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#264 Materialismo

May 13, 2015
Q

Caro Dr. Craig,

Eu sou um jovem cristão nascido de novo de Belarus (país ortodoxo oriental nominalmente, com uma história recente de 70 anos de comunismo militante anti-religioso), e eu quero agradecê-lo pelo seu ministério. Assistir aos seus debates com os "neo ateus," como Harris e o falecido Hitchens tem sido muito inspirador. Minha esposa e eu estávamos consternados com quão pobres os argumentos de Sam Harris foram para a moralidade objetiva sem Deus, por exemplo. Deus abençoe você e outros apologistas para restaurar a racionalidade da fé cristã nesta época da insanidade do relativismo!

Agora eu estou estudando apologética, por exemplo, de Greg Koukle, de você mesmo, R. C. Sproul, e outros. No entanto, me falta uma sólida formação filosófica, e essa é a minha razão de escrever a você.

Eu estou atualmente em um debate por e-mail com um ateu (temos muitos em nosso país). A parte relevante da correspondência segue.

À luz do diálogo abaixo, você poderia, por favor, esclarecer algumas coisas sobre o materialismo para mim e/ou também apontar-me a um bom recurso que não sejam excessivamente difícil? Além disso, se eu cometi erros no raciocínio, seria capaz de identificar aqueles também?

As perguntas vem logo após o diálogo, que coloca um contexto para elas.

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Ateu: os teístas representam mal o materialismo quando eles dizem que no materialismo apenas coisas materiais existem. Mas é claro que coisas imateriais existem! As emoções são imateriais, porém elas existem. O materialismo só diz que o material é primário (causa) e que o ideal é secundário (efeito ou manifestação do material).

Teísta: Não tenho certeza que seja uma representação errada, parece que é isso que muitos materialistas dizem, sim. Tanto materialistas vulgares quanto materialistas modernos dizem que as emoções, sentimentos, amor, dever, o bem e o mal podem, de fato, ser reduzidos a partículas elementares trabalhando em nosso cérebro. Que é matéria. Então as emoções são, em última análise, feitas de matéria, então elas devem ser materiais para um materialista consistente.

Por exemplo, Dawkins diz que, no final, não existe bem ou mal, então nenhuma moralidade ou virtudes são possíveis. Então, inconsistentemente, ele chama Deus de 'mau' -- que nem mesmo existe de acordo com ele.

Ateu: eu concordo que, por exemplo, as emoções podem ser REDUZIDAS a processos físicos em nosso cérebro, mas isso não quer dizer que as emoções imateriais NÃO EXISTEM. Emoções imateriais existem, já que "reduzidas a" e "existência" são coisas bem diferentes.

E você entende Dawkins errado. É claro que bem e mal existem, mas nenhum PADRÃO objetivo para discriminar entre os dois existe.

Teísta: Como emoções podem realmente, objetivamente existir se matéria é a única substância? Se tudo é feito de matéria, emoções são parte de tudo? Se são, elas são materiais ou elas não existem, são ilusões. O que realmente existe são neurônios sendo disparados em nosso cérebro e é isso o que a ciência estuda.

Ateu: Eu não disse que tudo era FEITO de matéria. Velocidade não é feita de matéria, porém existe. Emoções são uma MANIFESTAÇÃO de processos materiais, mas elas realmente existem (elas NÃO são ilusões) e elas são IMATERIAIS, elas não são feitas de átomos.

Teísta: Você não está aqui quebrando a lei fundamental da filosofia e da ciência - a Lei da Causalidade? Você tem apenas matéria para começar como uma causa inicial, mas de alguma forma cria algo que não tem - não-matéria (emoções imateriais). Parece que matéria cria não-matéria 'ex nihilo,' não?

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Perguntas com as quais estou lutando:

1. Os teístas de fato representam errado o materialismo quando dizem que para um materialista consistente nada a não ser matéria deve realmente, objetivamente existir?

