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#199 Argumento Moral

October 28, 2014
Q

Olá Dr. Craig,

Eu assisti ao seu debate com o Dr. Williamson na Universidade de Saskatchewan, ontem à noite, e fiquei surpreso ao ouvi-lo usar o exemplo de estupro de crianças sendo universalmente visto como errado, como evidência de moralidade objetiva que vem de Deus. Isso não quer dizer que eu discordo de você de que o estupro de crianças deva ser universalmente condenado - é claro que eu concordo - mas, se você quer dizer que a moralidade objetiva vem de Deus, e se, como um cristão, você acredita que a Bíblia é a palavra revelada de Deus, como você faz com relação a existência de Jesus de Nazaré, então como você vê o estupro de crianças de forma tão detestável quando não há nada na Bíblia que o condene? De fato, Deuteronômio 22:28-29 diz que se uma mulher (independentemente da idade) é estuprada, o estuprador deve pagar seu pai 50 pratas e casar com a mulher, que não parece ser uma punição para o estuprador. Isto, naturalmente, exclui mulheres noivas, para quem a punição por ter sido estuprada é a morte se não gritar por socorro (Deuteronômio 22:23-24 NAB). O único caso em que é apenas o estuprador que é punido é se a vítima está noiva (possível, mas não provável que seja uma criança), e ela gritar por ajuda (mais uma vez, uma criança, muito provavelmente, ficaria intimidada a não gritar por ajuda, e, portanto, pela lei bíblica, seria morta). Sem falar nada sobre o abuso sexual de crianças do sexo masculino, para quem parece que Levítico 20:13 ditaria que um menino molestado seria condenado à morte pelo crime de ser uma vítima de estupro. Portanto, sua objeção ao estupro de crianças não pode vir da Bíblia. Portanto, como você pode argumentar que esse senso da objetiva imoralidade da pedofilia, bem como o senso de imoralidade de outros atos que a Bíblia não discute, vem de Deus? Se é devido à experiência pessoal de com Deus alcançada ao abrir o seu coração, como você argumentou no debate, o que dizer daqueles de nós que não tivemos a sorte de receber este relacionamento pessoal com Deus, mas ainda somos moralmente enojados pela pedofilia?

Obrigado,

Spencer

<ul><li>Canada</li></ul>

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

O Argumento Moral

Fico feliz que você veio para o debate, Spencer, (embora o tom da sua pergunta me leva a pensar que você estava torcendo para o outro lado!). Foi uma troca substancial e divertida, não foi?

Temo que você seriamente tenha me entendido mal, Spencer. Aqui está o argumento moral para Deus que eu defendi:

1. Se Deus não existe, os valores e deveres morais objetivos não existem.

2. Os valores e deveres morais objetivos existem.

3. Portanto, Deus existe.

O argumento é logicamente válido; então se você quiser negar a conclusão, você deve rejeitar uma das duas premissas. Então, qual delas você nega? Apesar de apresentar as suas reservas como preocupações com (2), é evidente que você concorda que (2) é verdade, pois você diz não só que você é "moralmente enojado" pelo estupro de crianças, mas que você pensa que "estupro de crianças deveria ser universalmente condenado." Eu concordo. Então, se você nega que Deus existe, você deve rejeitar (1). Mas você rejeitar (1)? Não há nada na carta que sugere que você rejeita.

Então, como devo entender suas preocupações? Talvez o seguinte: você está se perguntando o que garante a afirmação de (2). Você parece pensar que a justificação que ofereço para (2) é a revelação bíblica, que você acha que é insuficiente como justificativa para a (2). Se este não é o seu caso, então eu simplesmente não entendo a sua preocupação.

Mas deveria ser óbvio que esta preocupação não tem fundamento. Eu nunca apelei para a revelação bíblica como uma justificativa para afirmar (2). Pelo contrário, Spencer, afirmo (2) provavelmente pelas mesmas razões que você o faz! Como eu disse em meu discurso de abertura "Na experiência moral apreendemos uma esfera de valores e deveres morais que se impõem sobre nós. Não há mais razão para negar a realidade objetiva dos valores morais do que a realidade objetiva do mundo físico." Gosto da maneira como Louise Anthony colocou em nosso debate dos fundamentos da moralidade: "Qualquer argumento para o ceticismo moral será baseado em premissas que são menos evidentes do que a existência dos próprios valores morais objetivos." Assim, o ceticismo moral nunca pode ser justificado.

Argumento Moral – Uma diferença entre ontologia e epistemologia

Spencer, você mostra que perdeu completamente o sentido do meu argumento quando você continua perguntando: "como você pode argumentar que esse senso da imoralidade objetiva da pedofilia, bem como o senso da imoralidade de outros atos que a Bíblia não discute, vem de Deus?" Não fez parte do meu argumento de que Deus é necessário para explicar nosso senso moral de certo e errado, bem e mal. Repetidas vezes no debate eu cuidadosamente distingui entre a ontologia moral (perguntas sobre a realidade dos valores morais) e a epistemologia moral (perguntas sobre como chegamos a conhecer os valores morais), e eu disse que o meu argumento é apenas sobre a realidade objetiva dos valores morais, não como chegamos a conhecê-los. Vou apelar a todos os mesmos mecanismos que você apelou a fim de explicar como você sabe que (2) é verdadeira. Na verdade, Spencer, eu não acho que precisamos recorrer a Deus de forma alguma para saber que existem valores e deveres morais objetivos, então você está apenas latindo para a árvore errada até onde eu sei.

