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#237 O Apelo ao Testemunho do Espírito Santo é Petição de Princípio?

October 28, 2014
Q

Caro Dr. Craig,

Tenho visto que a relação entre razão e fé é um dos aspectos menos compreendidos do cristianismo, especialmente o aspecto relacionado ao saber que o cristianismo é verdadeiro.

Na Pergunta 30 (Falsas alegações do testemunho do Espírito) você tem respondido a essas perguntas, mas eu suspeito que suas respostas não são muito convincentes para muitas pessoas (e até para mim mesmo, para ser honesto).

Quando você é pressionado a explicar como é que você sabe que sua experiência do Espírito Santo é verídica e não falsa (como a experiência de mórmons ou muçulmanos), você responde: "a experiência do testemunho do Espírito é auto-autenticadora para aquele que realmente o tem. O cristão cheio do Espírito é capaz de saber imediatamente que sua reivindicação do testemunho do Espírito é verdadeira a despeito das falsas alegações de adeptos de outras religiões”.

Parece-me que a sua resposta incorre a petição de princípio em favor do cristianismo (ou mais especificamente, a favor de reivindicações cristãs de ter experiências verídicas do Espírito Santo) e contra reivindicações de outras pessoas religiosas tendo experiências semelhantes do Espírito de Deus.

Em outras palavras, sua resposta pressupõe:

1-Que o cristianismo é verdadeiro (daí, o Espírito Santo realmente existe como experimentado pelos cristãos).

2-Que os cristãos têm acesso a essa verdade e, portanto, que outras reivindicações não-cristãs sobre o Espírito de Deus (ou reivindicações de outras pessoas religiosas) são falsas.

Mas precisamente o que está em jogo é se o cristianismo é verdadeiro ou não (isso é o que queremos saber) e, se esse for o caso, como poderíamos SABER objetivamente (não meramente através de uma experiência subjetiva que, por si só, é equivalente a outras experiências subjetivas de outros crentes religiosos não-cristãos).

Eu li e re-li as suas explicações sobre esse assunto, tanto em seu livro e em seu site, e eu sinto que algo está errado com o seu argumento.

A natureza de petição de princípio da sua explicação torna-se mais clara quando você retoricamente pergunta: Como “o fato de outros indivíduos, como muçulmanos ou mórmons, alegarem falsamente sentir o testemunho autoautenticador do Espírito de Deus? Quão relevante para meu conhecimento da verdade do cristianismo através do testemunho do Espírito?”

É verdade que se o cristianismo é verdadeiro e o Espírito Santo existe, então o fato de que outros indivíduos afirmam falsamente experimentar o Espírito de Deus é irrelevante para o meu conhecimento da verdade do cristianismo.

Mas o problema é que não sabemos com antecedência se o cristianismo é verdadeiro ou não (isso é o que estamos tentando saber!), Então eu não posso supor que MINHA experiência do Espírito Santo é a verídica, e a experiência de outras pessoas é a falsa.

Você pode expandir em mais detalhes sobre estas questões, por favor?

Atenciosamente,

Mary

<ul><li>Venezuela</li></ul>

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Mary, esta é uma objeção que, embora compreensível, é baseada em uma incapacidade de compreender corretamente o projeto de Alvin Plantinga em epistemologia religiosa. Plantinga distingue entre o que ele chama objeções de facto e objeções de jure à crença cristã. A objeção de facto é uma que é direcionada a verdade da fé cristã; ela tenta mostrar que as alegações de verdade cristãs são falsas. Por outro lado, a objeção de jure tenta minar a fé cristã, mesmo que o cristianismo seja, de fato, verdadeiro. Plantinga identifica três versões da objeção de jure: que a fé cristã é injustificável, que é irracional, e que é sem garantia. O objetivo de Plantinga é mostrar que todas essas objeções de jure à crença cristã não são bem sucedidas, ou, em outras palavras, que a fé cristã pode ser mostrada injustificada, irracional ou não garantida só se for demonstrado que as crenças cristãs são falsas. Assim, não há objeção de jure a crença cristã independente de uma objeção de facto.

Para mostrar isso Plantinga desenvolve um modelo ou teoria da crença cristã garantida, ou seja, uma versão de como é que nós sabemos a verdade de várias alegações de verdade cristãs. Em nome do seu modelo Plantinga reivindica, não que seja verdade, mas que

(i) é epistemologicamente possível, isto é, até onde sabemos, que seja verdade;

(ii) se o cristianismo é verdadeiro, não há objeções filosóficas ao modelo;

(iii) se o cristianismo é verdadeiro, então algo como o modelo é muito provável que seja verdadeiro.

De acordo com o modelo de Plantinga, Deus garante a nós as grandes verdades do evangelho por meio do testemunho interior do Espírito Santo. Tais crenças são para nós crenças propriamente básicas que são fundamentadas em (mas não inferidas a partir de) o testemunho do Espírito Santo.

Agora, a questão é que tal modelo pode, até onde sabemos, ser verdadeiro. Além disso, se o cristianismo é verdadeiro, então, como você nota, não há nenhum problema com o modelo. Finalmente, penso que Plantinga está certo que, se o Cristianismo é verdadeiro, então algo como seu modelo é muito provável que seja verdadeiro. Portanto, não há objeção de jure para a fé cristã. O descrente que quer argumentar que a fé cristã é injustificada, irracional ou não garantida tem de apresentar objeções à verdade da fé cristã. Porque, se ele não fizer isso, então até onde ele sabe, o cristianismo pode muito bem ser verdadeiro, que no caso não existiria nenhum problema com a crença cristã.

Nada disso incorre a petição de princípio, eu espero que você possa ver. Pois as reivindicações principais são condicionais. Nenhuma delas assume que o cristianismo, na verdade, é verdadeiro.

Agora, é claro, um muçulmano pode fazer reivindicações semelhantes sobre o Islã, como Plantinga reconhece. Assim, também não há objeção de jure à crença muçulmana.

Então, naturalmente vamos querer saber, "Bem, então, o cristianismo é verdadeiro?" O cristão vai dizer "Sim." Isso levanta uma outra pergunta: "Como você sabe?" O cristão pode responder, "Porque eu experimento o testemunho interior do Espírito Santo." Não há nada de circular aqui, mais do que ao alguém relatar que ele experimenta a realidade do mundo exterior ou a presença de outras mentes. Se algum solipsista me dissesse que ele não acredita na realidade do mundo externo ou outras mentes, isso não faria nada para derrotar as minhas crenças. Mesmo que ele afirmasse que Deus estava garantindo a ele suas crenças solipsistas de uma maneira propriamente básica, isso não faria nada para questionar minhas crenças. Ele pode alegar o que ele quiser; Eu sei melhor.

Claro, o muçulmano pode dizer a mesma coisa, e por isso temos um impasse. Mas aqui a minha distinção entre saber que a nossa fé é verdadeira e mostrá-la como verdade torna-se relevante. A fim de mostrar ao nosso amigo muçulmano que suas crenças não são propriamente básicas, podemos apresentar objeções de facto à verdade do Islã. Como ele não possui de fato um testemunho verdadeiro do Espírito Santo para a verdade do Islã, podemos esperar que a confiança vai rachar sob a força da evidência e que ele virá a perceber que sua experiência ou não era verídica ou mal interpretada.

Mais uma vez, o muçulmano pode dizer a mesma coisa e assim se envolver em apologética muçulmana que visa proporcionar objeções de facto ao cristianismo. Ótimo! Que venha o debate!

- William Lane Craig