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#202 Conhecimento Médio e o Inferno

October 28, 2014
Q

Dr. Craig,

Primeiro eu queria agradecer por este site e por seu trabalho. Eu passei por um período de questionar a minha fé no cristianismo e através do meu processo de pesquisa sobre minha objeção ao cristianismo eu encontrei o seu site, debates, e seus escritos. Como engenheiro, eu aprecio muito o seu trabalho para aproximar o cristianismo da lógica e da razão.

Eu tenho lutado com a minha fé em uma pergunta que você abordou no passado: o Problema do Inferno. Eu sinto que nunca foi respondida de forma adequada, ou pelo menos não no que diz respeito a uma objeção em particular que eu tenho com a questão. Vou indicá-la como tal:

"Como Deus pode ser considerado totalmente bom, quando ele conscientemente criou os anjos, o universo e a humanidade, sabendo que o inferno seria um requisito para tal mundo, e também sabendo que a maioria das pessoas seria condenada a ele por toda a eternidade?"

Eu acredito que essa objeção é válida porque mesmo se alguém está condenado ao inferno como resultado de sua própria vontade, o fato é que Deus usando o seu conhecimento médio já sabia que a pessoa iria escolher livremente ir contra Deus, e, portanto, seria condenada ao inferno, mas criou a pessoa/mundo/o inferno de qualquer maneira. O destino é tão terrível, e o número de pessoas que seriam condenadas é tão alto que, a meu ver, a única escolha moral seria ou não criar o universo/a humanidade, ou não criar a humanidade com o livre arbítrio.

Ainda, afirmo que o inferno é um destino tão terrível, que eu considero sua criação com um lugar de tortura eterna consciente (ou mental como você interpreta, ou física de acordo com a interpretação tradicional) é em si uma coisa moralmente errada a fazer. Pelo menos do meu ponto de vista, nada pode justificar a condenação à tortura eterna consciente. Eu não sou um ser de amor perfeito, mas eu não desejaria tal destino nem mesmo para os piores exemplos de humanidade: Hitler, Stalin, Pol Pot, etc.

A partir do seu debate com o Dr. Bradley, você parece se livrar deste conceito afirmando "por que os incrédulos deveriam ter um poder de veto sobre a criação de Deus?" e eu gostaria de afirmar que eles não pediram para serem criados, e se tivessem sido apresentados à escolha difícil de Não-Existência e Tortura Eterna Consciente eles, sem dúvida, escolheriam não-existência. Também ao escutar seus debates sobre a existência de Deus, vejo que você afirmaria oposição à tortura como um exemplo de valores morais objetivos, porém é exatamente isso que nós cristãos acreditamos que Deus faria para os incrédulos.

Eu gostaria muito de ouvir suas respostas a estas perguntas, ou você acha que elas não poderiam ser respondidas?

Tenho achado este problema tão preocupante que cheguei à beira da apostasia. Foi em uma combinação de falar com os pastores da minha igreja e ouvir suas debates que eu encontrei a única maneira de superar essa pergunta e voltar a minha fé. Eu não encontrei uma resposta (por isso que pergunto a você), mas o que eu encontrei foi semelhante ao que você tem feito em debate, quando colocado diante de evidências que fazem alguém questionar a existência ou natureza de Deus: Encontre outra coisa que possa continuar a fazer a crença em Deus mais plausível do que as provas contra ele.

Isto é o que eu deduzi:

1) O Problema do Inferno (e minha afirmação posterior) é baseado em aceitar o cristianismo como verdadeiro como premissa inicial.

2) Ao aceitar o cristianismo como verdadeiro, é preciso também aceitar que Jesus Cristo é o filho de Deus, e que seu sacrifício é a forma como alguém pode chegar a Deus e escapar do inferno.

3) Deus não só forneceu um sacrifício através de Cristo para a humanidade, mas, antes, ele criou o nosso mundo real, que ele, logicamente, já tinha que se comprometer com o plano de sacrifício de Cristo.

4) Porque Deus se comprometeria com um sacrifício tão doloroso de si mesmo antes de criar o mundo real, portanto, é *plausível* acreditar que Deus deve ter tido uma boa razão para continuar a ir em frente com o ato de criação.

Eu vejo isso como uma maneira de conciliar o que de outra forma pareceria (pelo menos para mim) como uma contradição lógica entre Deus sendo totalmente bom e seres criados serem condenados ao inferno. Eu também gostaria de saber a sua opinião sobre esta dedução, e se você acha que ela é logicamente válida, ou até mesmo teologicamente significativa, uma vez que parece ser um “engloba tudo" que poderia responder a praticamente qualquer objeção.

Finalmente, embora eu possa ter encontrado uma maneira de contornar o problema, não encontrei uma maneira de respondê-la. Além de perguntar a acadêmicos como você, eu me comprometi com a ideia de investigar se doutrina da aniquilação poderia, ou não, ser biblicamente válida. Eu li alguns trabalhos que têm um argumento convincente, mas sinto que é tão divergente do que me foi ensinado, que levaria mais investigação para acreditar nisso como uma tradução/interpretação válida. Se você tem quaisquer referências a livros ou artigos sobre o assunto, seria muito apreciado.

