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#119 Deus e o Dualismo Mente/Corpo

September 25, 2014
Q

Olá Dr. Craig, eu tenho uma pergunta para você sobre a mente de Deus. Eu entendo que, em contextos religiosos, nós freqüentemente nos referimos de forma muito natural a uma “mente” suprema, transcendente, onisciente supervisionando os acontecimentos do universo (ou gerando-os), mas não consigo deixar de sentir que avanços na neurologia, psicologia cognitiva, biologia, etc. estão basicamente tornando esta intuição incoerente. Ao descobrirmos mais e mais sobre como funciona o cérebro (por exemplo, agora nós podemos manipular alguns sentimentos e emoções ao estimular partes do próprio cérebro), parece uma progressão inevitável que seremos capazes de reduzir a consciência e tudo que ela implica a seus componentes materiais. Usando este conhecimento, eu não consigo ver como alguém pode acreditar que uma “mente” poderia existir sem corpo e, portanto, parece sem sentido pensar em Deus como sendo uma entidade espiritual que pensa como nós se ele não tem cérebro físico. Não consigo deixar de pensar que todas as desordens neurológicas que existem no mundo (por exemplo, aqueles que têm danos cerebrais ou desordens nervosas, que muito freqüentemente são manifestações de um dano físico do próprio tecido cerebral) apontam, de forma inescapável, para um entendimento materialista do cérebro e da consciência. Para mim, isso faz com que seja muito difícil acreditar que seja coerente acreditar que uma mente divina poderia existir… Eu simplesmente não vejo como alguém poderia pensar que existe alguma mente por aí quando toda a evidência que eu conheço sugere que mentes são idênticas aos cérebros. Estou ciente de que algumas pessoas religiosas citariam certas experiências fora do corpo ou experiências de quase-morte em que pessoas registram o testemunho de suas “almas” relacionadas a uma experiência pós-morte, mas eu, inevitavelmente, acho que as explicações céticas para estes fenômenos são mais convincentes. Seus pensamentos e esclarecimentos seriam grandemente apreciados,

Michael

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Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Eu encontro seu tipo de pergunta com freqüência cada vez maior ao falar em alguns campi universitários sobre a existência de Deus. Eu recentemente tive o prazer de ler o excelente livro de Stewart Goetz e Charles Taliaferro Naturalism [Naturalismo] (Grand Rapids, Mich: Wm. B. Eerdmans, 2008), que lida justamente com a sua pergunta. Então eu convidei o Dr. Goetz, que é professor de filosofia na Ursinus College e um especialista em filosofia da mente para responder a sua pergunta como um colunista convidado nesta semana. A resposta dele segue abaixo:

Prezado Michael,

O Dr. Craig me convidou para responder sua pergunta interessante concernente à mente de Deus. A lógica da sua preocupação parece ser a seguinte: Nosso conceito de Deus é enraizado em nosso conceito de nós mesmos. Portanto, se pensarmos que Deus é uma mente imaterial (alma) que existe sem corpo, então isso é porque nós pensamos em nós mesmos como mentes imateriais (almas) que podem existir sem corpo. Avanços na neurociência contemporânea e na psicologia cognitiva fornecem evidências que diminuem a coerência da visão de que nós somos mentes imateriais que podem existir sem corpo. Portanto, a coerência de nossa ideia de Deus como uma mente sem corpo é colocada em dúvida.

Quais evidências a neurociência contemporânea oferece para apoiar a visão de que nossas mentes não são imateriais? Você acredita que a evidência é de natureza causal: o fato de que nós podemos estimular partes diferentes do cérebro e produzir causalmente sentimentos, pensamentos, emoções, etc., apóia a visão de que estes eventos/estados psicológicos são, também, materiais. Além do mais, o fato de que danos cerebrais causam problemas psicológicos também suporta uma visão materialista de nós mesmos. Resumindo, o que sabemos da neurociência justifica a afirmação de que nossas mentes são idênticas aos nossos cérebros.