2. O que É existência real e objetiva? Quer dizer a existência de algo independente do observador? Nesse caso, um ateu pode dizer que minhas emoções existem objetivamente para ele, já que são independentes dele? Ou existência objetiva significa existência independente de nossa consciência, pelo menos?

3. No materialismo, a matéria é a única substância. Isso quer dizer que tudo tem que, em última instância, ser feito de matéria? Se sim, as emoções podem ainda ser imateriais em uma cosmovisão materialista? Ou é algum tipo de 'traição de cosmovisão' ou equívoco de termos?

4. Se o materialismo é falso, quais seriam boas maneiras de atacá-lo? Não temos muitos Mórmons ou Testemunhas de Jeová em Belarus, mas muitos materialistas e Marxistas, especialmente no academicismo.

Obrigado por seu tempo e seu ministério, seus comentários serão muito apreciados.

Deus abençoe,

Andrei

Belarus

  • Belarus

Dr. craig’s response


A [

Obrigado por corajosamente lutar pela fé em um ambiente difícil, Andrei! Que Deus o use grandemente em impactar Blearus para o Reino!

Sua carta levanta perguntas metafísicas muito profundas que são uma questão de considerável controvérsia e debate. Felizmente, eu não acho que estas questões controversas precisam, no final, acabar com um testemunho frutífero para seu amigo ateu. Deixe-me lidar com uma de cada vez

1. Teístas de fato representam errado o materialismo quando dizem que para um materialista consistente nada a não ser matéria deve realmente, objetivamente existir? Isso depende com que tipo de materialista você está conversando! Materialistas ou fisicalistas defendem diversas posições, e o importante é entender qual a visão do seu amigo, não o que é chamado. "Materialismo" ou "Schmaterialismo" — qual a importância do nome? A pergunta importante é: quais razões temos para pensar que a visão dele, seja como for chamada, é verdade?

Alguns materialistas, de fato, tomam a visão difícil de que somente objetos materiais existem. Eles negariam que os itens mencionados pelo seu amigo realmente existem. Seu amigo, por exemplo, pensa que até mesmo velocidade existe! Eu duvido que existam muitos filósofos de qualquer tipo que teriam uma ontologia tão generosa!

Outros materialistas, como seu amigo, defenderiam que as únicas coisas que existem são objetos materiais e objetos que existem sobre uma base material mais fundamental. Esta relação de superveniência é muito difícil de explicar. Seu amigo pensa nisso em termos de relação causal, o que é problemático. Pois o que diferencia uma relação causal entre duas entidades fundamentais de uma relação causal entre uma entidade fundamental e uma causal? Mais explicação é necessária se devemos entender o que é superveniência.

Agora, como seu amigo aceita que entidades imateriais existem — de fato, ele parece acreditar em muito mais entidades imateriais do que eu! —, acho que ele se chama um materialista porque ele nega que existam entidades imateriais que não são causadas por entidades materiais fundamentais. De outra forma, um materialista poderia acreditar em Deus, objetos matemáticos, almas, todas as coisas que não-materialistas podem afirmar que existem. Então o que queremos dele é algum argumento de que as únicas entidades imateriais que existem são as que são consequências de entidades materiais.

2. O que É existência real e objetiva? Esta é, como nós americanos gostamos de dizer, a pergunta de $64,000! Sim, independente da mente é o que se quer dizer com "objetiva." Mas o que se quer dizer quando dizemos que algo existe? Tenho encontrado este problema em meu trabalho sobre os objetos abstratos. Tenho encontrado muitos Platonistas que supostamente afirmam a existência de objetos abstratos, fazem isso apenas em um sentido muito leve, então sua visão é muitas vezes chamada de "Platonismo leve". Platonistas leves irão afirmar até mesmo os objetos abstratos mais bizarros, como localização na frase "A localização do Primeiro Ministro é desconhecida." Isto é mais ou menos como a afirmação do seu amigo de que velocidade existe! Platonistas leves estão usando a palavra "existe" em um sentido muito leve.

