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#241 Alguns Seres Contingentes (ou Outro) Devem Existir?

October 28, 2014
Q

Saudações Dr. Craig,

Apesar de não ser cristão, eu admiro profundamente sua pesquisa e trabalho, e é por isso que eu estou escrevendo para lhe perguntar sobre uma crítica que você fez para a posição de Bede Rundle que é necessário que uma coisa ou outra exista (ou seja, algum Universo físico ou outro), mas nada em particular existe necessariamente. Você assinalou:

Alexander Pruss mostrou que a visão de Rundle tem uma consequência extremamente implausível. É plausível que nenhum conjunto de afirmações sobre a não-existência de várias coisas implica, por exemplo, que um unicórnio existe. Afinal, como poderia o fato de que certas coisas não existem implica que alguma outra coisa contingente existe? (Reasonable Faith, pg. 110)

Apesar de em primeira instância eu achar sua crítica bastante atraente, percebi que o teísmo sofre das mesmas dificuldades que você apontou na posição de Rundle. Por exemplo, o teísmo clássico sustenta que Deus é um ser necessário (um ser que existe em todos os mundos possíveis), mas esse ser também tem propriedades contingentes. Há mundos possíveis nos quais algumas propriedades obtém (como a propriedade de criar o Universo), e há outros mundos possíveis em que algumas propriedades não obtém (em um mundo possível, Deus o Filho não tem a propriedade contingente de tornar-se carne).

Digo isto porque a declaração relevante de que alguma propriedade contingente ou outra deve existir necessariamente é uma posição que o teísta deve manter em relação ao próprio Deus. Se Deus escolheu abster-se de criar o Universo, então ele possui a propriedade contingente de não realização de um mundo (ou melhor, Ele ‘realizou’ um mundo possível em que o Universo físico não existia). De qualquer forma, Ele fez uma escolha deliberada de refrear-se do ato de criação. Portanto, há duas coleções diferentes de mundos possíveis: Alguns em que Ele exerce o Seu livre-arbítrio em realizar estados das coisas físicas, e outros em que Ele se abstém ativamente da criar qualquer coisa, e assim, por consequência, materializa um mundo possível em que não ocorre criação.

Jay Wesley Richards, para quem você escreveu um reconhecimento, escreve:

Deus poderia muito bem ter apreciado a propriedade contingente de não ter criado qualquer mundo. Esta propriedade contingente ainda teria sido o produto de sua vontade. Se - ao contrário da realidade - Deus tivesse escolhido assim, ele teria tido pelo menos esta propriedade contingente. Como Deus é livre para criar ou não criar este ou qualquer outro mundo distinto dele, é assim que deve ser [...] Essa propriedade - mas não qualquer propriedade contingente em particular - é uma parte da essência de Deus (embora não, em qualquer sentido desfavorável, uma parte de Deus). (The Untamed God [O Deus Indomado], pg. 183)

Parece-me que a posição exata do cristão (ou de qualquer outro teísta) é que é necessário que Deus possua alguma propriedade contingente ou outra, mas não há nenhuma propriedade contingente em particular que Deus possui necessariamente. Estou indo no caminho certo, ou estou perdendo algum aspecto importante do seu argumento? Obrigado por tomar o tempo para ler isto.

Ariel

<ul><li>United States</li></ul>

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Para aqueles que não têm o pano de fundo para entender esta pergunta, deixe-me dizer que Ariel está falando sobre uma proposta de escape do argumento cosmológico de Leibniz de contingência a favor da existência de Deus como um ser metafisicamente necessário. Em oposição à premissa

1. Tudo o que existe tem uma explicação para sua existência, seja na necessidade de sua própria natureza ou em uma causa externa.

Rundle dá a sugestão nova de que embora não haja nenhum ser que existe por uma necessidade de sua própria natureza, não obstante uma coisa ou outra existe em todos os mundos possíveis. Ou seja, não existe um mundo possível em que não há seres contingentes. Então, em última análise, é simplesmente inexplicável por que existem seres contingentes. Nenhum deles existe necessariamente, nem existe um ser metafisicamente necessário que os causa em qualquer mundo em que eles existem. Não há nem sequer qualquer mundo em que algo (ou algumas coisas) necessariamente existe e nenhum ser contingente existe. Seres contingentes simplesmente aparecem em todos os mundos possíveis, fim da história.

Esta é uma visão bizarra por si só. Mas Alexander Pruss levantou uma objeção filosófica intrigante para ele. Um conjunto de declarações sobre coisas que não existem, por exemplo, "Cavalos não existem, e montanhas não existem, e folhas não existem, e lápis não existem, e assim por diante" não parece implicar que uma coisa específica (digamos, os unicórnios) existe. Mas na visão de Rundle, uma conjunção afirmando a não-existência de cada coisa contingente além de unicórnios implica que existem unicórnios! Pois algo contingente tem que existir na visão de Rundle, e não pode ser qualquer uma dessas outras coisas, então deve ser unicórnios, o que parece loucura!

Agora, o seu ponto, Ariel, parece ser que o próprio teísta sustenta que, necessariamente, existem verdades contingentes. Porque, como você aponta, com razão, o próprio Deus vai ter propriedades contingentes em mundos diferentes. Assim como Rundle sustenta que, necessariamente, existem seres contingentes, assim o teísta afirma que, necessariamente, existem verdades contingentes.

Mas eu não vejo onde a sua resposta à objeção de Pruss vai a partir daí. Dada a afirmação do teísta de que Deus existe em todos os mundos possíveis, é difícil ver como seria um argumento análogo contra o teísta. Suponhamos, por exemplo, que você diga que nenhum conjunto de declarações sobre o que Deus não cria implica uma declaração de que Ele criou os unicórnios. Sem problemas! Pois Deus poderia ter criado nada, e assim a conseqüência desagradável não resulta.

Eu suspeito que o que está por trás de seu argumento é a convicção de que no teísmo existem verdades contingentes para as quais não há explicação. Essa alegação é plausível, embora debatida pelo próprio Pruss. Mas, enquanto isso poderia ter incomodado Leibniz, comprometido como ele era a um forte princípio de razão suficiente, que defendia que não há nenhum fato ou verdade para a qual não há explicação, o gênio da formulação do argumento da contingência de Stephen Davis, que eu sigo aqui, é que sua primeira premissa é uma forma muito fraca do princípio de razão suficiente, que meramente requer que as coisas não existem sem uma explicação de sua existência. É totalmente compatível com a existência de verdades que são fatos brutos sobre o mundo. (O que vai exigir é que as proposições que são os portadores de tais valores de verdade contingentes devem ter uma explicação, não de seu valor de verdade, mas de sua existência, e isso pode ser fornecida pelo teísta.)

Assim, não vejo que na defesa do teísta de que, necessariamente, há ocasiões de verdades contingentes existe qualquer problema para o teísmo paralelo com o problema que a visão de Rundle ocasionaria para o ateísmo.

- William Lane Craig