Embora concorde com a ideia de que nosso conceito de Deus é enraizado em nosso conceito de nós mesmos, não estou convencido de que a evidência oriunda da neurociência dá suporte à visão de que nossas mentes são idênticas aos nossos cérebros. As razões para eu não estar convencido são diversas.

Primeiro, a neurociência não contribui com nada substancialmente novo para a nossa compreensão de nós mesmos e nosso relacionamento com nossos corpos. Nós sabemos há muito tempo que nossas vidas mentais podem ser e são causalmente relacionados ao que acontece com os nossos corpos. Afinal, não precisávamos da neurociência para saber que uma boa pancada na cabeça poderia produzir uma mudança em nossa vida psicológica. Todo mundo sabe que ao deixar um tijolo cair no pé de alguém isso irá produzir dor. O que a neurociência tem feito é nos oferecer uma imagem mais detalhada de como a mente humana é influenciada por certos eventos no cérebro. A neurociência não mudou a natureza geral dessa imagem. O fato de que muito do que acontece em nossas mentes é influenciado pelo que acontece em nossos corpos era algo conhecido pelos primeiros seres humanos autoconscientes.

Segundo, apesar de você não comentar nada sobre esse ponto, ele é muito importante: nem tudo que acontece em nossas mentes é causalmente determinado pelo que acontece em nossos corpos. Às vezes, o que acontece em nossos corpos é resultado do que acontece em nossas mentes. Por exemplo, os movimentos dos meus dedos enquanto digito esta resposta à sua pergunta são, em última instância, produzidos pelos meus eventos mentais. Eu escolhi aceitar o convite do Dr. Craig para responder sua pergunta e esta escolha levou a uma intenção de digitar esta resposta. Aqui nós temos causação mental-ao-físico. O que explica tanto esta minha escolha quanto os eventos físicos no meu corpo que, em última análise, são produzidos por esta escolha? A explicação está no propósito de fornecer uma resposta à sua pergunta. Uma explicação relacionada ao propósito de algo é uma explicação teleológica. É um fato bem conhecido que aqueles que identificam a mente com o cérebro tipicamente negam que qualquer um de nós livremente (de forma não determinista) faz escolhas motivadas por propósitos. Materialistas tipicamente são deterministas que insistem que o único tipo legítimo de explicação é uma explicação não-teleológica. Explicações causais são o tipo mais bem conhecido e freqüentemente usado de explicações não-teleológicas. Aqueles que excluem a possibilidade de explicações teleológicas são freqüentemente chamados de “naturalistas”. Meu colega, Charles Taliaferro, e eu escrevemos um livro entitulado Naturalism (Grand Rapids, Mich: Eerdmans Publishing Company, 2008) no qual nós explicamos o que é o naturalismo e oferecemos uma crítica do mesmo. Você pode achá-lo útil.

Terceiro, acredito que é importante notar que alguns dos principais neurocientistas do mundo acreditavam que a mente é imaterial. Estes neurocientistas estavam cientes de que estimular o cérebro pode produzir alguns resultados psicologicamente intrigantes. Um dos pioneiros na área da neurociência era Wilder Penfield. Em seu fascinante livro chamado The Mystery of the Mind [O Mistério da Mente], ele escreve o seguinte:

Quando fazia com que um paciente consciente movesse sua mão ao aplicar um eletrodo ao córtex motor de um hemisfério, freqüentemente perguntava para ele a respeito da experiência. Invariavelmente a resposta dele era: 'Eu não fiz isso. Você fez'. Quando o fiz vocalizar, ele disse: 'Eu não fiz este som. Você o tirou de mim'. Quando eu fiz o registro do fluxo de consciência começar de novo e então apresentei a ele o registro de sua experiência passada, ele se maravilhou com o fato de que ele pudesse estar consciente do passado assim como estava do presente. Ele ficou abismado com o fato de que a memória da experiência tinha voltado a ele tão completamente, com mais detalhes do que ele poderia ter se recordado voluntariamente. Ele presumiu no início que, de alguma forma, o cirurgião era responsável pelo fenômeno, mas reconheceu os detalhes como aqueles de sua própria experiência passada. (76)

