem pressupor que a moralidade é objetiva (e, portanto, de acordo com o argumento moral, que Deus existe).

Em seu trabalho, você afirma o argumento moral da seguinte forma (ibid, p. 172):

[1] Se Deus não existe, valores morais objetivos (e deveres) não existem;

[2] Valores morais objetivos (e deveres) existem; portanto,

[3] Deus existe

E em seus debates, o ateu geralmente coloca o problema do mal da seguinte forma:

[4] Se Deus existe, então mal [objetivo] gratuito não existe;

[5] existe mal gratuito; portanto,

[6] Deus não existe

Além disso, em seus debates, às vezes, você responde ao argumento do mal recorrendo á premissa [1] do argumento moral: Se Deus não existe, os valores morais objetivos não existem. Já que [5] implica [2]—em virtude do fato de que se mal gratuito existe, então deve existir valores morais objetivos—então, [1] e [5] implicam [3]. Assim, em certo sentido, o próprio argumento do ateu serve de apoio para o argumento moral ao prover a segunda premissa.

Ocorreu-me que o ateu pode ter uma forma de evitar isso. Eu não vejo como alguém tenha de comprometer-se com a existência do mal objetivo a fim de colocar o problema do mal. Isto porque, independentemente de alguma instância do que geralmente consideramos ser mal gratuito, M, ser realmente objetivo, M seria de fato objetivo, se Deus existisse. Por exemplo, o ato de assassinato só pode ser subjetivamente errado na ausência da existência de Deus; mas ainda assim é o caso de que se existe um Deus, então o assassinato seria objetivamente errado. Com isto em mente, o ateu pode reformular o problema do mal como uma prova indireta:

Se Deus existe, então M é um exemplo de mal gratuito objetivo

[ii] Se Deus existe, então o mal gratuito objetivo não existe

[iii] Deus existe (suposição para IP)

[iv] M é um exemplo de mal gratuito objetivo (1, 3, MP)

[v] Mal gratuito objetivo não existe (2, 3, MP)

[vi] Existe um exemplo de mal gratuito objetivo e o mal gratuito objetivo não existe (4, 5, ADD)

[vii] Portanto, Deus não existe (3-6, IP)

Desta forma, o ateu pode argumentar a partir da existência do que seria mal gratuito se Deus existe, para a não-existência de Deus; e ele pode fazê-lo sem se comprometer com a alegação de que mal gratuito objetivo existe. Isso significa que o ateu não recorre a qualquer premissa que implicaria [2]. Portanto, parece que o ateu pode dar um argumento ateológico do mal sem conceder a segunda premissa de seu argumento moral.

Eu não acredito que tenha ouvido um de seus interlocutores tomar este caminho em seus debates, nem cruzei com ele em seu trabalho publicado. Em todo o caso, eu não sei como o teísta poderia responder a isso sem simplesmente conceder o ponto (que o argumento reductio do mal não pressupõe moralidade objetiva). Eu não sei o que haveria de errado com ele. Eu estaria muito interessado em ouvir sua resposta.

Joe

Estados Unidos

<ul><li>United States</li></ul>

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Eu acho que o problema do mal pode ser liberado do pressuposto de que certos atos são objetivamente maus, mas não da maneira que você sugere.

Há, de fato, uma contradição implicada por suas premissas, mas a falha está, não em [iii], mas no fato de que e [ii] são contraditórias! Estas premissas são mais corretamente colocadas como condicionais subjuntivas (contrafactuais):[1]

[i'] Se Deus existisse, então M seria uma instância de mal gratuito objetivo.

[ii'] Se Deus existisse, então mal gratuito objetivo não existiria.

De acordo com [i'], se houvesse um Deus, então mal gratuito objetivo existiria (ou seja, M). Mas isso contradiz explicitamente [ii'], que se houvesse um Deus, então mal gratuito objetivo não existiria. Assim, o ateu estaria fazendo afirmações contraditórias, e seria falta de caridade atribuir tais crenças a ele. Nem qualquer assentimento cristão para ambas as premissas. Assim, o argumento falha, uma vez que nenhuma das partes vai concordar com as duas premissas.

Tenho certeza de que a razão para a confusão é que você está misturando dois argumentos aqui, um falando do mal objetivo e outra falando de mal gratuito (desnecessário, inútil). Assim, uma pessoa pode rejeitar uma premissa ou porque ela acha que Deus pode permitir o mal gratuito ou porque ela acha que o mal permitido não seria gratuito. Por exemplo, o cristão que aceitasse [i'] irá rejeitar [ii'] porque ele acha que Deus pode permitir o mal gratuito (a visão de Peter van Inwagen). Mas o cristão que aceitasse [ii'] rejeitará [i'], porque o mal, embora objetivo, não seria gratuito (a minha visão preferida).

Aqui está como eu acho que o ateu deveria apresentar o problema: ele deveria deixar de lado toda a linguagem sobre o mal e apenas falar sobre o sofrimento, ou como alguns colocam, o problema da dor. Então, ele deveria argumentar que a natureza de Deus, pelo menos o Deus cristão, é tal que, porque Ele é amor, Ele não permitiria tal sofrimento terrível. Aqui, o não-teísta não garante que o sofrimento é mal ou que Deus estaria errado em permiti-lo; ao contrário, ele apenas afirma que uma pessoa amorosa como Deus deveria ser não permitiria tal sofrimento.

A pergunta, então, é claro, será se essa afirmação é verdadeira. Como eu já procurei mostrar em outro lugar, é muito difícil para o ateu montar um caso que uma pessoa toda-amorosa, toda-poderosa como Deus não permitiria um sofrimento terrível tendo em vista seus propósitos mais abrangentes (ou que esses propósitos não constituiriam uma razão moralmente suficiente para permitir o sofrimento, o que nos leva de volta aos valores e deveres morais novamente).



Notas:

[1] Se deixarmo-las como condicionais indicativas, ambas podem ser verdadeiras, já que qualquer condicional indicativa com um antecedente falso é verdadeira, independentemente de sua consequente. Mas, então, o ateu estaria incorrendo na petição de princípio, uma vez que nenhum teísta vai concordar que o antecedente "Deus existe" é falso!

- William Lane Craig