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#372 A Coerência do Teísmo

May 16, 2015
Q

Caro Dr. Craig,

Você já disse muitas vezes que o problema do mal é o melhor argumento para o ateísmo, mas eu realmente discordo. Eu acho que o(s) argumento(s) da incoerência é o melhor. Que respostas você já deu a estes argumentos? Existe um livro completo publicado pela Prometheus sobre os vários argumentos da incoerência contra a existência de Deus, e o número é enorme. É chamado "A Impossibilidade de Deus", editado por Michael Martin, da Boston University.

Tome este argumento Modus Tollens:

1) Deus é todo-poderoso

2) Mas Deus não pode fazer certas coisas como o mal e ele não pode interferir com o livre arbítrio de alguém.

3) Portanto, Deus não existe.

Este é apenas um de toda uma série de argumentos aparentemente impossíveis de refutar. O que você diria?

Para mim, este parece ser um problema sério para o teísmo e eu estou até pensando em desistir de acreditar em Deus por causa disso, então eu gostaria da sua ajuda. Sem nada mais, por favor, informe-me de alguns livros que respondem a estes argumentos. Muito obrigado.

Anthony

Estados Unidos

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Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Sua pergunta é próxima e querida ao meu coração, Anthony, porque toda a minha carreira filosófica tem sido uma exploração da coerência do teísmo. Como um jovem filósofo recém-saído do mestrado, eu tive que decidir o projeto de pesquisa em que gostaria de embarcar como a minha área de especialização. Inspirado pelo pequeno livro de Anthony Kenny The God of the Philosophers [O Deus dos filósofos] (1979), eu decidi analisar filosoficamente os vários atributos de Deus com o fim de elaborar um conceito coerente de Deus. Eu descobri um assunto tão vasto em seu alcance, tão profundo, e tão desafiante em seus conceitos, que logo tornou-se óbvio para mim que tal projeto se estenderia pela vida toda.

Então eu passei os primeiros sete anos estudando e escrevendo sobre o conceito da onisciência divina, com um enfoque particular na compatibilidade da presciência divina e da liberdade humana. Passei os próximos 11 anos estudando e escrevendo sobre o conceito de eternidade divina, tentando entender o relacionamento de Deus com o tempo. Mais recentemente, eu tenho investido os últimos doze anos em estudar o conceito de asseidade divina, enfocando o desafio que apresentam os objetos abstratos de Deus de ser a única realidade final, e agora estou no processo de redação dos resultados gratificantes de todos esses anos de estudo.

Um dos aspectos em que a filosofia da religião contemporânea mais drasticamente mudou (desde que eu comecei o meu programa de pesquisa) é precisamente no que diz respeito à coerência do teísmo. Durante a geração anterior (aproximadamente três quartos para o final do século XX) o conceito de Deus foi muitas vezes considerado como um terreno fértil para os argumentos antiteístas. A dificuldade com o teísmo, dizia-se, não era apenas que não existiam bons argumentos para a existência de Deus, mas mais fundamentalmente, que a noção de Deus era incoerente.

Esta estratégia antiteísta saiu pela culatra, no entanto, ao evocar uma prodigiosa literatura dedicada à análise filosófica do conceito de Deus, refinando e fortalecendo, assim, a crença teísta. O livro de William J. Wainwright: Philosophy of Religion: An Annotated Bibliography of Twentieth-Century Writings in English [Filosofia da Religião: Uma Bibliografia Anotada dos Escritos do Século XX em Inglês] (1978) foi um guia de referência para a literatura naquela época. Embora estes temas continuem a ser discutidos (testemunhe meu próprio trabalho!), o calor da batalha está em grande parte no passado. Como o conceito de Deus é indeterminado pelos dados bíblicos, os filósofos que trabalham dentro da tradição judaico-cristã desfrutam uma considerável vantagem na formulação de uma doutrina filosófica coerente e biblicamente fiel de Deus. Os teístas, assim, viram que as críticas antiteístas de certas concepções de Deus poderiam, na verdade, ser muito úteis na elaboração de uma concepção mais adequada. Assim, longe de enfraquecer o teísmo, as críticas antiteístas serviram principalmente para revelar quão rico, quão diversificado e desafiador é o conceito de Deus. Hoje a discussão continua sobretudo como uma exploração em teologia filosófica, e não como uma tentativa apologética.

Anthony Kenny uma vez me disse que a filosofia da religião é tão interessante porque, como o cubo de uma roda cujos raios são direcionados para fora, ela toca todas as outras áreas da filosofia. Meus estudos de Deus já mostraram isso. Meu trabalho atual apenas me tem levado profundamente à metafísica, filosofia da matemática e filosofia da linguagem. O estudo dos atributos de Deus tem sido uma experiência rica e gratificante, tanto intelectual quanto espiritualmente.