Obrigado,

John

<ul><li>United States</li></ul>

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

A sua é uma pergunta pensativa e difícil, John. Eu acho que a sua resposta à objeção é bem feita. O que você oferece, na verdade, não é um defeater [anulador ou invalidador] de subcotação ou refutador, mas o que eu chamo de um defeater [anulador/invalidador] esmagador da conclusão do argumento, ou seja, algumas considerações a favor da fé cristã, que são mais garantidas o justificadas do que a objeção contra ela. Quando não podemos responder a algumas objeções à fé cristã, podemos racionalmente continuar a manter-nos no cristianismo, se temos garantia para a verdade do cristianismo, que é maior do que a garantia possuída pelo objeção. Assim, você pode afirmar que Deus tem uma boa razão para a criação de um mundo em que as pessoas livremente se separam de Deus para sempre, mesmo que você não saiba quais são. Isso me parece ser uma resposta perfeitamente racional, dados os bons argumentos e evidências para a verdade do cristianismo e do testemunho do Espírito de Deus.

Mas vamos pressionar com mais força. Suponha o pior cenário possível. O que a objeção, se totalmente bem sucedida, exige que você abandone? A existência de Deus? A ressurreição de Jesus? Não! Ela parece exigir que você abandone a inerrância bíblica, pelo menos no que diz respeito à realidade do inferno. Isso seria chocante, mas não é nenhum motivo para cometer apostasia!

Mas talvez nem exija tanto. Como você disse, você sempre pode adotar o aniquilacionismo, como alguns cristãos evangélicos têm feito. Isso pareceria resolver seu problema.

Mas suponha que você acha que o aniquilacionismo não é a correta interpretação do Novo Testamento com respeito ao inferno. E depois? Bem, repare que a objeção pressupõe a doutrina do conhecimento médio. Pois ela assume que logicamente anterior ao decreto criativo de Deus, Ele sabia o que qualquer pessoa poderia livremente fazer em resposta à Sua graça. Se Ele não tem tal conhecimento, então a objeção não pode sequer sair do chão. E não precisa ser dito que o conhecimento médio é uma doutrina muito debatida que não depende de o cristão ser biblicamente fiel. Assim, você pode evitar completamente a objeção apenas ao negar conhecimento médio. Eu espero que você esteja começando a respirar mais fácil.

Mas suponha que você pense, como eu, que Deus tem conhecimento médio. Aqui a minha resposta, como você nota, é que aqueles que rejeitam livremente o amor e o perdão de Deus e todo o Seu esforço para salvá-los, e assim condenam-se para sempre, contra a Sua vontade, não devem ser autorizados a ter um poder de veto sobre Deus criar um mundo em que multidões de outras pessoas aceitam livremente a Sua graça e são salvos. Por que a bem-aventurança e alegria de quem seria salvo deveria ser prevenida por causa do que pessoas más e intransigentes livremente fariam? Por que elas deveriam ser autorizadas a impedir um bem incomensurável?

Sua resposta é que os incrédulos "não pediram para serem criados, e se tivessem sido apresentados à escolha difícil de Não-Existência e Tortura Eterna Consciente eles, sem dúvida, escolheriam não-existência." Esta resposta parece perder o impulso da minha resposta. É claro que o condenado preferiria não ter sido criado! Obviamente! Mas a minha pergunta é por que a tais pessoas, livremente rejeitando a Deus, deveria ser permitido prevenir a bem-aventurança e alegria daqueles que livremente aceitariam a salvação de Deus? Essas pessoas não deveriam ser privilegiadas em relação àqueles que amam e querem Deus. Enquanto Deus dá graça suficiente para a salvação de cada pessoa que Ele cria e quer a salvação da pessoa, eu não posso ver que Deus seja menos amoroso por criar um mundo com menos do que salvação universal, em vez de se abster-se da criação de criaturas completamente livres. (Lembre-se que nós estamos assumindo que não existem mundos viáveis para Deus criar que envolvam a salvação universal, sem desvantagens maiores). Mas se não é menos amoroso, então qual é o problema?

Você sugere que a criação do inferno "é, em si, uma coisa moralmente errada a fazer." Ah, aí está o problema! Sua objeção não está realmente enraizada em conhecimento médio depois no final das contas, mas em sua crença de que o inferno é incompatível com a natureza de Deus. Isso coloca uma perspectiva muito diferente sobre as coisas. Como eu já procurei mostrar em outro lugar, a realidade do castigo eterno não é de forma alguma incompatível com o amor ou justiça de Deus (Perguntas 35, 55, 172). Você deveria ler as respostas em relação a esta resposta.

Deus não deseja o inferno para ninguém também, John. Ele não tem prazer na morte do ímpio (Ezequiel 33:11). Mas aqueles que rejeitam a Deus livremente merecem seu terrível destino; expulsaram a vida eterna deles. São realmente eles mesmos, e não Deus, os responsáveis pela realidade do inferno. Em mundos possíveis (se inviáveis??) em que todos ou sempre fazem a coisa certa, ou então se voltam para Deus para o perdão, o inferno não existe. Ele existe apenas nesses mundos em que criaturas rebeldes rejeitam livremente o amor de Deus e assim separaram-se dEle para sempre.

- William Lane Craig