Robert Adams tem argumentado que linguagem comum não tem um sentido pesado de "existência" mas usa a palavra nesse sentido leve. Ele propõe que nós podemos fazer afirmações metafisicamente pesadas de existência apenas considerando-as afirmações de que algo é metafisicamente fundamental, onde fundamentalidade é um conceito relacional tendo a ver com o papel que a coisa fundamental tem em um sistema de coisas. "Falando de forma abrangente," ele diz, "o que é fundamental está em uma posição de prioridade relativa ou absoluta ou independência." Presumivelmente, afirmações de existência em um sentido metafisicamente leve asseguram a existência de coisas sem comprometimento com sua fundamentalidade. Adam escreve,

Eu creio que o significado de 'existe' e de quantificadores (informais) é metafisicamente leve em línguas naturais. Eu acho que falamos sinceramente e literalmente, mas sem querer nos comprometer em questões metafisicamente profundas, quando dizemos, como dizemos, que existem pedras assim como galos, formatos e tamanhos, números e teoremas, moléculas compostas de diversos átomos, amebas e outras células vivas que dividem em dois, cidades e estados, leis e acordos, propriedades e relações, palavras que são ditas e escritas, livros que existem tanto em forma impressa quanto eletrônica, e assim por diante. Suponho que poucos se algum de nós diria que todos aqueles objetos são metafisicamente fundamentais.*

Adam, em sua visão,afirma que existir num sentido metafísico leve é uma questão de convenções linguísticas e dos interesses pessoais de alguém.

Eu acho que seu amigo é um materialista no sentido de que, na opinião dele, as únicas entidades fundamentais que existem são entidades materiais. Entidades imateriais não são fundamentais. Mas são supervenientes sobre entidades materiais. Considere buracos, por exemplo. Aposto que seu amigo diria que buracos são entidades imateriais que existem ("Veja," ele poderia dizer: "Aqui está um em minha camisa!"), mas ele negaria que buracos são fundamentais. A menos, claro, se ele acha que a camisa é fundamental; talvez ela só exista em um sentido leve, também!

3. No materialismo, a matéria é a única substância. Isso quer dizer que tudo tem que, em última instância, ser feito de matéria? O materialista não precisa dizer que a matéria é a única substância. Ele pode pensar que cavalos, árvores e outros objetos materiais são substâncias no sentido de coisas existentes. Talvez ele pense que matéria/energia é a única coisa de que as coisas fundamentais são feitas. Coisas que são imateriais só existem no sentido leve da palavra "existe".

4. Se o materialismo é falso, quais seriam boas maneiras de atacá-lo? Em primeiro lugar, exija do materialista alguns argumentos para a visão de que as únicas entidades fundamentais que existem são materiais. Não deixe-o fugir com apenas uma afirmação de sua visão de mundo metafísica ou tentar passar o ônus da prova para você (exigindo que você prove que uma entidade imaterial fundamental existe). Ele está fazendo a afirmação materialista; agora insista que ele apoie a sua reivindicação. Em segundo lugar, dê argumentos para a realidade de entidades imateriais, não-supervenientes. Os argumentos para a existência de Deus vêm à tona aqui. Se Deus existe, então o materialismo é falso. Eu já apresentei os argumentos: o cosmológico, teleológico, axiológica e ontológico, os quais, se sólidos, implicam a existência de um ser imaterial transcendente. Estes são os grandes argumentos para usar contra o materialista, porque eles se concentram no que a verdadeira questão é: teísmo versus o ateísmo. A não ser que o materialista tenha alguns argumentos positivos próprios para provar que o materialismo é verdadeiro, então ele não pode, justificadamente, ignorar argumentos teístas simplesmente porque eles implicam que uma entidade fundamental imaterial existe. Ele precisa mostrar por que esses argumentos teístas são ineficientes, que é exatamente a discussão que você quer ter!



*Robert Adams, “The Metaphysical Lightness of Being,” artigo apresentado para a conferência do Departamento de Filosofia na University of Notre Dame, 7 de abril, 2011.

- William Lane Craig