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#231 Dificuldade com Paulo

October 28, 2014
Q

Caro Dr. Craig,

Eu mal posso acreditar que eu estou escrevendo para você para fazer esta pergunta.

Eu passei muitos anos evitando cristianismo, e ainda assim, sinceramente, buscando a verdade. Eu estudei o budismo, filosofia acadêmica, e tenho me envolvido com ocultismo.

A razão para estar disposto a buscar a verdade nestes locais, evitando o cristianismo, era porque eu achei a fé cristã em Paulo irrazoável.

Muito recentemente vi uma das suas palestras e fui movido emocionalmente de uma forma que eu não poderia ter antecipado; primeiro: eu vi como o cristianismo poderia ser razoável, e, segundo: eu senti que a Verdade que você estava ensinando era de algum modo a Verdade Real, contra a qual as minhas outras eram como sombras.

Agora me sinto chamado a Jesus – mas ainda continuo repelido por Paulo.

Eu vejo muitas razões para acreditar em Jesus, mas muito poucas para confiar na experiência de Paulo. Acreditar em Jesus parece razoável, mas crer que Paulo não estava se iludindo parece mais difícil de justificar, especialmente quando Paulo parece contradizer Jesus e opor-se aos apóstolos.

A minha pergunta é: É possível ser um cristão, sem ter fé em Paulo ou na sua contribuição doutrinária? Será que os ensinamentos cristãos essenciais da igreja permanecem se rejeitarmos a contribuição de Paulo?

Se não: Como alguém pode ter uma fé razoável em Paulo até o grau de confiança necessário para adotar a sua interpretação de Jesus?

Obrigado pela sua ajuda,

Anthony

<ul><li>United Kingdom</li></ul>

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

É maravilhoso ler de como Deus está trabalhando em sua vida, Anthony! Lembro-me, como um adolescente não-cristão, quando comecei a ler os Evangelhos sobre a vida e os ensinamentos de Jesus, como eu também senti que essa era a Verdade Real, e como eu não poderia virar as costas para ela (ou melhor, para Ele). Depois de me tornar um cristão, aprendi que era o poder convincente do Espírito Santo de Deus em minha vida, me puxando para Si. Você faz bem em atender ao Seu chamado.

Mas você tem um problema com o apóstolo Paulo! E assim, você quer saber se alguém pode se tornar um cristão sem ter fé em Paulo ou sua contribuição doutrinária.

Agora, em um nível, a resposta à sua pergunta é fácil: é claro, é possível ser um cristão sem acreditar em Paulo ou sua contribuição doutrinária! Afinal, pense em todos os cristãos que viveram antes das cartas de Paulo terem sido escritas ou amplamente divulgadas. Ou pense em alguém hoje que não tem a Bíblia em sua própria língua, mas que ouve uma transmissão do Evangelho em uma rádio de ondas curtas ou vê uma exibição do filme Jesus na sua aldeia e coloca sua fé em Cristo. Tais pessoas são, obviamente, cristãos sem ser discípulos de Paulo.

Mas esta resposta é, sem dúvida, muito fácil. O que você quer saber é se alguém como você, que leu as cartas de Paulo, pode não acreditar nele ou sua contribuição doutrinária. Essa é uma pergunta mais difícil, especialmente por você não ter compartilhado comigo quais são os seus problemas com Paulo.

Para começar, no entanto, você certamente não tem que acreditar em Paulo a fim de ser um cristão. O próprio Paulo teria insistido neste ponto. Por exemplo, ao escrever aos cristãos em Corinto, ele disse:

Porque a respeito de vós, irmãos meus, me foi comunicado pelos da família de Cloe que há contendas entre vós. Quero dizer, com isso, que cada um de vós diz: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo. Está Cristo dividido? Foi Paulo crucificado por vós? Ou fostes vós batizados em nome de Paulo? Dou graças a Deus, porque a nenhum de vós batizei, senão a Crispo e a Gaio; para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome.(1 Coríntios 1:11-15).

