back
05 / 06
bird bird

#224 Deísmo e Religião Revelada

October 28, 2014
Q

Caro Dr. Craig,

Eu sou um católico de Karachi, no Paquistão atualmente residindo em _______________. Tenho feito um monte de leitura nos últimos 10 anos, mais ou menos, a maioria sobre religião (comparativa), história, pesquisa e o oculto/maçonaria/banco internacional e assim por diante. Recentemente, (não que eu já não tenha lido ou me deparado com isso várias vezes antes) fui mais especificamente para um monte de argumentos mais estruturados feitos por naturalistas, incluindo o chamado conflito entre ciência/religião/evolução e tenho pesquisado um pouco nesta área.

Chegando à minha pergunta, alguns entre a elite no nosso lugar em Karachi são fortemente influenciados por Dawkins (não eu) nos dias de hoje. Mas eu estou mais interessado nos argumentos mais filosóficos/racionais que entram em jogo e, portanto, estou mais interessado no que Daniel Dennet tem a dizer, por exemplo. Portanto, minha pergunta é sobre o deísmo. Eu já ouvi sobre isso antes e eu ouvi no debate dele com você. Ele diz que esta entidade além do espaço e do tempo é um “Deus deísta, no máximo." Então aqui está o que eu quero entender. Houve conceitos no passado, havia o Deus de Spinoza, algumas centenas de anos atrás, outras várias sugestões em direção a um Deus impessoal. Agora aqui está o que eu quero saber, porque eu não compreendo totalmente (ou seja, em primeiro lugar, a posição deles e, em seguida, um resposta à):

a) Qual ângulo exatamente eles tomam inclinando-se para Deus ser impessoal e deísta (o que para o deísta é a racionalização mais forte a respeito de por que Deus não interfere em nosso universo). Estou esperando entender o lado deles, então eu espero que você responda dessa maneira (como se o próprio deísta teria argumentado a favor de um Deus impessoal), apesar de seus próprios pensamentos sobre isto.

b) Seu melhor argumento de por que Deus poderia e iria interferir no mundo. (Agora eu não tenho um problema com questões históricas, como a existência, morte e ressurreição de Jesus e historiadores como Josefo e outras referências por Tácito etc, então eu estou esperando que este argumento não precise avançar rapidamente para Ele). Sem necessariamente lutar com os fatos históricos das coisas (você pode, se for necessário), mas existe mais uma vez um argumento racional a respeito de por que Deus pode e irá interferir no universo, há alguma coisa no espaço e no tempo, ou qualquer outra coisa (incluindo a sua natureza atemporal ou natureza sem mudança como um deísta iria dizer) que um deísta poderia pensar que iria manter Deus longe de interferir mas que você teria uma melhor razão para crer que não se aplicaria?

Eu realmente espero que você possa responder a essa pergunta vinda de um ponto forte deísta (afinal muito poucos filósofos acreditam que Deus é assim) para as suas próprias visões, então, contrariando-as.

Agradeço-lhe muito gentilmente e realmente aprecio seus esforços nos argumentos racionais neste site.

Atenciosamente

Abdon

<ul><li>- country not specified</li></ul>

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Obrigado por sua posição corajosa para Cristo em uma parte muito inóspita do mundo, Abdon! Estou muito feliz por ter a sua pergunta.

(a) Eu li extensivamente nos pensadores deístas da Inglaterra, França e Alemanha, no decurso do meu trabalho sobre a historicidade da ressurreição de Jesus e por isso vim a conhecê-los muito bem. Caso estivesse falando sob o disfarce de um

deísta, como você me pediu para fazer, isto é o que eu diria:

Abdon, onde você pegou a ideia de que nós, deístas, acreditamos em um Deus impessoal? Quem você tem lido? É verdade que Espinosa em suo livro “Ética” refere-se a "Deus" como sinônimo de "natureza" (Deus sive natura), mas esse trabalho não deve ser tomado como representante do Deísmo, mas do panteísmo. Para a fase deísta de Espinoza, veja seu Tractatus theologico-politicus, que sustenta uma divindade pessoal. Nós, Deístas, não diferimos dos monoteístas tradicionais em nossa concepção de Deus como um Criador e Designer pessoal, perfeitamente bom, transcendente do universo. Muitos de nós ainda acreditamos que a humanidade é moralmente responsável perante Deus. O que rejeitamos são as reivindicações da religião revelada, em contraste com as alegações da religião natural. Então, nós nos alegramos quando alguém como William Lane Craig elabora os argumentos da teologia natural contra os ateus e agnósticos de hoje. Onde nós consideramo-lo como equivocado, é em sua aceitação das reivindicações cristãs, a revelação divina em Jesus de Nazaré ou na Bíblia.

