#230 O Monoteísmo Trinitariano é Ortodoxo?
October 28, 2014Caro Dr. Craig,
https://apps.biola.edu/apologetics-store/products/books/item/philosophical-foundations-for-a-christian-worldview_Book
Eu tenho escutado a sua Defenders Class [classe de Defensores] desde que reiniciou em dezembro de 09 e tenho me beneficiado com o conteúdo. Eu gostaria de lhe agradecer por seu amor contínuo por Deus e suas verdades; seu trabalho é uma verdadeira bênção. Recentemente, em sua classe de Defensores você discutiu a doutrina da Trindade. Os dois podcasts mais recentes têm sido sobre uma tentativa de compreender a relação entre os diversos membros da Trindade e sua unidade. Você foi formando e defendendo o modelo que está em Philosophical Foundations for a Christian Worldview [Filosofia e Cosmovisão Cristã] no capítulo 29 em seus podcasts onde você usa a analogia do Cérberus na mitologia grega.
A minha pergunta tem a ver com o modelo da Trindade e um artigo recente que eu li que discorda da sua formulação. No Oxford Handbook of Philosophical Theology, de Thomas Flint e Michael Rea, especificamente no capítulo 18. Michael Rea argumenta contra sua formulação a partir da página 415. Ele rotula o modelo que você está defendendo como um Trinitarianismo parte-todo. Ele escreve: "... Moreland e Craig querem preservar a visão de que Deus é divino enquanto negam que Deus é uma quarta coisa divina, a par com as pessoas. Assim, eles distinguem dois tipos de divindade: a natureza divina completa, que é possuída por Deus e implica tri-unidade, e uma natureza divina derivada, possuída por cada pessoa."
Então, Rae retruca levantando dois problemas, que ele acha que são "devastadores" para o seu modelo. Primeiro, ele argumenta que não é possível afirmar a frase de abertura do Credo de Nicéia. Rae escreve: "... Moreland e Craig não podem afirmar a frase de abertura do Credo de Nicéia: ‘Cremos em um só Deus, Pai Todo-Poderoso’. Pois, em sua visão, Deus é uma coisa fundamentalmente diferente do Pai," (p. 416).
Em segundo lugar, Rae argumenta que o modelo que você defende não pode afirmar a cláusula homoousion crucial no mesmo credo "a menos que eles rejeitem a ideia de que existe exatamente uma natureza divina." Rae desenvolve isso quando ele escreve: "... as únicas interpretações viáveis da alegação do credo que o Filho é homousion com o Pai dizem que o Filho é numericamente a mesma substância do Pai ou da mesma natureza que o Pai. (Naturezas também eram referidas como ‘substâncias’; portanto, sendo consubstancial com algo só poderia significar ter a mesma natureza.) O primeiro, é claro, eles rejeitam. O último eles aceitam; mas ao aceitá-lo, eles postulam, de forma eficaz, duas naturezas divinas uma "genuína", possuída apenas por Deus, a outra derivada, mas ainda divina, possuída pelas duas pessoas. É claro, eles poderiam negar que a natureza derivativa é uma natureza divina. Mas, ao fazê-lo, eles parecem tirar das pessoas sua divindade, o que entraria em conflito com outras partes dos credos de Nicéia e Constantinopla. Se tudo isso estiver certo, então, o Trinitarianismo parte-todo está em sérios apuros ..."(p. 416).
Estou curioso para saber como você responderia a Michael Rea por eu valorizar ambas as suas contribuições para a teologia em particular, e o avanço do reino de Deus em geral. Eu não tenho certeza que você já interagiu com Rae sobre esses pontos antes, mas eu adoraria ouvir uma resposta a essas acusações. Mais uma vez obrigado por tudo o que você faz.
Jeff
<ul><li>United States</li></ul>
Dr. craig’s response
A [
Obrigado, Jeff, por chamar minha atenção para essas críticas! Será que elas são tão devastadoras como Michael pensa?
(1) A frase de abertura do Credo afirma que Deus é só o Pai? Eu acho que Michael não leva em conta o contexto do Novo Testamento sobre a frase "Nós acreditamos em um Deus, o Pai, Todo-Poderoso." O contexto do credo dessa frase é
Cremos em um só Deus, Pai Todo-Poderoso…;
E em um só Senhor Jesus Cristo,…;
E (cremos) no Espírito Santo.
A confissão é extraída de I Coríntios 8:6: "para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem nós existimos, e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas e por meio de quem nós existimos." O credo levanta a frase chave de Paulo "um só Deus, o Pai... e um só Senhor, Jesus Cristo" e, então acrescenta para fins trinitários, a menção concisa do Espírito Santo. Como Murray Harris explica em seu belo livro Jesus as God [Jesus como Deus] (Baker, 1992), a razão por que encontram-se relativamente poucas referências no Novo Testamento a Jesus como ho theos (Deus) é porque esse termo foi reservado para o Pai. Quando os escritores do Novo Testamento usam a palavra "Deus", eles estão normalmente referindo-se ao Pai. Já que os escritores do Novo Testamento não acreditavam que Jesus era o Pai, eles tiveram que encontrar outras expressões para indicar a sua divindade, como ho kyrios (Senhor). O credo segue essa expressão idiomática. Assim, quando se refere a "um só Deus, o Pai", não precisa ser tomado para significar que o Pai é o todo de quem Deus é. Falar de ho theos é apenas para falar sobre o Pai. Assim, quando Jesus é confessado ser o "Filho de Deus", isto é levado para significar "gerado do Pai."
(2) Ser homoousion (consubstancial) com o Pai então não é problemático porque o Pai não é considerado como sendo todo o ser que Deus é. O Pai e o Filho compartilham da mesma natureza derivada (como Michael coloca; não estou completamente feliz com esta forma de fazer a distinção). Não devemos pensar das pessoas divinas como instâncias da natureza de Deus, assim nós teremos um quaternidade em vez de uma Trindade. Há apenas um ser que é o Deus Triúno. O Pai, o Filho e o Espírito compartilham as mesmas propriedades essenciais que o contam como divino, como onipotência, onisciência, perfeição moral, necessário, etc. É enganoso contrastar a natureza das pessoas com a natureza "genuína" de Deus, como se sua divindade fosse alguma forma de segunda categoria ou falsificada. Um esqueleto de gato ou o DNA é totalmente e efetivamente felino, mesmo se eles não são eles próprios gatos, isto é, as instâncias da natureza do gato. Da mesma forma, o Pai, o Filho e o Espírito são verdadeiramente divinos, embora eles não sejam cada um uma Trindade, isto é, uma instância da natureza de Deus.
- William Lane Craig