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#205 O Cientificismo é Auto-Refutável?

October 28, 2014
Q

Caro Dr. Craig,

Como você responderia a este argumento de que o cientificismo não é auto-refutável:

"O cientificismo sempre foi bem sucedido no passado; quaisquer explicações supernaturais usadas pelos nossos antepassados foram substituídas por explicações naturalistas. Nunca uma explicação sobrenatural substituiu uma naturalista. Já que as previsões do cientificismo sempre foram mais tarde confirmadas diretamente pela evidência, isso equivale a um bom argumento indutivo a favor do cientificismo. Então Craig está errado quando diz que o cientificismo não pode ser provado cientificamente porque o próprio sucesso do cientificismo e adoção por cientistas serve como evidência de sua verdade."

Basicamente, a pessoa que eu citei é um amigo meu que trata o próprio cientificismo como uma teoria científica e argumenta que o cientificismo é indutivamente garantido (justificado) e comprovado. Por isso, ele alega que não é auto-refutável. Ele também acha que essa estratégia pode ser estendida para o evidencialismo (descobri isso quando tentei explicar a ele a Epistemologia Reformada). Ele rejeita seu outro argumento contra o cientificismo de que a ciência não pode explicar as verdades matemáticas (porque ele é um empiricista sobre a matemática e lógica), a moralidade (ele é um niilista) e a estética (ele é um niilista sobre isso também). A coisa mais preocupante é que eu já vi outros empiricistas auto-denominados na internet usando argumentos semelhantes a estes. Como devo responder a estes tipos de afirmações?

Obrigado,

Neel

<ul><li>United States</li></ul>

Dr. Craig

Dr. craig’s response


A [

Neel, seu amigo está confundindo cientificismo (uma tese epistemológica) com naturalismo (uma tese ontológica). O cientificismo é a visão de que devemos acreditar apenas no que pode ser provado cientificamente. Em outras palavras, a ciência é a única fonte de conhecimento e o único árbitro da verdade. O naturalismo é a visão de que os eventos físicos têm apenas causas físicas. Em outras palavras, os milagres não acontecem; não há causas sobrenaturais.

Essas teses são obviamente diferentes. Uma pessoa poderia aceitar outras fontes de conhecimento além da ciência, como a intuição racional, e ainda ser um naturalista. Da mesma forma, pode-se defender uma epistemologia do cientificismo e ainda ser um não-naturalista. Por exemplo, o falecido W. V. O. Quine, que defendeu que a ciência física é a nossa única fonte básica de conhecimento, livremente admitiu: "Se eu visse benefício explicativo indireto ao postular sensibilia, possibilia, espíritos, um Criador, eu alegremente conceder-lhes-ia status científico também, em pé de igualdade com esses postulados declaradamente científicos como quarks e buracos negros."1 Assim, o cientificismo não implica naturalismo, nem o naturalismo implica cientificismo.

Assim, deixando de lado por um momento a questão do naturalismo, que problemas existem com o cientificismo? Há dois que são especialmente significativos. Em primeiro lugar, o cientificismo é demasiado restritivo para uma teoria do conhecimento. Se fora adotado, obrigar-nos-ia a abandonar amplos setores do que a maioria de nós considera ser áreas do conhecimento humano. Seu amigo admite isso no que diz respeito às verdades morais e estéticas. Em sua opinião, não há nada bom ou mal, certo ou errado, bonito ou feio. Mas é plausível pensar que não existem verdades estéticas ou morais? Na visão de seu amigo não há nada de errado com torturar uma menina até a morte. Por que devemos aceitar essa conclusão simplesmente por causa de uma restrição epistemológica? Não é este um sinal de que precisamos alargar o âmbito da nossa teoria, de modo a abranger outros tipos de conhecimento? Seu amigo diz que trata verdades lógicas e matemáticas como verdades meramente empíricas. Boa sorte! Verdades como "Se p implica q, e p, então q" ou "2 + 2 = 4" são para todas as aparências verdades necessárias, não meramente generalizações empíricas. E quanto a própria ciência? A ciência é permeada de pressupostos que não podem ser comprovados cientificamente, de modo que uma epistemologia do cientificismo iria destruir a própria ciência. Por exemplo, o princípio da indução não pode ser justificada cientificamente. Só porque A sempre foi sucedido por B no passado não fornece nenhuma garantia para inferir que o próximo A será seguido por B. Pois poderíamos estar no início de uma série caótica de As e Bs cujo segmento inicial é ordenado ABABAB. Então, tentar proporcionar "um bom argumento indutivo para o cientificismo" é impossível, já que deve pressupor a validade do raciocínio indutivo.

