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#186 O Testemunho da Tradição Pré-Paulina com relação ao Túmulo Vazio

October 28, 2014
Q

Dr. Craig,

Eu tenho algumas perguntas sobre alguns dos argumentos que você usa em seu artigo "A Historicidade do Túmulo Vazio de Jesus". Minhas perguntas giram em torno de suas alegações de que podemos estabelecer que Paulo acreditava e sabia sobre o túmulo vazio.

Primeiramente, você discute a fórmula que Paulo usa em 1 Coríntios 15:3-5 e diz que é uma fórmula cristã muito antiga que Paulo provavelmente recebeu em sua visita a Jerusalém após sua conversão. Assim, você diz que esta fórmula pode provavelmente ter tido origem nos primeiros cinco anos após a morte de Cristo. Você baseia a sua crença de que esta fórmula é uma antiga tradição cristã nas “características semitas e não paulinas" dela e na alegação de Paulo de que esta fórmula do evangelho é algo que ele recebeu.

No entanto, na epístola de Paulo aos Gálatas (3.11-12, 15-18) ele diz: "Mas faço-vos saber, irmãos, que o evangelho que por mim foi anunciado não é segundo os homens. Porque não o recebi, nem aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo... Mas, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça, revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não consultei a carne nem o sangue, nem tornei a Jerusalém, a ter com os que já antes de mim eram apóstolos, mas parti para a Arábia, e voltei outra vez a Damasco. Depois, passados três anos, fui a Jerusalém para ver a Pedro...”.

Paulo parece afirmar que ele não recebeu o evangelho que ele pregava e especificamente delineou em 1 Coríntios 15:3-5 de homens, mas de Deus, em alguma revelação especial. Assim, como você concilia sua crença de que Paulo recebeu e, consequentemente, pregou a antiga fórmula cristã de 1 Coríntios 15:3-5 com o que Paulo diz em Gálatas 3? Além disso, quais são as características semitas e não paulinas que são exibidas em 1 Coríntios 15:3-5?

Por último, você conclui que a afirmação de Paulo de que Cristo ressuscitou "no terceiro dia" indica uma ressurreição física e, consequentemente, um túmulo vazio. Você diz que o uso coloquial da expressão "no terceiro dia" na fórmula e nos escritos cristãos é, provavelmente, "um indicador de tempo para os eventos da Páscoa, incluindo o túmulo vazio, empregando a linguagem do Antigo Testamento relacionada a atos de livramento e vitórias de Deus no terceiro dia, talvez com textos como Jonas 2:11 e Oséias 6:2 especialmente em mente". No entanto, me parece que a datação da ressurreição no terceiro dia também poderia facilmente ter sido o resultado de Cristo aparecendo para os discípulos (nem mesmo necessariamente no terceiro dia) e da lembrança deles de suas numerosas alegações de que ele ressuscitaria no terceiro dia (e.g. Mat 12:39-40; 16:21; 17:22-23; 20:17-19; 27:63, etc.). Como você sabe que o desenvolvimento da expressão "no terceiro dia" não foi o resultado de muitas previsões que Ele fez para os Seus discípulos e outros de que ressuscitaria no terceiro dia? Peço desculpas pela pergunta longa. Eu estava estudando seus argumentos em defesa da ressurreição e estas são algumas perguntas que eu não consigo responder.

Jacob

- país não especificado

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Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

A evidência de que Paulo não está escrevendo de próprio punho em I Coríntios 15:3-5 é tão poderosa que todos os estudiosos do Novo Testamento reconhecem que Paulo está aqui passando uma tradição anterior. Além do fato de que Paulo diz explicitamente isso, a passagem está repleta de características não paulinas, incluindo, na ordem em que aparecem: (i) a frase "por nossos pecados" usando o caso genitivo e o substantivo no plural é incomum nos escritos de Paulo; (ii) a expressão "segundo as Escrituras" não aparece em outros escritos de Paulo, que introduz citações bíblicas por "como está escrito"; (iii) o verbo perfeito passivo "foi ressuscitado" só aparece neste capítulo e em uma fórmula confessional pré-paulina em II Tim. 2:8; (iv) a expressão "no terceiro dia" com o seu número ordinal seguindo o substantivo em grego é não paulina; (v) a palavra "apareceu" só é encontrada aqui e na fórmula confessional em I Tim. 3:16; e (vi) "os Doze" não é a nomenclatura que Paulo usa, pois ele sempre fala dos doze discípulos como "os apóstolos”.

A visita durante a qual Paulo pode ter recebido essa tradição é a visita que você menciona três anos após a conversão dele no caminho para Damasco (Gal. 1:18). Isso coloca a tradição dentro dos primeiros cinco anos após a morte de Jesus em 30 AD. Assim, não há nem mesmo uma inconsistência aparente com a apropriação que Paulo faz da linguagem da fórmula para encapsular o Evangelho que ele já estava pregando durante os primeiros três anos em Damasco.

A única maneira pela qual poderia haver uma tensão aparente seria se Paulo tivesse recebido a tradição bem no início de sua estadia em Damasco. Nesse caso, à luz da evidência, teríamos que dizer que Paulo está contando a sua “interpretação” dos fatos para os Gálatas em benefício próprio.

Mas será que a declaração de Paulo em Gal. 1:11-12 implica que ele não recebeu nenhuma tradição oral como aquela em I Coríntios 15:3-5 enquanto estava em Damasco? Acho que não. "Seu" Evangelho, do qual Paulo estava tão orgulhoso, era o evangelho da graça de Deus abundantemente derramado sobre judeus e gentios igualmente, sem discriminação. Foi este Evangelho que, mais tarde, ele colocou diante dos apóstolos de Jerusalém para se certificar de que ele não estava correndo em vão (Gal 2:2). Mas eles estavam felizes de Paulo levar o Evangelho aos gentios da mesma forma como eles haviam levado aos judeus. A recepção de Paulo deste entendimento sobre o Evangelho por revelação direta não é, de maneira alguma, incompatível com ele ter aprendido sobre os eventos básicos da paixão de Cristo presentes na fórmula primitiva. Na verdade, já que ele tinha sido um perseguidor da igreja primitiva, ele provavelmente já estava familiarizado com os eventos básicos quando ainda nem era cristão.

Quanto ao tema recorrente do "terceiro dia", é mais provável que isso esteja ligado à tradição do túmulo vazio do que com as tradições das aparições. A frase aparece na terceira linha da fórmula, que é um resumo da narrativa do túmulo vazio (veja o quadro comparativo em The Son Rises, pp. 49-50). Essa expressão parece ser uma versão teologicamente carregada da frase "o primeiro dia da semana", que é usada na narrativa do túmulo vazio. Note, também, que o terceiro dia é sempre associado com o evento da ressurreição de Jesus, nunca com as aparições.

O problema de ler o tema do terceiro dia nas predições da ressurreição de Jesus como algo isolado, ao invés de ler como um indicador de quando o túmulo foi encontrado vazio, é que as profecias não são tão fortemente atestadas historicamente como o próprio túmulo vazio. Na verdade, elas são frequentemente consideradas como tendo sido escritas após o fato. Assim, se você aceita a autenticidade delas, não há nenhuma base restante para duvidar do fato -- atestado de forma ainda mais forte -- do túmulo vazio. Se os primeiros proclamadores da ressurreição de Jesus optaram por adotar a linguagem das profecias dele, isso ocorreu porque o túmulo havia, de fato, sido encontrado vazio no primeiro dia da semana, o terceiro dia após a crucificação de Cristo.

- William Lane Craig