Penfield continua e menciona que “Não há lugar no córtex cerebral onde estímulos elétricos farão com que um paciente… decida” (77). Isto é consistente com o meu ponto de que escolhas são eventos indeterminados com uma explicação teleológica. À luz de seu trabalho como um neurocientista, Penfield conclui o seguinte: “Da minha parte, depois de anos procurando explicar a mente com base na atividade cerebral apenas, cheguei à conclusão de que é mais simples (e muito mais fácil e lógico) se alguém adota a hipótese de que nosso ser consiste de dois elementos fundamentais” (80).

Outro neurocientista famoso que acreditava que a mente é imaterial foi Sir John C. Eccles. Ele e o respeitado filósofo da ciência Sir Karl Popper escreveram um livro intitulado The Self and Its Brain [O Eu e Seu Cérebro] em que eles argumentam que a mente humana é melhor compreendida em termos dualistas interacionistas (a mente e o cérebro são entidades separadas que interagem causalmente). Depois de ler The Mystery of the Mind e The Self and Its Brain e muitos outros livros similares e depois de ponderar cuidadosamente a respeito de diversas questões sobre o relacionamento mente-cérebro, cheguei à conclusão de que a neurociência não oferece nenhuma evidência de que a mente é idêntica com seu cérebro. Estou convencido de que aqueles que acreditam que ela oferece tais evidências trazem suas convicções naturalistas às evidências. Em outras palavras, eles já são naturalistas (materialistas) antes de praticarem a neurociência deles.

Quarto, podemos perguntar por que neurocientistas como Penfield e Eccles acreditavam na imaterialidade da mente, mesmo estando completamente cientes de que muitos eventos psicológicos são causalmente dependentes de eventos cerebrais. Eu acredito que parte da resposta é que eles não confundiam o conceito de correlação de dois eventos com o conceito de identidade de dois eventos. Simplesmente não se segue do fato de que dois eventos são correlacionados que eles são idênticos. Por exemplo, quando alguém aprende que uma nota alta no Teste Escolar de Aptidão (SAT) está correlacionada com a entrada em uma boa faculdade, ele não iguala tirar uma nota boa no exame com entrar na faculdade. Da mesma forma, quando alguém descobre que comer certos alimentos está correlacionado com uma dor de estômago, ele não iguala comer aquele alimento com ter uma dor de estômago. Também existe o fato de que movimentos de membros do corpo, como braços e pernas, estão correlacionados com eventos no córtex motor do cérebro. Ninguém acredita, porém, que movimentos dos braços e pernas são idênticos aos seus antecedentes causais no cérebro. Se refletirmos sobre o assunto, veremos que, da mesma forma, é óbvio que não há bons motivos para acreditar que eventos psicológicos são idênticos aos eventos cerebrais simplesmente porque os dois estão correlacionados.

Finalmente, você afirma que algumas pessoas religiosas citam experiências fora do corpo ou experiências de quase-morte como evidência para a imaterialidade da mente e para a possibilidade da mente sobreviver sem o corpo. Com todo o respeito, eu duvido seriamente que isso é o que realmente convence as pessoas de que a mente é imaterial. A maioria das pessoas começa acreditando que a mente é imaterial e, à luz desta convicção inicial, não encontra nada conceitualmente problemático com experiências fora do corpo e experiências de quase-morte. Eles não passam a acreditar que a mente é imaterial com base no fato de que eles tiveram ou ouviram falar sobre tais experiências. Além disso, eu acredito que a maioria das pessoas é religiosa porque elas acreditam que a mente é imaterial. Elas não passam a acreditar que a mente é imaterial porque elas são religiosas.

Tudo de bom para você,

Stewart Goetz, Ph.D.

Professor de Filosofia

Ursinus College

Collegeville, PA 19426

- William Lane Craig