#240 O Universo Necessita ter Uma Causa Material?
October 28, 2014Caro Professor Craig,
Para começar, gostaria de lhe agradecer por seu serviço à comunidade cristã e por me guiar na busca para entender a teologia cristã.
Da mesma forma, a minha pergunta trata da doutrina da criação que você (e a corrente principal do cristianismo) defende. Essa doutrina é que Deus criou o mundo ex-nihilo e que o universo (como isso referindo-me a toda a realidade) foi criado literalmente do nada. O problema com este conceito, que eu simplesmente não consigo me livrar, é que ele parece violar um princípio básico da causalidade. Assim, para um evento casual ocorrer, você precisaria de potencialidade e um agente ou objeto para realizá-lo.
Por exemplo, um bloco de madeira tem a potencialidade de ser esculpido em um trem de madeira, e um trabalhador qualificado seria o agente que realiza a possibilidade de um trem de madeira esculpido a partir do referido bloco de madeira.
No entanto, de acordo com você, o ato inicial de Deus de causalidade foi diferente do que o exemplo fornecido acima, uma vez que não envolveu uma causa material, mas apenas uma causa eficiente. Mas aí vem o problema, tirando a causa material do ato inicial de criação, você não está tirando a potencialidade de Deus de criar qualquer coisa. A causa material parece ser o portador do potencial no ato de causalidade. Então, quando você descarta uma causa material, você está simultaneamente retirando a potencialidade de um agente causar qualquer coisa. Então, para esclarecer e concluir:
1. Um evento casual requer um agente para realizar um evento (ou um objeto), e a potencialidade para que o evento ocorra.
2. "Nada" não contém nenhuma potencialidade, ou então seria "algo" (o que prejudicaria completamente a teologia judaico-cristã, já que algo não pode existir ao lado de Deus eternamente).
3. Portanto, como a criação ex-nihilo tenta trazer um objeto / agente do nada (sem potencialidade), é logicamente impossível.
Tenho tentado encontrar maneiras de sair deste dilema, mas todas elas falharam. Por exemplo, se você acreditar que você não precisa de potencialidade para um evento casual ocorrer, você acaba com uma contradição lógica. Então, por exemplo:
Um bloco de madeira não tem a potencialidade de se tornar o número 3, no entanto, um trabalhador qualificado pode ainda realizar uma não potencialidade, e transformar um bloco de madeira no número 3. Obviamente, isto leva a absurdos metafísicos, que não podem possivelmente existir.
A outra solução, que eu tenho pensado é que Deus sirva também como a "potencialidade", no entanto, isto não seria mais criação ex-nil-ho (do nada), mas criação ex-deli-ho (de Deus) pois Deus estaria usando ele mesmo e seu potencial existente para criar o universo. No entanto, isso seria um apelo ao panteísmo, e que não serviria mais como uma opção viável para um teísta cristão. Isso tem me forçado a concluir que Deus criou o universo a partir de formas já existentes em sua mente (que ainda parece ser um apelo ao panteísmo, e conceitualismo). Gostaria de perguntar qual a sua solução para o problema, eu apresentei e se eu cometi alguma falácia na minha linha de pensamento. Basicamente, como você supera este obstáculo na criação ex-nil-ho. Desculpa pela longa pergunta, e obrigado pelo seu tempo.
Deus abençoe,
Richard
<ul><li>United States</li></ul>
Dr. craig’s response
A [
Eu já abordei esta questão antes em um de seus muitos disfarces (ver Pergunta #216), mas já que você apresenta a pergunta em uma outra forma e parece ser de interesse, deixe-me pegá-lo novamente.
Deixe-me começar por afirmar que a teologia cristã está comprometida com a criação ex nihilo, isto é, a doutrina de que Deus criou o universo sem qualquer causa material. Deus é a causa eficiente que produziu o universo, e não havia nenhuma causa material. Ele mesmo criou a matéria e energia. Quando dizemos que a matéria e energia foram criados a partir do nada, queremos dizer apenas que, embora criados, eles não foram criados a partir de algo.
Deixe-me também afirmar que, como você diz, "para um evento casual ocorrer, você precisaria de potencialidade e um agente ou objeto para realizá-lo." Por essa razão, algo surgindo espontaneamente do nada é metafisicamente impossível. Pois, como você diz, não-existência não tem potencialidades, nem poderes, nem propriedades, não é nada. É por isso que ser vem apenas de ser. Ex nihilo nihil fit- do nada nada vem. Então, se algo tem um começo absoluto de existência, deve existir um ser real que produz a coisa que existe.
A questão, então, é se há um conflito entre o princípio Ex nihilo nihil fit e creatio ex nihilo. Claro que não! Pois em creatio ex nihilo existe uma causa eficiente do efeito, enquanto o princípio Ex nihilo nihil fit diz respeito ao começo de algo na ausência de qualquer tipo de causa.
Mas existe um problema com a creatio ex nihilo? Eu concordo com a sua premissa
1. Um evento causal requer um agente para realizar um evento (ou um objeto), e a potencialidade para que o evento ocorra.
Além disso, eu também concordo com a sua segunda premissa
2. "Nada" não contém nenhuma potencialidade, ou então seria "algo".
Mas a sua conclusão só não segue de (1) e (2). Sua conclusão pressupõe que na creatio ex nihilo, a potencialidade da existência do universo deve estar (impossivelmente) no nada que o precedeu. Mas, como Tomás de Aquino salientou, em creatio ex nihilo a potencialidade do universo reside no poder de Deus para criá-lo. Com Deus tem o poder de criar o universo, então até mesmo no estado de coisas de Deus existindo sozinho, há o potencial para um universo existir. Esse potencial reside, não em algum objeto inexistente ou em nada, mas no próprio Deus e Sua capacidade de causar o universo.
Esta solução é muito diferente da solução pananteísta que você menciona e com razão rejeita, de que o universo é feito do próprio ser de Deus. Pelo contrário, a ideia é que Deus tem poderes causais e, portanto, existe um potencial para o universo ser materializado.
Este relato salienta o fato de que creatio ex nihilo não é um tipo de mudança. Pois na criação não há sujeito duradouro que vai de não-existência para existência. É um começo absoluto da existência. Não é como se houvesse algo com uma potencialidade passiva para ser realizado e Deus age sobre essa potencialidade para realizá-la. Pelo contrário, a potencialidade reside inteiramente no poder de Deus para criar.
- William Lane Craig