back
05 / 06
bird bird

#328 Calculando a Probabilidade da Existência de Deus

May 16, 2015
Q

Dr. Craig, eu sou um espectador seu por muito tempo. Minha esposa e eu, pessoalmente, adoramos seu livro “Em Guarda” e meus filhos gostam da série “What is God Like?” [Como É Deus?]. A minha pergunta é uma que nasceu da frustração ao lidar com um colega meu ateu. Ela definitivamente afeta outros ao meu redor, e inclusive a mim, e não consigo encontrar nada em seus livros ou no site que me ajude a resolver isso: a questão de que probabilidade para que Deus exista seja igual a zero.

Ele diz que quando você quer encontrar a probabilidade de um evento acontecer, você simplesmente divide o evento pelo total de todos os eventos. Um exemplo simples disso seria a da probabilidade de conseguir o número 1 ao rolar um dado de seis lados, que seria um (o evento que você deseja) dividido por 6 (todos os eventos possíveis). Então, quando você quer saber a probabilidade de que deus exista, você simplesmente divide o que você escolher por todos os outros possíveis eventos, já que você não tem nenhuma prova que indique que qualquer deus é mais provável do que qualquer outro deus, isso lhe dá um número infinito de eventos possíveis. Então, fazendo a probabilidade, você tem 1 dividido por infinito que é zero. Quando questionado que o infinito é a constante incorreta a usar, ele respondeu dizendo, “Ok, por que o infinito não é o número certo de usar? Você tem alguma prova para um deus específico que ninguém parece saber a respeito? Se você não tem isso, então por que nenhum outro deus é igualmente provável? Isso não é ciência, é lógica básica. Como eu não tenho que provar que eles existem, eu posso fazer ou criar novos deuses todos os dias. Quando algo não é provável, dispõe de um conjunto infinito de casos parecidos por padrão. Mais uma vez, isso é lógica básica”.

Jason

Estados Unidos

  • United States

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Enquanto sua pergunta levanta algumas questões técnicas da teoria da probabilidade, para as quais eu vou retornar no final desta resposta, com toda a franqueza, Jason, dada a sua familiaridade com Em Guarda e com outros recursos, responder a esta pergunta deveria ter sido fácil para você! Olhe para a p. 179 do Em Guarda:

As probabilidades são sempre relativas a alguma informação anterior[...] Ora, os ateístas dizem que a existência de Deus é improvável. Deveríamos imediatamente perguntar: 'Improvável em relação a quê?' Que informação anterior você tem para afirmar isso? [...] O que nos interessa saber é se a existência de Deus é provável em relação ao completo escopo [gama] das evidências.

Se você tivesse feito essa pergunta ao seu amigo, teria ficado evidente que ele não está considerando nenhuma informação anterior! Ele parece estar falando de uma espécie de probabilidade absoluta para a existência de Deus Pr (D) na abstração de qualquer informação anterior I e evidências específicas E. Isso é um exercício inútil. Ele parece estar imaginando todas as possíveis deidades que poderiam existir e perguntando: "Quais são as chances, a priori, de que um destes exista?" Que bobagem! Isso é o mesmo que perguntar sobre a probabilidade absoluta de que uma determinada pessoa, por exemplo você, exista, dado o número infinito possível de pessoas que poderiam existir. Ninguém está interessado em tais probabilidades absolutas, se é que existem essas coisas. O que queremos saber, antes, é a probabilidade da sua existência ou da existência de Deus relativa à nossa informação anterior e evidências específicas: Pr (D | E & I).

Agora, no Em Guarda, eu lhe dou quatro argumentos independentes a favor da existência de Deus que vão mostrar que Pr (D|E & I) >> 0.5. Assim, você deveria rejeitar categoricamente a afirmação de seu amigo de que "você não tem nenhuma prova que indique que qualquer deus é mais provável do que qualquer outro deus". (Como você poderia ter deixado passar essa, Jason? É para isso que servem esses argumentos!) Quando ele exige "você tem alguma prova de um deus específico [...]?", você deveria ter respondido: "Sim, eu tenho evidências relativas a existência de Deus que são bastante prováveis". Então ele teria que lidar com seus argumentos. Ele já não poderia apelar para a sua probabilidade a priori, da mesma forma que para alguém negar sua existência teria que lidar com a evidência para sua existência. Isso lança uma discussão dos argumentos teístas, que é exatamente onde você quer estar!