Quanto à experiência pessoal de Deus, você está confundindo o argumento moral com meu sexto ponto do debate, que podemos saber que Deus existe inteiramente à parte de argumentos ao experimentá-Lo pessoalmente. Eu não acredito, nem sugeri, que a experiência pessoal de Deus é a forma como alguém sabe que (2) é verdadeira. Nem, aliás, sugeri, como você intima, que a justificação para (2) é consentimento universal.

Então, já que eu não apelo para a Bíblia como justificativa para (2), por que todas essas coisas sobre a ética do Antigo Testamento está lotando a discussão? Você diz que o meu argumento a respeito de (a ressurreição de) Jesus mostra a minha crença na Bíblia como a Palavra de Deus revelada. Mais uma vez, Spencer, você não conseguiu entender que o meu argumento sobre a credibilidade histórica de Jesus de Nazaré trata os documentos do Novo Testamento, como trataríamos qualquer documento histórico comum, não revelado, muito menos inerrante. Você está completamente fora da pista aqui. Meu argumento nem pressupôs nem tentou provar que os registros da vida de Jesus eram mais do que registros comuns e falíveis da antiguidade, que são de confiança, pelo menos no que diz respeito aos três fatos que mencionei.

No máximo, então, o seu argumento da inadequação da ética do Antigo Testamento poria em dúvida a infalibilidade do Antigo Testamento, que é simplesmente irrelevante para o poder de persuasão do caso que apresentei para o teísmo cristão.

Argumento Moral - O Antigo Testamento como estrutura suficiente para a moralidade

Mas os seus exemplos fazem pelo menos isso? A imoralidade de estupro é dada imediatamente no sétimo dos dez mandamentos "Não cometerás adultério". Qualquer relação sexual fora dos limites do casamento é proibida pela Bíblia. Assim, o estupro é sempre considerado como imoral na Bíblia. Isso coloca uma perspectiva bem diferente nas coisas. O que a sua reclamação é, realmente, é que as penas para estupro nas passagens que você cita parecem indevidamente brandas. Você acha que as leis criminais contra estupro precisavam ser ainda mais fortes do que eram no antigo Israel. Bem, talvez você tenha razão. O que isso prova? Não há nenhuma afirmação de que as leis de Israel eram perfeitas ou adequadamente expressavam a vontade moral de Deus. O próprio Jesus considerou a lei mosaica sobre o divórcio como inadequada, e não conseguindo captar a vontade ideal de Deus para o casamento (Mateus 5:31-2). Talvez o mesmo fosse verdade para as leis de estupro. Os estatutos criminais de Israel não eram verdades eternas para todas as sociedades, mas foram destinados para Israel em um determinado momento específico de sua história. Além disso, estes estatutos são exemplos de jurisprudência: se acontece tal e tal, então faça isso e aquilo. Estes eram idealizações que serviram como guias e podem admitir todos os tipos de exceções e circunstâncias atenuantes (como a de uma criança ter medo de pedir ajuda).

Em qualquer caso, Spencer, o quanto de esforço você realmente fez para compreender essas leis no contexto cultural do antigo Oriente Próximo? Nenhum, eu suspeito; você provavelmente tem essas passagens de alguma publicação de pensamento-livre ou site, e repetiu-as aqui com poucas tentativas de entendê-las. Por outro lado, Paul Copan, em seu livro Is God a Moral Monster? [Deus um Monstro Moral?] (Baker: 2010) lida com essas passagens em seu contexto histórico, lançando assim luz sobre o seu significado (pp 118-119.). Copan observa que há três casos considerados aqui:

1. Sexo consensual entre um homem e uma mulher que está noiva de outro homem, que era uma violação do casamento (Deuteronômio 22:23). Ambas as partes deveriam ser executadas.

2. Estupro de uma mulher que estava noiva de outro homem (Deuteronômio 22:25). Só o estuprador é executado; a mulher é uma vítima inocente.

3. Sedução de uma jovem mulher que não está noiva de outro homem Deuteronômio 22:28; cf. Êxodo 22:16-17). O sedutor é obrigado a se casar com a jovem e prover para ela, se ela o aceitar; caso contrário, seu pai pode recusá-lo e exigir o pagamento do presente nupcial usual (como um dote) de qualquer maneira.

Em suma, o estupro era um crime capital no antigo Israel. Quanto a Levítico 20:13, este versículo prescreve a pena de morte para a relação sexual consensual entre dois homens; que você interprete esta passagem como condenando uma criança que é agredida por um pedófilo, só mostra o quão tendenciosa sua exegese é.

Se podemos chegar a alguma conclusão, então a Bíblia é muito mais rigorosa em suas leis sobre o comportamento sexual do que somos hoje. Portanto, apesar de apelar à Bíblia não fazer parte do meu argumento para (2), o que a Bíblia ensina sobre a imoralidade de estupro é bem em linha com a minha afirmação de que existem valores e deveres morais objetivos.

- William Lane Craig