Paulo, obviamente, não tinha interesse em gerar seguidores de Paulo! Mais tarde, na mesma carta, ele explica como seus convertidos de Corinto deveriam considerá-lo:

Pois quem é Paulo e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um? Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Pelo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. (1 Coríntios 3:5-7)

Então você não tem que acreditar em Paulo para seguir Jesus.

Na verdade, você nem sequer tem que gostar de Paulo! Havia outros cristãos na igreja primitiva como João Marcos e Barnabé e até mesmo Pedro, que às vezes não viam olho a olho com Paulo e brigavam com ele. Mas lembre-se, Paulo colocou diante dos apóstolos de Jerusalém Pedro, Tiago e João a mensagem que ele pregou entre os gentios, e eles ratificaram seu ensino (Gálatas 2:7-9).Certamente, há passagens em suas cartas onde Paulo pode parecer demais. Quando você lê sua carta a Filemom, por exemplo, você não deixar de sentir que ele está realmente girando os parafusos nesse cara. Mas tenha em mente que Paulo está enviando de volta a Filemom um escravo fugitivo, que se tornou um cristão sob o ministério de Paulo, que tem sido um ajudante para Paulo e a quem Paulo ama como a um irmão, e que Filemom, sob a lei, tem todo o direito de exigir punição sobre este homem incrivelmente corajoso, e você tem que dar uma folga para Paulo por colocar pressão sobre Filemom para perdoar a Onésimo. Não se pode deixar de estremecer, também, quando Paulo diz aos coríntios: "trabalhei muito mais" do que qualquer dos outros apóstolos (1 Coríntios 15:10), mesmo se isso for verdade. Mas, novamente, dê uma folga para ele: Corinto estava infestada na época com itinerantes pseudo-apóstolos que estavam atacando o fato de Paulo ser um verdadeiro apóstolo, e ameaçando destruir o trabalho que ele tinha começado em Corinto (2 Coríntios 12:11-13). Ele precisava defender suas credenciais, apesar de pensar que estava se comportando como um idiota ao fazê-lo.

Quanto mais tempo eu tenho sido um cristão, mais eu vim a admirar o apóstolo Paulo. Este era um homem de intelecto imponente, que poderia lidar tanto com os teólogos judeus quanto com os filósofos gregos de seu tempo, e que era infalível em sua coragem, perseverança e dedicação. Basta ler o relato de Lucas do seu ministério nos Atos dos Apóstolos. O próprio Paulo escreveu do que ele tinha sofrido no decorrer do seu ministério através do mundo mediterrâneo:

Recebi dos judeus cinco quarentenas de açoites menos um; três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo;em viagens, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos; em trabalhos e fadiga, em vigílias, muitas vezes, em fome e sede, em jejum, muitas vezes, em frio e nudez. Além das coisas exteriores, me oprime cada dia o cuidado de todas as igrejas. (2 Coríntios 11:24-28)

Eu não posso nem imaginar pelo que esse homem passou. Seu corpo deve ter sido uma massa de tecido cicatricial. Por fim, ele morreu como um mártir em Roma. Quem sou eu para criticar um homem assim? Sinto-me humilde e condenado por seu compromisso e seu amor do Senhor Jesus.

Nem posso imaginar por que você acha que Paulo poderia estar se iludindo. Você está familiarizado com o relato de sua conversão? É realmente incrível quando você dá um passo para trás e pensa sobre isso. Saulo de Tarso (como era chamado em seus dias pré-cristão) era um fariseu! As pessoas às vezes perguntam por que os líderes judeus não se tornaram seguidores de Jesus. Eles estão passando os olhos no mais notável exemplo de alguém que fez isso. Ele estava, na verdade, a serviço das autoridades judaicas em Jerusalém para perseguir judeus que seguiram Jesus. Ele segurou as capas das pessoas que apedrejaram Estevão até à morte em Jerusalém. Ele na verdade foi responsável por arrastar as pessoas para fora de suas casas e até mesmo enviá-las à morte por seguir a Jesus como o Messias! E então ele deixou tudo e se tornou um missionário cristão porque um dia, quando ele estava indo para Damasco para apreender os cristãos lá, ele viu uma aparição de Jesus (I Coríntios 9:1; Gálatas 1:13-17).