Há dois controles que tendem a guiar o inquérito de teólogos filosóficos sobre a natureza divina: as Escrituras e a teologia do Ser perfeito. Para os pensadores na tradição judaico-cristã, a auto-revelação de Deus nas Escrituras é, obviamente, fundamental na compreensão de como Deus é. Mas a Bíblia não é um livro de filosofia, e por isso é muitas vezes, indeterminada com relação aos atributos de Deus. Considere a eternidade divina, por exemplo. A Bíblia ensina que Deus é eterno, ou seja, que é sem começo e sem fim. Mas há pelo menos duas maneiras de uma entidade poder ser sem começo e fim. Uma forma seria existir a partir do infinito passado para o futuro infinito, ou ter existência imemorial temporal e infinita. Outra maneira seria de transcender o tempo como um todo, isto é, existir mas não existir no tempo, ou existir atemporalmente. Agora, a Bíblia não resolve essa pergunta. Se a pergunta deve ser respondida, então a resposta deve vir da teologia filosófica e não da teologia bíblica.

Quanto à teologia do Ser perfeito, a concepção de Deus de Anselmo, como o maior ser concebível, ou ser mais perfeito, tem guiado a especulação filosófica sobre os dados brutos da Escritura, de modo que os atributos bíblicos de Deus devem ser concebidos de forma que serviriam para exaltar a grandeza de Deus. Assim, quando a Escritura afirma que Deus é, por exemplo, Todo-Poderoso, isso deve ser interpretado em um sentido tão grande quanto possível. Aqui, também, há espaço para discordância. Embora seja obviamente mais grandioso ser, digamos, pessoal e não impessoal, moralmente perfeito em vez de moralmente defeituoso, autoexistente em vez de contingente, é mais grandioso ser atemporal ou temporal, simples ou composto, mutável ou imutável? As respostas a essas perguntas estão longe de serem óbvias e assim exigem argumentos para sua defesa.

Então, quando se é confrontado com uma suposta incoerência no conceito de Deus, o teólogo filosófico normalmente tem duas possibilidades: ou (1) mostra que a suposta incoerência é apenas aparente e não real, ou (2) revisa seu conceito de Deus. (Sim, é por isso que no meu diálogo com Lawrence Krauss eu disse que a teologia é como a ciência por ser um empreendimento em curso capaz de requinte à luz de novos dados). Então, por exemplo, como resultado de meu estudo da eternidade divina, eu vim a rejeitar a visão tradicional de que Deus existe atemporalmente, mas aceitar que Ele é atemporal apenas à medida que Ele existe sem a criação — uma visão que acaba sendo bastante bíblica e também coerente. Talvez eu esteja errado sobre isso (como, sem dúvida, muitos dos meus colegas pensam!). Não importa! A teologia bíblica permite uma diversidade de visões. Apresente os seus argumentos, eu vou apresentar os meus, e vamos falar sobre isso.

Então, eu não ficaria tão empolgado, se eu fosse você, sobre o livro de Martin, o qual é representante de uma geração passada. O argumento que você compartilha contra a onipotência divina é um caso perdido, já que o termo-chave "todo-poderoso" não é sequer definido (sem mencionar o fato de que o argumento, tal como está não é sequer um argumento logicamente válido!). Se você quiser ler uma formulação brilhante de uma doutrina coerente da onipotência divina, veja o artigo "Maximal Power" [Poder Máximo] escrito por dois filósofos superdotados da Universidade de Notre Dame, Thomas Flint e Alfred Freddoso. É uma das melhores peças de filosofia da religião que eu já li. (Mas saiba disso: é muito técnico!)

O artigo de Flint e Fredosso está reproduzido na minha antologia Philosophy of Religion: a Reader and Guide [Filosofia da Religião: Um Livro e Guia (Edinburgh: Edinburgh University Press, 2002), juntamente com vários outros dos melhores ensaios sobre a coerência do teísmo. Mais acessível ao leitor leigo seriam meus dois capítulos em Filosofia e Cosmovisão Cristã, que eu escrevi com o J. P. Moreland (Downers Grove, Ill .: Inter-Varsity Press, 2003). Ambos os livros contêm bibliografias úteis que lhe direcionarão para a abundante literatura sobre este tema. Ninguém que conhece essa literatura poderia pensar que os argumentos para a incoerência do teísmo são impossíveis de refutar.

- William Lane Craig