#232 A Métrica do Tempo
October 28, 2014Caro Dr. Craig,
A minha pergunta é bastante curta. É sobre o assunto do tempo. Eu pensei em perguntar para você, porque é algo que eu venho pensando, e você parece saber uma coisa ou duas sobre esta área (com o perdão do eufemismo). Medimos o tempo por meio de mudanças, correto? Então comparamos as mudanças que observamos com coisas que mudam a taxas constantes, como a rotação da Terra e as mudanças nas estações, e chegamos em nossas medições de tempo dessa maneira. A minha pergunta é, assumindo que o tempo é imensurável em princípio (Não há necessariamente nenhum ponto de comparação para a medição) na ausência de mudanças, este fato teria qualquer relação com a realidade do tempo em um estado completamente imutável? (Estou falando de mudança real, aqui, não qualquer tipo de sentido MacTaggartiano ou "tipo-verduis".) De maneira mais ampla, se as coisas são imensuráveis mesmo em princípio, isso sempre significa que elas certamente não são reais? Se não, por que não?
Cordialmente,
Dan
<ul><li>Australia</li></ul>
Dr. craig’s response
A [
Esta é uma pergunta interessante, Dan, que tem influência tanto sobre a própria doutrina da eternidade divina quanto sobre o argumento cosmológico kalam.
Sim, medimos o tempo por meio de mudanças nas coisas físicas que nós tomamos como nosso padrão. Observe a arbitrariedade em última análise de tal procedimento, no entanto: pois a menos que assumamos que o próprio tempo tem uma medida intrínseca, não temos motivos para a pensar que algumas mudanças continuam “a taxas constantes.” Nós podemos julgar que um relógio atômico tem um certo número de batimentos por segundo constante, apenas se o tempo tem uma métrica intrínseca, que permita comparar intervalos de tempo não sobrepostos com respeito ao seu comprimento, de modo a diferenciar intervalos de um segundo. Isso não quer dizer que o tempo é realmente composto de segundos; e sim o que se quer dizer é que, se tomarmos um intervalo que chamamos de um segundo, então qualquer outro intervalo não-sobreposto será ou mais longo que, menor do que, ou igual ao nosso segundo. Nesse caso, é uma questão significativa perguntar se um relógio atômico tem um número constante de batidas por segundo, e por isso é uma boa medida de tempo.
Em contraste, se o tempo não tem métrica intrínseca, como convencionalistas métricos asseguram, então simplesmente não há certeza se qualquer intervalo de tempo não-sobreposto é ou mais longo do que, menor do que, ou igual ao nosso segundo. Nesse caso, não há uma resposta à pergunta se o nosso relógio atômico realmente tem uma taxa constante de mudança e por isso é uma boa medida de tempo. É apenas uma convenção humana que certos processos procedem a taxas constantes.
Há poucos filósofos do tempo que defendem o convencionalismo métrico. Não há bons argumentos para isso, e parece altamente contra-intuitivo dizer, por exemplo, que a duração do meu horário de almoço não foi realmente menor do que a Era Jurássica.
Ainda assim, há um trio de filósofos cristãos, John Lucas, Richard Swinburne, e Alan Padgett, que eu apelidei de a Escola de Oxford, que apóiam o convencionalismo métrico e uma visão atendente da eternidade divina. Portanto, vamos explorar a sua pergunta: "este fato tem qualquer relação com a realidade do tempo em um estado completamente imutável?" Bem, não diretamente. Se o tempo existisse em um estado tal sem mudanças, não depende da métrica de tempo, a menos que você defenda uma visão relacional ou substantiva de tempo. Se o tempo pode existir como uma substância no seu próprio direito, independentemente de mudança, então poderia haver tempo antes da criação, mesmo se não há eventos. Deus existiria literalmente antes da criação. Por outro lado, em uma visão relacional de tempo, "antes" e "depois" não existiriam na ausência completa de qualquer evento. Então Deus, existindo sem mudanças sem a criação, seria neste ponto de vista, parece-me, atemporal.
A Escola de Oxford afirma que Deus existe literalmente antes da criação. Alguns podem tentar justificar isto até mesmo em uma visão relacional do tempo dizendo que a própria criação é um evento que determina um "antes" e um "depois". Isso não é de todo claro para mim. Mas vamos conceder-lhes Deus sendo temporal antes da criação para ver como sua visão se vira. Na ausência de quaisquer acontecimentos antes da criação, não há nenhuma métrica de tempo que permitiria que alguém comparasse os comprimentos dos intervalos temporais não sobrepostos. Então, se Deus, existindo sozinho antes da criação, fosse sem mudança, não se poderia diferenciar um segundo de um trilhão de anos em tal tempo. Seria sem sentido perguntar quanto tempo Deus existiu antes da criação do mundo. Então, esses pensadores sustentam que Deus sempre existiu em um tempo não-métrico que transcende as nossas medidas convencionais de tempo. Padgett refere-se a este estado como "atemporalidade relativa." Mas é, na verdade, um tempo real.
Um recurso interessante deste ponto de vista é que ele remove qualquer dificuldade percebida sobre a necessidade das causas serem temporalmente anteriores a seus efeitos. Algumas pessoas tropeçam na ideia de Deus criando o universo (ou o Big Bang), porque as causas devem ser anteriores aos seus efeitos no tempo, e não há tempo antes do Big Bang. De fato, Stephen Hawking em um recente programa de televisão "Curiosity" apresenta essa dificuldade como uma prova para o ateísmo (ver Pergunta da Semana # 226)! Estou inclinado a dizer, com a maioria dos filósofos, que eu acho que as causas não precisam existir temporalmente antes de seus efeitos. Mas para aqueles que estão pendurados nessa dificuldade, a temporalidade relativa fornece uma boa maneira de cair fora: Deus existe temporalmente antes de causar o Big Bang, não no tempo físico, mas em Seu próprio tempo, o tempo em que Deus mesmo sofre.
Pode-se pensar que o argumento cosmológico kalam seria incompatível com Deus existindo em um tempo sem começo, não-métrico. Mas isso não é óbvio. Como eu já formulei, os argumentos kalam contra um regresso temporal infinito de eventos dizem respeito a eventos de duração temporais iguais. Estes argumentos implicariam que o tempo métrico deve ter começado a existir, uma vez que não pode ter havido um número infinito de anos no passado, por exemplo. Mas se apagarmos a métrica intrínseca do tempo, então não faz sentido falar sobre o número de anos anteriores a criação. Assim, o argumento kalam iria mostrar que o tempo métrico começou a existir, mas permite que Deus poderia existir em um tempo não-métrico antes da criação. Assim, as dúvidas daqueles que se opõem ao argumento kalam porque eles não veem, por exemplo, como um ser atemporal poderia ter um efeito temporal ou como um ser com intenções poderia existir atemporalmente ou como o estado de existência de Deus sem a criação poderia ser atemporal deveriam ser completamente dissipadas, uma vez que de acordo com o Deus da Escola de Oxford está no tempo antes da criação.
Se tirar a métrica do tempo é suficiente para evitar os problemas que permeiam uma regressão infinita de eventos é discutível. Pode ser necessário retirar do tempo não só suas propriedades métricas, mas também suas propriedades topológicas, isto é, a sua estrutura em linha. Nesse caso, um “antes” indiferenciado antes da criação começa a parecer muito com um estado de atemporalidade, que é o ponto de vista que eu prefiro.
- William Lane Craig