Em segundo lugar, o cientificismo é auto-refutável. Cientificismo nos diz que não deveríamos acreditar em qualquer proposição que não possa ser comprovada cientificamente. Mas o que dizer dessa própria proposição? Não pode ser comprovada cientificamente. Portanto, não devemos acreditar nela. O cientificismo derrota a si mesmo assim. O argumento oferecido por seu amigo a favor do cientificismo não é um argumento para o cientificismo, mas para o naturalismo. Ele está argumentando que a suposição de que há apenas causas naturais operativas no mundo atingiu um sucesso extraordinário em contraste com a suposição de que há causas sobrenaturais também. Isso não tem relevância para a pergunta epistemológica diante de nós. Ela é no máximo um argumento contra milagres. Na verdade, é muito mais fraco do que isso: é, na melhor das hipóteses, um argumento para o naturalismo metodológico, ou seja, a visão de que, ao fazer ciência natural, devemos assumir que todos os eventos físicos têm apenas causas naturais. O naturalista metodológico não precisa ser um naturalista metafísico, ou seja, ele não precisa negar que milagres acontecem ou que existam entidades sobrenaturais. Ele afirma apenas que eles não são a preocupação da ciência. Ciência é apenas a busca por causas naturais ou explicações de fenômenos. Esta tese metodológica é a com que uma grande parte, se não a maioria, dos cientistas cristãos concordam. Assim, o argumento de seu amigo realmente não importa muito.

Como Michael Rea mostrou em seu livro incisivo World without Design [Mundo sem Design] (Clarendon Press, 2002), que a única forma defensável do naturalismo epistemológico (isto é, cientificismo) é que é uma decisão metodológica de seguir um programa de pesquisa que toma as ciências físicas como a única fonte básica de conhecimento. Como tal, não pode ser justificada. Ele só representa a decisão pessoal do naturalista de adotar um determinado programa de pesquisa. Qualquer pessoa pode, com igual direito, adotar um programa de pesquisa diferente, que pode aceitar outras fontes de conhecimento além das ciências físicas.

Uma nota final sobre o argumento do seu amigo a favor do naturalismo: é claro que nenhuma explicação sobrenatural já substituiu uma naturalista! Isso é garantido pela suposição de ciência do naturalismo metodológico. O naturalismo metodológico proíbe que explicações sobrenaturais até mesmo sejam incluídas no conjunto de opções explicativas viáveis. Assim, é impossível para uma explicação sobrenatural substituir uma naturalista! Apenas para os teóricos que estão dispostos a desafiar o pressuposto do naturalismo metodológico, como cientistas da criação ou defensores do Design Inteligente, existe a possibilidade de uma explicação naturalista poder dar lugar a uma explicação sobrenatural. Eles argumentam que deveria fazê-lono caso da complexidade biológica. Mas porque eles estão trabalhando com um conceito de ciência fora da corrente (ou seja, eles rejeitam o naturalismo metodológico), é altamente improvável que a visão deles se torne a visão paradigmática da ciência, não importa quais sejam as evidências.

Observo também que em quase dois mil anos nenhuma explicação naturalista conseguiu suplantar a ressurreição de Jesus (uma explicação sobrenatural) se alguma vez houve uma, dos fatos concernentes ao destino de Jesus de Nazaré.



Notas

1 W. V. Quine, “Naturalism; or, Living within One’s Means,” Dialectica 49 (1995): 252.

- William Lane Craig