Quanto aos aspectos técnicos, quando seu amigo afirma: "Se você não tem isso [ter provas para existência de Deus], então por que nenhum outro deus é igualmente provável? Isso não é ciência, é lógica básica", ele está pressupondo uma teoria da probabilidade lógica que é altamente controversa e é rejeitada por quase todos os teóricos da probabilidade hoje. Encontrei esta pergunta em preparação para o meu último debate com Michael Tooley há vários anos. Eu consultei Timothy McGrew, professor de Filosofia na Western Michigan, que escreve sobre a teoria da probabilidade. Tim explicou-me que a maioria dos teóricos negaria que a ausência de evidências para a probabilidade da existência de Deus deve ser computada, como seu amigo sugere.

É certo que na ausência total de evidências há uma espécie de simetria de ignorância sobre visões concorrentes. Nós não teríamos nenhuma ideia qual é verdade. Mas seu amigo interpreta que isso significa que as opções concorrentes são todas igualmente prováveis. E isso é falso. Para ver o porquê, considere uma ilustração fornecida pelo matemático Peter Walley de um saco fechado de bolas coloridas de mármore. Se você pegá-lo e tirar uma dessas bolas, qual seria a probabilidade que o mármore fosse vermelho? Walley diz:

Uma resposta ingênua é dizer que, porque há dois resultados possíveis (vermelho ou não-vermelho) e nenhuma informação para favorecer qualquer um dos dois, a probabilidade deve ser ½ [...] Mas pode-se aplicar o mesmo princípio para as cores azul e verde em vez de vermelho [...] e elas não poderiam, cada uma, ter a probabilidade ½ [...]. Qualquer avaliação precisa parece bastante arbitrária.1

De acordo com Walley, a resposta correta é dizer: "Eu não tenho nenhum tipo de informação sobre a chance de tirar uma bolinha vermelha, então eu não vejo porque eu deveria apostar em favor, ou contra, que ela possa ser vermelha com qualquer probabilidade".

Wally, então, fornece um modelo diferente de probabilidade o qual atribui, não aos valores precisos para diferentes alternativas, mas aos intervalos. Por exemplo, na ausência de qualquer informação sobre a cor das bolinhas no saco, o modelo atribui a probabilidade vácuo de 0 a 1 de tirar uma bolinha vermelha, que é exatamente o que deveria ser para um estado de completa ignorância.

Aplicado à existência de Deus, o que isso significa é que, na ausência de qualquer evidência, devemos simplesmente não ter opinião sobre se Deus existe ou não. Isso não tem nenhuma implicação de que a probabilidade da existência de Deus seja 0.

A teoria do seu amigo se assemelha a Logical Foundations of Probability [Fundamentos Lógicos de Probabilidade] de Rudolf Carnap (1951), no qual Carnap tentou formalizar probabilidades anteriores ou prévias em termos de descrições de estado e descrições de estrutura de um sistema. McGrew comenta,

A tentativa de estabelecer as probabilidades anteriores de forma objetiva, utilizando descrições de estado e descrições de estrutura, capta duas de nossas intuições: ela permite aprender pela experiência e endossa a ideia de senso comum que, na ausência total de informações, seria precipitado ser muito confiante de uma declaração contingente complexa. Mas, também, isso tem muitos problemas que têm sido conhecidos desde a publicação do Logical Foundations of Probability de Carnap em 1951. Em particular, as probabilidades são relativas à linguagem utilizada na descrição, adicionando mais predicados mudam as probabilidades, um fato que o próprio Carnap entendeu muito bem. Há outras abordagens para aprender pela experiência que não sofrem com esse defeito. Utilizar este tipo de sistema artificial para estabelecer uma presunção contra a existência de Deus é realmente bastante cômico.

Portanto, não se deixe enganar pelo apelo confiante do seu amigo para "lógica básica." Ele está apenas soprando fumaça.



Notas:

1 Peter Walley, “Inferences from Multinomial Data: Learning about a Bag of Marbles,” Journal of the Royal Statistical Society B 58/1 (1996): 3-57, pp. 4-5.

- William Lane Craig