Quanto ao porquê de nós pensarmos que o Deus da natureza não interfere no mundo, temos oferecido vários argumentos (alguns dos quais Craig tem prestativamente revisado em seu livro Reasonable Faith). Espinosa achava que as leis da natureza são a expressão da natureza divina e assim não podem ser outras do que elas são, excluindo assim os milagres. Da mesma forma, o temível Voltaire considerou as leis da natureza como matematicamente necessárias e verdades invioláveis, de modo que Deus não poderia intervir na natureza. Hume adotou uma linha mais modesta: nenhum evento poderia ser identificado como uma intervenção milagrosa porque a lei da natureza, que é violada pelo suposto milagre, sempre vai ter mais provas a seu favor do que o suposto milagre. Há muitos desses argumentos, mas francamente eu acho que o nosso ceticismo sobre religião revelada é em grande parte devido a uma espécie de cansaço com a violência e a intolerância característica da religião revelada, assim como uma incredulidade subjacente a reivindicações incompatíveis com uma visão do mundo como um sistema causalmente fechado descrito pela ciência moderna.

(b) Como você sem dúvida sabe, eu sou cético em relação a essas afirmações deístas. Contanto que Deus é o Criador transcendente e Designer do universo, como os deístas admitem, então não parece haver nenhuma boa razão por que Deus não poderia agir causalmente no universo. Como o filósofo australiano Peter Slezak observou em nosso debate, "Para um Deus que é capaz de criar todo o universo, a ressurreição estranha seria brincadeira de criança!"

Subjacente a crítica deísta dos milagres está a definição inepta de milagres como "violações das leis da natureza." Já que as leis naturais governam apenas causas naturais, elas não fazem nenhuma previsão do que vai acontecer se um agente sobrenatural intervém na série de causas naturais. Portanto, os milagres não devem ser considerados como violações das leis da natureza, mas sim como eventos naturalmente impossíveis, ou seja, eventos que não poderiam ocorrer dadas apenas as causas naturais operativas em um determinado tempo e lugar. Se existe um Deus transcendente que criou o universo em primeiro lugar, então não há nenhuma razão para que Ele não pudesse agir para trazer outros efeitos que são naturalmente impossíveis. (Quanto a atemporalidade divina e imutabilidade, eu não atribuo a Deus nenhuma dessas propriedades sem qualificação, e até mesmo o teísta que o faz pode ainda aceitar intervenções divinas se ele adota a chamada Teoria-B do tempo, segundo a qual todos eventos na linha do tempo são igualmente reais e assim presente para Deus.)

Quanto ao argumento de Hume contra a identificação de um milagre, Hume viveu antes do desenvolvimento do cálculo de probabilidade e por isso não levou em conta todos os fatores necessários para calcular a probabilidade de um evento supostamente milagroso, especificamente, a probabilidade de que devemos ter as evidências que temos se o evento não tivesse ocorrido. (Para mais informações, veja o capítulo sobre milagres em Reasonable Faith). Quanto ao cansaço bastante compreensível com a violência e intolerância religiosa, estes são fatores emocionais irrelevantes sobre se, por exemplo, Jesus de Nazaré ressuscitou dos mortos ou Maomé ou Joseph Smith experimentaram revelações divinas. Tais afirmações têm de ser avaliadas por seus próprios méritos.

Então, eu acho que é evidente que, se existe um Criador transcendente, como os deístas acreditam, Ele poderia intervir na sequência de causas naturais. Por que Ele faria isso? Bem, provavelmente para comunicar-nos informação que é específica demais para ser transmitida pela Sua revelação na natureza apenas. Isto seria especialmente necessário se há algum plano de salvação de cuja existência temos de estar conscientes e abraçar como um remédio para a nossa culpabilidade moral diante de Deus. De fato, na visão cristã, a intervenção de Deus não é simplesmente destinada a comunicar mais informações para nós, mas para realmente fazer alguma coisa: a morte de Cristo na cruz é a propiciação pelos pecados da humanidade, tornando a nossa restauração espiritual e moral possível. A menos que Deus fizesse algo, se Ele simplesmente sentasse e não fizesse nada, como o deísta imagina, então devemos ser todos condenados.

Portanto, agora devemos perguntar: Deus interveio no mundo? Alguns argumentaram que a evolução da complexidade biológica e, especialmente, da vida inteligente neste planeta em tão relativamente curto espaço de tempo não é adequadamente explicável em termos de mecanismos naturalistas apenas, e, portanto, necessita de intervenções divinas. Ou se poderia "passar para frente", como estou acostumado a fazer, para reivindicações específicas para a revelação divina a fim de avaliar a credibilidade de tais alegações. Como você talvez saiba, estou convencido de que as alegações de Jesus são vindicadas por Deus levantando-o da morte, um evento para o qual temos surpreendentemente bom atestado histórico. Então, eu acho que Deus não é o Deus indiferente, faz-nada do Deísmo. Ao contrário, Ele é o Deus de Israel, que se revelou à humanidade na história do povo judeu, que culminou com a pessoa e obra salvífica de Jesus.

- William Lane Craig