A aparição do Jesus ressurreto a Paulo é, talvez, a melhor atestada historicamente de todas as aparições da ressurreição. Temos três relatos dela em Atos de Lucas, assim como várias referências a ela em cartas paulinas, indiscutivelmente genuínas. É historicamente certo, se alguma coisa é, que tal evento ocorreu. Então, se você quer rejeitá-la como não-verídica, você tem que explicar a sua experiência em termos psicológicos como algum tipo de alucinação ou visão. Mas essas explicações são repletas de problemas. (Veja Jesus’ Resurrection: Fact or Figment [Ressurreição de Jesus: Fato ou Ficção] [IVP, 2000], que inclui a transcrição de meu debate com Gerd Lüdemann, que tenta explicar a experiência de Paulo como uma alucinação induzida pela culpa.) Em suma, eu acho que é a pessoa que nega a veracidade da experiência de Paulo que está na defensiva.

Mas deixando Paulo de lado, vamos perguntar sobre sua contribuição doutrinária. Mais uma vez, em certo sentido, você não tem que acreditar na contribuição doutrinária peculiar de Paulo a fim de ser um cristão, porque as doutrinas centrais da fé cristã também podem ser encontradas em outras partes do Novo Testamento: nos Evangelhos, no teologicamente rico livro de Hebreus, e nas outras epístolas. As doutrinas fundamentais da fé cristã não eram peculiares a Paulo. Realmente, não há muito que você TENHA que acreditar a fim de ser um cristão. Doutrinas essenciais incluiriam coisas como a existência de um santo e amoroso, todo-poderoso Deus; sua pecaminosidade diante de tal Deus e necessidade de seu perdão e purificação moral; a divindade e a humanidade de Jesus, sua morte expiatória por seus pecados, e sua ressurreição da morte; e da necessidade de arrependimento pessoal e fé para acessar a graça de Deus. Nenhuma dessas doutrinas é uma idiossincrasia paulina.

Ao refletir sobre a sua carta, Anthony, eu me preocupo que talvez você tenha a impressão de que certas doutrinas paulinas, como a divindade de Cristo, não são ensinadas em outras partes do Novo Testamento. Isso simplesmente não é verdade (ver, por exemplo, João 1:1-3; 20:28; Hebreus 1:6; I João 5:20). Veja também o que eu tenho a dizer sobre a auto-compreensão de Jesus nos capítulos pertinentes ou no On Guard [Em Guarda, em português] (Vida Nova, 2011) ou Reasonable Faith (Crossway, 2008). Os cristãos do Novo Testamento, que eram, lembre-se, judeus monoteístas, pegaram sua doutrina da divindade de Cristo a partir dos ensinamentos do próprio Jesus.

Então, eu simplesmente não consigo descobrir o que há em Paulo que levaria você a rejeitar o seu ensinamento doutrinário. Talvez você não tenha entendido o ensino corretamente. Algumas pessoas, por exemplo, foram repelidas por ensinamentos de Paulo sobre a eleição, em Romanos 9; mas estou convencido de que elas não entenderam a intenção de Paulo nessa passagem, que é o de alargar o âmbito da eleição de Deus para além dos judeus, a todos os que têm fé em Cristo Jesus. É por isso que ele pode dizer: "Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Romanos 10:11).

Então eu lhe encorajaria a ler uma biografia de Paulo e continuar a estudar seu pensamento, em vez de desistir dele. Eu acho que se pode ter não só uma fé razoável no ensino de Paulo, mas que se pode deliciar-se com as ideias deste verdadeiro gênio e corajoso servo de Jesus Cristo.

- William Lane Craig